Leitura
Paraíso e Inferno
«Nada é para mim doce sem ti»
Poema brevis este romance intenso e cheio de imaginação de Jón Kalman Stefánsson, recentemente traduzido para português pela editora Cavalo de Ferro. A parábola exerce ainda um poder notável sobre a imaginação humana. O discurso parabólico pode ajudar à trans-figuração do que vemos, sentimos e pensamos. Nesse sentido enganam-se aqueles que esperam aqui encontrar definições ou estereótipos sobre o inferno ou o paraíso. O tecido das relações humanas e o espaço metafórico do mundo é demasiadamente rico e complexo para ser cristalizado ou estatizado em conceitos rígidos. A intuição desarma o nosso arsenal linguístico pré-concebido, inovando-o: “o inferno é ter braços mas ninguém a quem abraçar”; “café e pão são o próprio paraíso […] A felicidade é ter algo para comer, ter escapado à tempestade” (pp. 34.66). Inesperada esta intuição? Talvez. Mas tudo menos definição. Paraíso e Inferno não se alarga em reflexões filosóficas complexas que, verdade seja dita, quando mal pensadas, quebram o ritmo dos romances e exalam pretensiosismos inúteis. Stefánsson, invés, colhe muito da sabedoria prática judeo-cristã presente nos livros sapienciais e nos evangelhos.
Esta parábola surge no contexto de uma comunidade pescatória islandesa. Situada nos finais do século XIX, a agrura e a violência do mar, a separação do mundo que as montanhas provocam na geografia local e humana, parece não deixar espaço ao “sonho da luz” (Victor Erice). É “o mar num dos lados, montanhas íngremes e altas no outro, é aí que se passa toda a nossa história” (14). O mar – “frio e por vezes escuro” (p. 39), “fonte da vida, nela habita o ritmo da morte” (p. 75) – reflexo luminoso da brisa suave e do tumulto temoroso. Esta geografia do isolamento físico é símbolo da distância humana indiferente à morte de Bárður. Água que simboliza a vida e possibilidade agitada de morrer, o mar interroga os homens que nele navegam e nele se incarna ora o inferno ora o paraíso. No fundo, “as profundezas do mar estão livres de todo o mal, são apenas vida e morte, enquanto haveria uma necessidade de se benzerem as linhas, não apenas uma, mas pelo menos dez mil vezes, se tivéssemos de as enviar para as profundezas da alma humana” (p. 53).

A “vida humana é uma corrida constante contra a escuridão do mundo, a traição, a crueldade, a cobardia, uma corrida que tantas vezes parece desesperada, mas, ainda assim, corremos e, ao fazê-lo, a esperança sobrevive” (p. 13). Extraordinária sentença para tempos de escombros, e não só! A metáfora do mar é extensível a metáfora da vida, ao processo dialético que une os contrários sem os separar radicalmente. O bispo Crisóstomo, “boca de ouro”, reconverte a metáfora assim: “Muitas vagas e fortes tempestades nos ameaçam, mas não tememos ser submergidos, porque nos apoiamos na rocha firme. Por mais que se enfureça o mar, nunca poderá quebrar esta rocha”.
A personagem principal, Bárður, sucumbe no mar bravo de inverno. Não foi a hipotermia a causa imediata da sua morte. Foi algo prévio. A natureza é violenta em si mesma mas ainda assim previsível quanto baste para nos prevenirmos. Na verdade, o que fez sucumbir o jovem Bárður foram os versos do poema Paraíso Perdido de John Milton (1608-1674): “nada é para mim doce sem ti” (p. 49). Por isso “é perigoso ler poemas” (p. 71). A intimidade com estes versos fez Bárður esquecer-se do seu impermeável que lhe teria salvado a vida. Mas há uma outra morte: a indiferença do olhar dos seus companheiros, preocupados em conseguir peixe abundante. A morte deixa sempre um legado, uma relação vinculativa, dolorosa, com aqueles que permanecem em vida. De certo modo “todos nós nascemos para morrer” (p.24). É essa experiência que abre a possibilidade de futuro, de não reduzirmos tudo ao ato presente. O “inferno é uma pessoa morta” (p. 71). O amigo de Bárður, cujo nome nunca aparece, mais novo e inexperiente, sentirá mais do que ninguém o peso desta sentença. Este “rapaz”, após a morte do seu amigo, que na aflição do enjoo em alto mar lhe sussurrara os versos de Milton “nada é mais doce sem ti”, iniciará uma longa viagem para entregar o livro que o capitão cego Kolbeinn emprestara a Bárður. A certeza da vida, mais evidente do que a morte, reside na memória afetiva daqueles versos. Nos afetos reside o princípio da pessoalidade. “Tudo aquilo que se relaciona com essa pessoa torna-se uma recordação que lutámos para reter, e é traição esquecer isso. Esquecer como ele bebia café. Esquecer como se ria. Como olhava para cima. Mas, ainda assim, esquece-se. A vida exige que se o faça.” (p. 75).

