Paisagens
Paisagens
Pedras angulares A teologia visual da belezaQuem somosIgreja e CulturaPastoral da Cultura em movimentoImpressão digitalVemos, ouvimos e lemosPerspetivasConcílio Vaticano II - 50 anosPapa FranciscoBrevesAgenda VídeosLigaçõesArquivo

Procura-se um deserto

É preciso que se estude, um dia, o papel do deserto na vida do ser humano - ou, ao menos, na vida de certas pessoas. Para uma legião de monges, ele tornou-se um ideal, quase uma obsessão. Achavam impossível viver longe dele e, por isso, deixaram tudo e partiram para um mosteiro. Ali, na oração e no trabalho, não tinham em mente fugir do mundo, mas compreendê-lo melhor e colocá-lo na sua oração. Charles de Foucauld († 1916), nascido numa família aristocrática francesa, fez do deserto, no norte da África, o seu lar. Saint-Exupéry compreendeu melhor a terra dos homens depois de o seu avião ter avariado, vendo-se obrigado a passar dias e dias no deserto do Saara, completamente isolado de tudo. 

A lembrança desse silêncio fê-lo um dia escrever: «Sempre amei o deserto. Sentamo-nos numa duna de areia. Não se vê nada. Não se escuta nada. E, no entanto, no silêncio, alguma coisa irradia». Claro que ninguém ama o deserto por ele mesmo, pois «o que torna belo o deserto é que ele esconde um poço em algum lugar». Quem nunca teve um avião, não sabe o que é sentir-se, de repente, num deserto, como Saint-Exupéry. Mas isso não nos impede de fazer a experiência do deserto – experiência tão importante e renovadora que foi escolhida pelo Senhor para preparar o coração do seu povo, antes da entrada na Terra Prometida: «Guiou o seu povo no deserto: pois eterno é seu amor» (Salmo 136,16).

Cada pessoa tem condições de criar um deserto em torno de si mesma e, principalmente, no seu coração. Ali, na rica solidão de seu interior, saberá dar à sua vida, às pessoas que a cercam e a ela própria o devido valor. Aliás, nunca uma pessoa poderá compreender tais realidades se não se encerrar em si mesma.

O deserto é feito de silêncio. Não de um silêncio estéril, marcado apenas pela falta de barulho, mas de um silêncio que nasce dentro da própria pessoa: um silêncio feito de reflexão e paz. Um silêncio feito de amor.

É necessário, de quando em vez, fazermos uma paragem na vida. Paragem semelhante à daqueles que, andando pelo deserto, ficam algum tempo no oásis que encontram. Saem dali refeitos, enriquecidos e animados. Também nós sairemos enriquecidos dos momentos de deserto que criarmos. Depois disso, teremos melhores condições de enfrentar a vida de cada dia, com os seus problemas, desafios e solicitações. Sairemos de nossos desertos convictos de que nesses tempos que periodicamente nos concedemos, longe de nos isolarmos num egoísmo estéril, estaremos a criar melhores condições para estabelecer um encontro leal, profundo e sincero connosco mesmos, com os outros e com Deus.

Na vida de Cristo há vários momentos que testemunham o quanto ele amava o deserto: «Logo em seguida, Jesus mandou que os discípulos entrassem no barco e fossem adiante dele para o outro lado do mar, enquanto ele despediria as multidões. Depois de despedi-las, subiu à montanha, a sós, para orar. Anoiteceu, e Jesus continuava lá, sozinho» (Mateus 14,22-23). A sua vida não era tranquila: as multidões procuravam-no a toda a hora e em todos os lugares; pediam curas, exigiam a sua presença e a sua palavra. Ele atendia todos, com uma paciência que a outros conquistava. À noite, cansado, deixava os apóstolos a descansar e retirava-se para longe. As suas noites de oração eram o seu “deserto”.

Numa época e num mundo marcados pela agitação (ou pela dispersão?), é urgente seguirmos o exemplo de nosso Mestre, procurando criar espaços de deserto. Justamente porque as atividades nos absorvem, porque todos solicitam a nossa presença e as nossas responsabilidades se multiplicam, justamente por isso precisamos de “desertos” na nossa vida. O “deserto” dar-nos-á maior unidade, tornar-nos-á mais amigos de nós mesmos, e fará com que cumpramos melhor o nosso papel no plano que o Pai tem para nós. Tempos de deserto não são de fugas, mas, sim, multiplicadores das nossas forças, tornando-nos mais eficazes.

Só quem já fez a experiência de deserto é capaz de valorizá-lo devidamente e de lhe dedicar um tempo que a eternidade recompensará.

 

D. Murilo Krieger
Arcebispo de Salvador, primaz do Brasil
In Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
26.01.14

Redes sociais, e-mail, imprimir

Deserto

 

Ligações e contactos

 

Artigos relacionados

 

Página anteriorTopo da página

 


 

Receba por e-mail as novidades do site da Pastoral da Cultura


Siga-nos no Facebook

 


 

 


 

 

Secções do site


 

Procurar e encontrar


 

 

Página anteriorTopo da página