Para que serve uma Igreja à distância?
Dado que a sociedade atual nega as suas raízes cristãs e precipita no niilismo, o comportamento que se impõe – dizem – é aquele que estabelece para as Igrejas um «programa de contracultura», um projeto de concentração em si mesma e na mensagem principal.
A uma sociedade em vias de dissolução é preciso contrapor uma sociedade eclesial firme e forte, que mostre relações novas em todos os âmbitos – económico e sexual, político e artístico – inspirados no Evangelho.
Esta reação conjuga-se no plural pois adquire formas muito diversas. A uma sociedade que se tornou surda ou hostil é preciso opor uma contrassociedade cristã que mostre com a própria vida a pertinência e a eficácia da sua mensagem e, sobretudo, que se oponha à secularização.
A evangelização passa então em primeiro lugar pela reconstrução ou construção de uma Igreja cristã que contenha em si todas as dimensões da existência humana, sem tentar convencer mentes hostis ou desviadas por falsos pensamentos.
Esta atitude de se retirar de um mundo julgado decadente ou corrupto, aliás de condenação de uma sociedade da qual o cristão se deve afastar, tem expressões muito diferentes.
Evidenciam, contudo, o que eu chamaria uma tentação forte, ou uma reativação de um comportamento intelectual e prático que favorece a construção e o reforço de uma Igreja à distância, essencialmente crítica, que vive numa margem contestadora, como uma contrassociedade que tem em si mesma os próprios recursos.
Tentação que, na minha opinião, como tal, se pode e se deve compreender, mas exatamente para dela se afastar. De facto, há o temor de que esta atitude leve só à esterilidade e ao desprezo da mensagem evangélica.
Em primeiro lugar, temos a certeza que as Igrejas têm recursos para se constituírem em contracultura, sobretudo numa contracultura crível e viva? Não correm o risco de, aos olhos dos nossos contemporâneos, parecer seitas, desconfiadas em relação a quanto as circunda e arrogantes?
E não é inútil pretender ir «além da razão secular», ou cancelar uma secularização que deriva de um movimento profundo das nossas sociedades (nas quais o cristianismo desempenhou contudo um papel positivo e importante)? Significa atribuir-se uma tarefa impossível, por conseguinte inútil, sem falar da pretensão de restituir à teologia um papel de «ciência das ciências».
Semelhantes wishful thinkings são terreno fértil para desilusões garantidas; levam por becos sem saída os quais devem ser evitados.
E, sobretudo, existe a possibilidade de que sem a fecundação da alteridade, a mensagem evangélica perca a sua pertinência, a sua força e dinâmica: sem o encontro e o cruzamento com as culturas nas quais se insere, a mensagem evangélica já não oferece a sua linfa e perde a própria fecundidade.
Não por acaso, os últimos Papas insistiram muito na necessária relação de fecundação recíproca entre fé e razão: nada se obtém a nível da fé – repetiram com insistência – afastando-se de uma relação crítica e viva com o trabalho da razão; cai-se então no pietismo, no fideísmo ou no sectarismo.
Por sua vez a razão, por muito doente ou débil que esteja, pode e deve encontrar uma provocação a não renunciar às questões mais importantes, entre as quais as que provêm do mundo da fé.
A própria teologia só pode manter-se viva na aceitação fecunda do seu confronto com os conhecimentos humanos e com as mais diversas buscas de sentido. Isolada, precipita na inutilidade escolástica ou em conversas estéreis.
P. Paul Valadier
In L'Osservatore Romano
08.09.13









