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Paulo VI e D. Oscar Romero, os primeiros “mártires” do Vaticano II (II)

D. Romero, o primeiro mártir cruento do concílio

Conheci D. Romero pessoalmente em janeiro de 1979, em Puebla, participando nos trabalhos da 3.ª Conferência Geral do Episcopado Latino-americano (CELAM), Era então diretor da revista “La Civiltà Cattolica” e tinha sido enviado a Puebla, como perito, pelo papa João Paulo I. O cardeal Sebastiano Baggio, que era presidente da Comissão Pontifícia para a América Latina, quis que eu participasse nos trabalhos da 6.ª comissão de estudo, encarregada de aprofundar a relação entre evangelização, libertação e promoção humana, a que pertenciam também D. Oscar Romero e D. Hélder Câmara. Ao todo éramos 17, entre bispos e peritos.

Por isso, o meu conhecimento do arcebispo de San Salvador não foi fortuito ou fugidio. Trabalhámos juntos durante três semanas, dedicando muitas horas a aprofundar, à luz das graves necessidades dos pobres, a Palavra de Deus e o ensinamento da Igreja, para procurar as respostas a dar e as opções a tomar para anunciar o Evangelho em situações desumanas e anticristãs de subdesenvolvimento, de violência física e moral, de marginalização na América Latina e não só.

O trabalho da nossa comissão está condensado na segunda parte do documento final de Puebla, precisamente no parágrafo 4 do segundo capítulo, intitulado “Evangelização, libertação e promoção humana” (nn. 470-506). D. Romero – recordo bem – contribui ativamente para a redação definitiva daquele parágrafo, aprovado depois pela assembleia geral. Nele se pode encontrar muito do seu espírito pastoral e da sua coragem apostólica. Chegando a Puebla, levava comigo o preconceito, muito espalhado nos ambientes romanos, segundo o qual D. Romero era uma “cabeça quente”, um bispo “politicante”, favorável à teologia da libertação. Desde os primeiros encontros pude descobrir um homem completamente diferente da imagem que me tinha sido feita em Roma. Tocaram-me desde logo a humildade sincera do trato, o extraordinário espírito de oração, a indiscutível fidelidade ao Evangelho e à Igreja, sobretudo o grande amor pelos pobres, pelos últimos dos seus campesinos. Exatamente o contrário dos preconceitos que tinha ouvido. Durante as três semanas de debate e trabalho comum, fiquei favoravelmente impressionado sobretudo pela sua docilidade. Vi-o renunciar mais do que uma vez ao seu parecer, deixando-o cair sem insistir, quando a maioria da comissão se inclinava para outra solução.



«Foi durante a vigília de oração, diante dos despojos do heróico padre jesuíta, que se tinha imolado pelos pobres, que eu compreendi – prosseguiu D. Romero – que cabia agora a mim ocupar o seu lugar, sabendo bem que também eu arriscaria a vida»



Parece-me totalmente infundada a acusação movida contra ele (e contra outros bispos) de ser a imparcialmente a favor da teologia da libertação, de que eu conhecia bem as diferentes correntes e na qual estávamos interessados também nós na “Civiltà Cattolica”. Dei-me logo conta de que D. Romero e outros não eram de todo submissos em relação aos fautores de uma leitura marxista do Evangelho (que justamente a Igreja condena); muito mais simplesmente eles, ao denunciar as injustiças, aplicavam a Palavra de Deus diretamente aos problemas concretos das pessoas, sem demasiadas mediações. Era portanto um erro evidente confundir os desvios teológicos dos “cristãos pelo socialismo” com a leitura sapiencial que D. Romero e outros bispos latino-americanos faziam do Evangelho. Regressado a Roma, expressei este meu parecer numa entrevista difundida na rádio e depois reproduzida na imprensa. O cardeal Gantimn, encarregado de seguir os acontecimentos da Igreja da América Latina, chamou-me e perguntou-me o que queria dizer; eu procurei explicar-lhe em que consistia o “erro”, mas penso que não consegui convencê-lo!

