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Presidente do Pontifício Conselho da Cultura prefacia reedição de "O tesouro escondido", de José Tolentino Mendonça

O biblista e presidente do Pontifício Conselho da Cultura, o cardeal Gianfranco Ravasi, assina o prefácio da sétima edição, revista e aumentada, do livro "O tesouro escondido", do padre José Tolentino Mendonça, diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

A Paulinas Editora, que lançou este volume pela primeira vez em fevereiro de 2011, vendeu os seus direitos internacionais para a Alemanha, Itália, Brasil, Espanha, Republica Checa, toda a América Latina e todos os países de língua inglesa. A obra, com nova capa e nova disposição gráfica, chegou esta quinta-feira às livrarias.

 

O fio resplandecente da beleza
Card. Gianfranco Ravasi

Quando Deus concedeu fé a José Tolentino Mendonça, sacerdote, teólogo e poeta português, concedeu-lhe também a capacidade de cantá-la. Não se estranhe, portanto, que estas páginas sejam um límpido testemunho da fé e da poesia fortemente entrelaçadas. De facto, elas confiam-se às iridescências das imagens, ao frémito das palavras escolhi das e exatas, à frescura do estilo, à força da poesia. Porém, haurem e inspiram-se na nascente da Bíblia, na raiz da fé, como que remontando ao Além e ao divino que é sempre Outro. O próprio título refere-se a uma das 35 parábolas de Jesus, a do tesouro escondido no campo (Mateus 13,44). Contudo, é no subtítulo que descobrimos o fio condutor mais robusto deste livro: «Para uma arte da procura interior.»

O termo decisivo é procura, um vocábulo tão naturalmente dinâmico e, por isso, tão significativo em todas as culturas e espiritualidades, que levou Platão a pôr na boca do seu mestre, na Apologia de Sócrates, este dito fulgurante: «Uma vida sem procura não merece ser vivida.» Um dos traços dominantes da mística do Saltério é precisamente a «procura do rosto do Senhor». «Quando irei ver a face de Deus?» – interroga-se angustiado o orante daquela joia poética e espiritual que é o Salmo 42 [41], história de uma alma obrigada ao exílio de uma terra estrangeira: note-se a ligação cruzada de «ir» e «ver», sinónimos de «procurar», vocábulo que impera noutras composições sálmicas.

Com este fio temático atado na mão sigamos o texto do padre José Tolentino desde o início, onde Moisés, diante daquela sarça ardente que mudará a sua vida, afirma a sua escolha: «Vou aproximar-me e observar» (Êxodo 3,3). Depois, vem precisamente a parábola do tesouro, na qual «encontrar ainda não é possuir»: com efeito, o descobridor deve, em primeiro lugar, «ir vender tudo o que possui e voltar para comprar o campo». Como sugere o poeta Thomas S. Eliot, é necessário ser «explora dor, caminhando sempre em direção a uma nova intensidade, a uma união mais alta, uma comunhão mais profunda». A própria «ferida» da esterilidade de Sara, esposa de Abraão, transforma-se n’«um caminho de confiança na promessa de Deus». A sua vida pública (e do próprio Evangelho): «E vós, porém, quem dizeis que Eu sou?» (Mateus 16,15).

Algumas cenas evangélicas são esclarecedoras para esta gramática da procura e do movimento espiritual. José Tolentino Mendonça propõe o evidentíssimo e extraordinário episódio dos discípulos de Emaús, ritmado precisamente por uma viagem e um aproamento, por uma procura e um achamento. Mas também é sugestiva a parábola da moeda perdida e encontrada (Lucas 15,8-10), encastoada naquele minievangelho dos perdidos e reencontrados, que é exatamente o capítulo 15 de Lucas. Isolam-se quatro etapas do itinerário da procura: acender a luz, varrer o interior da casa, procurar cuidadosamente, alegrar-se com a meta alcançada, isto é, o achamento da moeda. Seguindo o conhecido escritor-viajante Bruce Chatwin, Mendonça constrói a sua «anatomia da errância», em que a fé é uma viagem, e enumera a lista dos grandes nómadas da fé.

Desde o nómada Abraão até Moisés, guia da caminhada para a liberdade; desde o fugitivo Elias que peregrina no Horeb-Sinai até ao migrante renitente Jonas que só aprende a verdade sobre Deus quando se desloca a uma terra que não é sua; desde Jesus que não tem sequer uma pedra onde reclinar a cabeça e está continua mente a caminho até aos discípulos enviados a todo o mundo e a um Paulo, incansável viajante missionário. Aliás, a comunhão com Deus é conquistada através de uma prosagogé, vocábulo grego que o Apóstolo Paulo adota para celebrar o «acesso» que, etimologicamente, significa ser-se como que impelido para o mistério de luz que é Deus (Romanos 5,2; Efésios 3,12). Aliás, o Pai-nosso é, como todas as orações, não só a experiência de uma proximidade, mas também de uma distância a colmatar. Cristo vem precisamente para guiar-nos até ao Pai, superando a distância da transcendência, uma intimidade a conquistar confiando a nossa mão à sua.

À volta do fio nuclear até agora descrito, que se desenvolve nas páginas deste livro, atam-se outros filamentos luminosos. Evoco apenas dois. De um lado, o fio da oração: além do Pai-nosso, é doce e intenso o capítulo dedicado ao Magnificat, «um poema que “anuncia”, que não canta apenas a terra prometida», como escrevia Sophia de Mello Breyner Andresen. O egoísmo do homem branco – dizia um homem da América – «torna Deus mais pobre». E Maria escolhe o caminho oposto, «magnificando» o Senhor, isto é, reconhecendo-o e celebrando-o como maior, através de uma humildade de «serva e pobre».

Do outro lado, está o fio leve mas resplandecente da beleza, uma realidade que é querida ao padre José Tolentino, poeta e homem de cultura. A propósito, são já significativas as muitas vozes, intensas e admiráveis, que ele evoca na sua página: do filósofo Kierkegaard ao poeta Eliot, do testemunho fascinante e dramático de Etty Hillesum a Simone Weil sempre impressionante, de Claudel a Bonhoeffer, de João da Cruz a Gaudí, do teólo go místico grego Cabasilas a Hildegarda de Bingen, até às palavras de Bento XVI sobre a beleza («fazei das vossas vidas lugares de beleza»). No centro permanece Ele, Cristo, «o mais belo dos filhos dos homens», como sugere o Salmo 45, que também é capaz de, na cruz, provocar repulsa, obrigando-nos a desviar os olhos para o lado, como acontecia com o Servo do Senhor cantado por Isaías (cap. 53).

De facto, a beleza não é um mero estetismo, mas é uma ferida aberta que nos impele para aquela procura de onde partimos, inquietando e revolvendo a nossa sonolência; é uma brecha que se abre para o infinito, para o eterno, para o mistério, mas através de uma fresta que nos obriga a estender o olhar e a apurar a vista. E, então, surge um último apelo: «Sem a Beleza atrativa de Cristo, o Cristianismo [como a própria vida interior] é seco, funcional, burocrático, ritualista, um banho externo de convenções ao qual o nosso coração continua impermeável.» Por isso, «deixemo-nos tocar, encantar, enamorar, ferir pela beleza que Deus revela em Jesus».

 

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Pontifício Conselho da Cultura
In O tesouro escondido (7.ª ed.), ed. Paulinas
© SNPC | 26.09.13

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