Papa: Pensemos nas crianças famintas nos campos de refugiados, enquanto os fabricantes de armas têm vida regalada
«A criança doente, faminta, num campo de refugiados, e as grandes festas, a boa vida que têm aqueles que fabricam as armas»: o papa Francisco lançou hoje no Vaticano um grito contra a banalização da guerra.
«Todos os dias, nos jornais, encontramos a guerra», afirmou na homilia da missa a que presidiu, citado pela Rádio Vaticano, sublinhando que «os mortos parecem fazer parte de uma contabilidade quotidiana».
«Parece que o espírito da guerra se apoderou de nós. Fazem-se atos para comemorar o centenário daquela Grande Guerra [I Guerra Mundial, 1914-1928], com tantos milhões de mortos… E todos se escandalizam. Mas hoje é o mesmo. Em vez de uma grande guerra, há pequenas guerras em todo o lado, povos divididos. E para conservar o seu interesse matam-se entre eles», afirmou.
«A guerra, o ódio, a inimizade, não se compram no mercado: estão aqui, no coração», vincou Francisco, que lembrou os mortos «por um pedaço de terra, por uma ambição, por um ódio, por ressentimento racial».
O papa criticou também os processos muitas vezes usados para pôr fim aos combates: «Diante de um conflito, encontramo-nos habitualmente numa situação curiosa: procura-se resolvê-lo, litigando. Com linguagem de guerra. Não vem primeiro a linguagem da paz».
A seguir, Francisco evocou a tragédia que se abate sobre as vítimas da guerra, enquanto que os fabricantes de armamento prosperam com o lucro obtido pela escalada belicista: «Pensai nas crianças famintas nos campos de refugiados» e também «nas festas que fazem aqueles que dirigem a indústria das armas».
«O que acontece no nosso coração?», questionou o papa, recordando que o «espírito da guerra», que «afasta de Deus», não está presente apenas em territórios longínquos, mas começa dentro de casa.
«Quantas famílias destruídas porque o pai, a mãe, não são capazes de encontrar o caminho da paz e preferem a guerra. A guerra destrói», vincou Francisco antes de citar a primeira leitura bíblica, extraída da Carta de S. Tiago: «De onde vêm as guerras? De onde procedem os conflitos entre vós? Não é precisamente das paixões que lutam em vossos membros?».
Francisco lançou depois um apelo: «Proponho-vos hoje que rezem pela paz, por aquela paz que parece ter-se tornado apenas uma palavra, nada mais. Para que esta palavra tenha a capacidade de agir, sigamos o conselho do apóstolo Tiago: “Reconhecei a vossa miséria”».
«Quem de nós chorou, quando lê um jornal, quando vê na televisão aquelas imagens? Tantos mortos», lamentou o papa, que voltou à passagem bíblica: «Converta-se em pranto o vosso riso e em tristeza a vossa alegria».
O que um cristão «deve fazer hoje, 25 de fevereiro», diante de «tantas guerras, em todo o lado», é «chorar, fazer luto, humilhar-se», apontou o papa, antes de concluir: «O Senhor nos faça compreender isto e nos livre de nos habituarmos às notícias de guerra».
Rui Jorge Martins
© SNPC |
25.02.14
Papa FranciscoVaticano, 23.2.2014
Foto: D.R.








