Paulo VI: Entre Salazar e o regresso de D. António Ferreira Gomes, do Vaticano II à "Evangelii nuntiandi"
A peregrinação de Paulo VI a Fátima, em 1967, no cinquentenário das aparições, despertou em mim uma aventura. Era aluno de Jornalismo na Universidade de Navarra, Espanha, e fiz-me à boleia, na esperança de acompanhar a visita do Papa.
Naquela época, o regime de Salazar fazia da sua animosidade diplomática contra Paulo VI um “lenda negra”, por o Papa ter ido ao Congresso Eucarístico a Bombaim (Índia), o que considerava uma ofensa aos portugueses e uma bênção aos indianos que tinham anexado Goa, Damão e Diu.
As críticas agravaram-se quando Paulo VI saudou, no Vaticano, líderes da resistência africana contra a permanência dos portugueses nas colónias.
O Estado Novo era perito nas “lendas negras” e Salazar não poupava a Igreja. Veja-se o caso do exílio forçado do Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes. As atoardas do salazarismo tinham na Igreja eclesiásticos que gostavam de incensar e agravar a campanha contra D. António Ferreira Gomes, engordando as injúrias.

Seria a lucidez de Paulo VI quem consentiria que o Bispo do Porto regressasse, contra a vontade de alguns bispos. O seu regresso obrigou o Governo de Marcelo Caetano a abrir as fronteiras.
Venceu a liberdade da Igreja, graças à perseverança do Bispo do Porto, contra ventos e marés. Quem teve de recuar foi a tirania salazarista que tanto amordaçou o caráter de antes quebrar que torcer de muitos e dos melhores portugueses que recusaram vender a alma.
Franco Nogueira, que escreveu a biografia de Salazar em cinco volumes, não esconde a alergia do ditador que garantia que, se o Papa viesse a Portugal, seria corrido a pontapé. Se não acreditam, leiam os livros de Franco Nogueira.

Quem diria que Salazar se sentiria obrigado a deslocar-se, como “beato”, a Fátima para receber a bênção de Paulo VI!
O Papa Paulo VI teve o papel maior na continuação e na conclusão do Concílio. Foi graças à sua sabedoria que o Vaticano II se tornou grandioso com as orientações teológicas e pastorais que se traduziram no aggiornamento e continuam válidas para a renovação da Igreja.
Nos anos seguintes até à sua morte em 1978, em tempos difíceis, Paulo VI teve grande mérito e muita sabedoria na receção do Vaticano II para imprimir à Igreja Católica a renovação permanente à luz das orientações conciliares.

Foi também notável o magistério de Paulo VI, em particular nas suas sete encíclicas, com relevo para a “Ecclesiam suam” sobre o diálogo e a “Populorum progressio” sobre o desenvolvimento dos povos.
Mérito indiscutível, ainda, para a sua exortação apostólica sobre a evangelização, “Evangelii nuntiandi”, de 1975, cuja acertada mensagem permanece muito atual.
É com satisfação que vejo agendada a sua beatificação, desejando para breve a sua canonização.

Titulo original do artigo: Confesso-me devoto do beato Paulo VI
Cón. Rui Osório
In Voz Portucalense, 14.5.2014
20.05.14
Paulo VI