Romance pleno de sensualidade, silenciosa e interpelativa, aqui a oração é expressão de um corpo dançante, sincopado pelas ondas do mar. Não é à parte da vida mas brota da profundidade dos acontecimentos. O mar é o templo que ensina a condivisão e a fração do pão e a sentir o peso das palavras dirigidas ao Criador. Oração que vem da vida, que se conjuga com as coisas do quotidiano, de um saber não exclusivamente pensado, mas sentido e afetivo. Vale a pena transcrever um pedaço de oração profana que paulatinamente se transfigura em louvor sacro:
A maior parte de nós cresceu aqui junto ao mar e praticamente não viveu um dia sem o ouvir, e os homens começavam a sua carreira no mar aos treze anos, é assim que é há mil anos, ainda assim ninguém sabe nadar além de Jónas […] Ainda assim sabemos algumas outras coisas, sabemos como rezar, como fazer o sinal da cruz, benzemo-nos mal acordamos, quando vestimos os nossos impermeáveis, benzemos o equipamento de pesca, o isco, benzemos cada ação, confiámos os banquinhos onde nos sentamos a Ti, Senhor, protege-nos com a Tua bondade, silencia os ventos, para as ondas que se se podem tornar tão aterradoras. Colocámos toda a nossa confiança em Ti, Senhor, que és o início de todas as coisas e o fim […] Confiamos em Ti, Senhor, que nos criaste à Tua imagem, criaste os pássaros para que pudessem voar no céu e recordar-nos a liberdade, criaste os peixes com barbatanas e caudas para que pudessem nadar nas profundezas que tememos. Todos nós podemos, é claro, aprender a nadar como Jónas, mas, Senhor, não estaríamos então a expressar a nossa falta de fé em Ti, como se acreditássemos ser capazes de corrigir algo na criação? Além disso, o mar é muito frio, nenhum homem nada muito tempo nele, não, não confiamos em ninguém, para além de Ti, Senhor, e no Teu Filho, Jesus, que não conseguiu nadar mais do que nós, nem tinha necessidade disso, caminhava simplesmente sobre a água. Pensem só nisso, se tivéssemos a verdadeira fé e conseguíssemos então caminhar sobre o mar, caminhar simplesmente até às zonas de pesca, capturar peixe e depois regressar a casa, talvez dois em conjunto, transportando um cesto de mão. Ámen (p. 40).