Recordo, por fim as conversas amigáveis que tive pessoalmente com D. Romero, durante os intervalos. Uma vez disse-me que tinha sido enviado como bispo a San Salvador porque tinha fama de conservador, para reequilibrar uma situação eclesial difícil… Recordo, como se fosse hoje, um diálogo mais longo que tivemos um dia, durante a pausa dos trabalhos do meio da manhã. Contou-me a situação dolorosa e dramática do seu país, que amava; falou-me dos direitos humanos espezinhados, do “desaparecimento” de muitos filhos seus, das torturas e execuções sumárias, do clima violento de repressão que estava a conduzir El Salvador para a insurreição popular (que ele temia). E no entanto não teve uma só palavra de ódio ou de raiva; antes, acreditava firmemente que se deveria parar a violência, onde quer que existisse; dizia que a vingança devia ser banida e devia, ao contrário, triunfar a justiça no amor para se alcançar a reconciliação e a paz. Depois acrescentou que a opção preferencial pelos pobres se tinha tornado para ele uma razão de vida. E explicou-me como aconteceu a sua “conversão”.



«Quem segue esta linha progressista de uma Igreja autenticamente fiel aos postulados do Vaticano II, tem de sofrer muito e até ser considerado com suspeição, mas a consciência e a satisfação de servir Deus e a Igreja valem muito mais do que qualquer perseguição»



«Quando assassinaram o meu braço direito, o P. Rutilio Grande – disse-me –, também os campesinos ficaram órfãos do seu “pai” e do seu mais corajoso defensor. Foi durante a vigília de oração, diante dos despojos do heróico padre jesuíta, que se tinha imolado pelos pobres, que eu compreendi – prosseguiu D. Romero – que cabia agora a mim ocupar o seu lugar, sabendo bem que também eu arriscaria a vida». A certo ponto – recordo bem, como se tivesse acontecido ontem – interrompe-se; e, mudando de tom, acrescentou textualmente: «Acabei de saber que um meu quarto sacerdote foi assassinado. Sei-o. Mal me prendam, também me matarão». Olhei-o. Não mostrava sinal algum de pesar ou de medo. Sorria. O seu rosto deixava transparecer uma serenidade que só a fé profunda e um grande amor podem dar. Aquele rosto nunca mais o pude esquecer. Era o rosto de um mártir dos novos tempos. A sua “profecia”, feita-me nos finais de janeiro de 1979, realizou-se pontualmente um ano depois, a 24 de março de 1980, quando cai, vítima imolada no altar.

O arcebispo de San Salvador sabia bem que não era o único perseguido pela sua fidelidade à Igreja e ao concílio. Disse-o explicitamente no seu diário: «Quem segue esta linha progressista de uma Igreja autenticamente fiel aos postulados do Vaticano II, tem de sofrer muito e até ser considerado com suspeição, mas a consciência e a satisfação de servir Deus e a Igreja valem muito mais do que qualquer perseguição».

A este ponto, é evidente que o papa Francisco, ao canonizar D. Romero juntamente com Paulo VI, pretende realçar e premiar o amor e a fidelidade à Igreja e ao concílio Vaticano II não só dos primeiros dois “mártires do concílio”, mas também de todos os outros – conhecidos e menos conhecidos –, na maior parte reduzidos ao silêncio. Por isso, concluindo, é bom reportar a invocação com a qual Carlo Carretto – um daqueles – exprime o seu amor pela Igreja, numa linguagem crua, de forte sabor bíblico: «Quanto és contestável, Igreja, e contudo quanto te amo! Quanto me fizeste sofrer, e contudo quanto a ti devo! Desejava ver-te destruída, e contudo preciso da tua presença. Deste-me muitos escândalos, e contudo fizeste-me compreender a santidade! Nada vi no mundo de mais obscurantistas, mais compacto, mais falso, e nada toquei de mais puro, de mais generoso, de mais belo. Quantas vezes tive vontade de te fechar na cara a porta da minha alma, quantas vezes rezei para poder morrer entre os teus braços seguros».


 

Bartolomeo Sorge, SJ
In Aggiornamenti Sociali
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 05.10.2018

 

 
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