Há aqui uma teologia e cristologia profundas. Uma oração que evoca o criado como condição para uma aceitação crente do viver humano. Oração que não apela ao mero assistencialismo, ou redutor jogo de dar e de receber. Pelo contrário, faz brotar o tempo e o espaço do existir na Palavra que faz Ser todas as coisas. A evocação da bênção de Deus não é magia ou ritualismo mas sinal da excedência da nossa precariedade. A fé nutre-se de confiança, sem excesso nem defeito, que eleva tudo o que somos uns com os outros no amor de Deus. De facto “não temos nada além de fé na misericórdia do Senhor, e talvez uma minúscula quantidade de engenho, coragem, anseio por viver” (p. 40). Não será este anseio o que falta ainda cumprir no desígnio do humano contemporâneo? Não há respostas cabais nem certezas absolutas em alto mar. O turbilhão das ondas do mar é metáfora da vida, da dialética sempre omnipresente entre luz/sombra, visível/invisível, material/espiritual, força/debilidade, paraíso/inferno. Por isso “é uma questão de saúde mental e espiritual, de inferno e paraíso, de tornar a realidade um sítio melhor” (p. 111). Disso depende a nossa estadia aqui na terra e o caminho a encetar para alcançar a vida eterna. Tudo resulta de uma positiva e sadia disposição proafetiva (em favor de o/Outrem).
Mas será credível “aprendermos aos poucos a confiar nos sentimentos e não na memória” (p. 18)? Os sentimentos desempenham um papel importante no conjunto das relações individuais e sociais. São eles, ora implícita ora explicitamente, que delimitam e sustentam uma grande parte do agir e pensar quotidianos. Um teólogo definira a ‘fé como a emoção sentida de Deus’. A “alegria, felicidade, amor escaldante forma a trindade que faz de nós pessoas, que justifica a vida e a torna mais importante do que a morte, e que, no entanto, não garante maior abrigo do vento ártico do que aquele” (p. 61). A nossa cultura ocidental racionalista não deixa grande espaço para a criatividade parabólica que suscita um assentimento afetivo e real, além do cogito, ergo sum cartesiano. Pensamos com o sentimento e as-sentimos com o pensar. “Pétur não precisa de ver nada, as direções estão no seu interior e tenta guiá-los no percurso certo, tanto quanto o vento permite” (p. 64). Sentimento e memória interagem, além das condições circundantes, mas não sem elas. As nossas recordações não são meras imagens organizadas em pensamento. Nelas estão contidos os afetos e os sentimentos também, porque “um corpo vivo é extraordinário” (p. 67).

“Nada é para mim doce sem ti” é o refrão que se repete constantemente. Sem o outro, sem amizade, sem filiação, sem comunidade de pertença, e sem Deus, nada é doce. Aqui a pergunta é pertinente: o que nos leva a um ato de autotranscendência, a ir além de nós mesmos? A sobrevivência, a justiça, o amor, a verdade, Deus? “O rapaz tirou as luvas e esfrega o rosto frio do seu amigo, olha-o nos olhos, sopra-lhes em cima, sussurra, diz algo, acaricia-lhes as faces, ele esbofeteia-las e grita e espera e murmura mas nada acontece, a ligação entre eles foi quebrada, o frio reivindicou Bárður. O rapaz olha sobre o seu ombro, para os quatro homens que lutam unidos pelas suas vidas, olha de volta para Bárður, que está sozinho, já nada lhe pode tocar, exceto o frio” (p. 65). Ninguém deveria morrer com frio ou com a dor de ser esquecido!
Mas, na verdade, o que é que nos redime, o que nos salva? A amizade, na vida e na morte. “Deveríamos cuidar daqueles que são para nós importantes e que têm em si bondade, e de preferência nunca os abandonar, a vida é demasiado curta para isso e, por vezes, termina de modo súbito, como descobriste desnecessariamente” (p. 164). Este romance é, na verdade, uma história de amizade que choca com indiferença agreste do que se inebriam com a mecanicidade das palavras e dos atos. Do tudo dado como descontado e sabido. Só amizade nos redime, nos aproxima ou nos afasta, do inferno ou do paraíso. No final da vida, como ponto de passagem, possamos dizer ternamente a a/Alguém: “«Nada é para mim doce sem ti», murmura Bárður” (p. 65).

Aprender a “habituar os olhos à diferença de luz” (p. 123), que gradeia a nossa existência presente e futura, é condição para uma vida crente proafetiva, a e em favor de o/Outrem. Talvez “as nossas palavras sejam equipas de salvamento confusas com mapas obsoletos e cantos de passarinhos em vez de bússolas. Confusas e verdadeiramente perdidas, a sua função é, contudo, a de salvar o mundo, salvar vidas terminadas, salvar-nos e então, esperemos, também nos salvar.” (p. 83).
Permanece o apelo à leitura atenta desta pequena obra-prima da literatura contemporânea. O escritor Italo Calvino afirmava que “um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”. Sobre Paraíso e Inferno ainda não se disse tudo. A condição fundamental para apreendê-lo poderá ser o silêncio, a suspensão dos nossos pré-juízos sem recusar a pensar seriamente com o texto. O “silêncio após uma longa narrativa indica se foi importante ou se contada sem nenhum efeito, indica se a história foi apreendida e se tocou algo ou apenas encurtou as horas e nada mais” (p. 164). Sem precipitações, caberá a cada leitor decidir seguir ou recusar este sábio convite do autor.
João Paulo Costa
Imagens: Arcabas (Peregrinos de Emaús)
© SNPC |
17.09.13









