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Quem deseja ser amado?
(Pequena metáfora ‘an-a-teista’ de Antoine)

O processo hermenêutico de uma obra de arte implica sempre o sujeito interpretante e as suas circunstâncias, a obra e o contexto em que ela se dá. Se por hermenêutica entendermos um certo modo de pensar em que se dá relevância aos condicionamentos históricos, culturais e linguísticos, então esse ato para além de interpretativo é também um ato profundamente comunicativo. De algum modo a nossa aproximação ao real é sempre condicionada pelo contexto em que nos inserimos e pelo modo como a ele aderimos. A experiência da arte – que é mais do que simples expectação do sentido – é afetação pelo sentido daquilo que diz, como o diz e a quem o diz.

Para Gadamer “entender o que a obra de arte diz a alguém é certamente uma encontrar-se consigo mesmo”. O filósofo alemão considera ainda que “o encontro com a arte forma parte do processo de integração que foi imposto como uma tarefa à vida humana que está imersa em tradições […] É possível que o criador de uma obra se refira em cada ocasião ao público de sua época, porém o genuíno da sua obra é o que essa obra é capaz de dizer […] A familiaridade com que nos comove a obra artística é ao mesmo tempo – de forma enigmática – comoção e desmoronamento do habitual. O que a obra de arte põe a nu, num estremecimento gozoso e terrível, não é unicamente “tu és isto”; mas diz-nos também: “tu tens que mudar a tua vida”».

De outro modo o realizador britânico Peter Greenaway, parafraseando o pintor Rembrandt, ‘se tendes olhos, não quer dizer que possais ver’, constante um certo empobrecimento das imagens que dão corpo ao pensar (o que de si condiciona a interpretação do interpretante): «de pequenos ensinam-nos o alfabeto, em adolescentes ampliamos o nosso vocabulário e os nossos conceitos, em adultos continuamos este processo: mas visualmente, somos e permanecemos analfabetos. A nossa capacidade de construir imagens não é mais cultivada, e empobrece-se cada vez mais”. O cineasta russo Andrei Tarkovski chamaria a esse processo de “independência criativa”. Nesta independência criativa não existe espaço para o fosso entre o autor da película e a sua vida. Embora este “poeta do cinema” fosse adverso à simples e banal imitação representacionista do real – já de si impossível de apreender absolutamente sem o sentir e sem o experimentar no tempo e no espaço. O poder das imagens abre novos horizontes que a escrita por si mesma não pode dar. O teólogo inglês Henry Newman di-lo doutro modo: “A memória de semblantes e de lugares em ocasiões passadas podem esvanecer-se da mente: mas nunca a imagem viva de certas angústias ou libertações”.

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Poderá a angústia da credulidade incrédula (Mc 9,24) ser uma dessas angústias ou libertações? Para o teólogo jesuíta Bernard Lonergan «a fé é o conhecimento nascido do amor religioso. Existe, portanto, antes demais, um conhecimento nascido do amor». O amor precede o conhecimento na medida em que é um dom sem o qual se torna impossível qualquer relação existencial. Lonergan fala da conversão intelectual, religiosa e moral como condição de possibilidade do verdadeiro saber, colocando a conversão religiosa – reconhecimento de Alguém que nos reconhece como sujeitos – como princípio hermenêutico de todo o conhecimento. Nesse sentido é uma precedência não lógica mas ontologicamente aberta à relação. A «resposta ao valor conduz-nos à autotranscendência e escolhe um objeto ou uma pessoa por amor pela qual ou da qual nos transcendemos a nós mesmos […] Para além do simples viver e agir, os homens devem encontrar um significado e um valor no seu viver e no seu agir» (Lonergan).

Qui a envie d'être aimé? (‘Quem deseja ser amado’, 2010), filme de Anne Giafferi, pode ser visto nesta breve perspetiva estética relacional esboçada. A narrativa é relativamente simples mas surpreendente e não-convencional pelos temas delicados que afronta (o tema da conversão religiosa ao catolicismo e a reflexão sobre a crise da paternidade na sociedade contemporânea). O filme é a expressão intensa da conversão do marido da realizadora ao catolicismo. Thierry Bizot ficou mundialmente conhecido pela publicação do seu romance autobiográfico Catholique anonyme (‘Católico Anónimo’ 2009) onde narra a sua conversão ao catolicismo. Porém, nem o filme nem o livro se centram exclusivamente no processo espiritual do escritor em causa. O horizonte é mais alargado e afeta diversos lugares e pessoas. Um percurso espiritual em abertura progressiva de si aos outros. É apelo interpelante que irrompe como novidade e se imprime cenestesicamente no corpo.

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Neste apelo ético ao vivível se coloca a responsabilidade transfiguradora da fé como desejo ardente de ser amado e não apenas de amar. Este processo de interseção existencial e espiritual com o quotidiano social e cultural, colocado ao centro de uma elite burguesa de resquícios iluministas, põe em crise o que era dado como certeza absoluta: a ausência de Deus e de convicções religiosas. É neste centro vital quotidiano de indiferença ao Mistério que irrompe a possibilidade anateista de Antoine. Se quisermos, a possibilidade de acreditar em Deus depois de Deus! É a passagem do racionalismo iluminista de Antoine – advogado de formação em ascensão casado com uma médica adversa ao “contexte catho” – a um sentir religioso, a um ‘sentir emocionado’ de Deus no contexto ‘catecumenal’ francês. Este des-velamento emocionado de Deus foi condição de possibilidade de trans-figuração progressiva do exercício da paternidade de Antoine, de reconfiguração do seu ser-presente-no-mundo e de empenho testemunhal crente.

Poderemos dizer que o centro hermenêutico do filme é o diálogo inicial entre o professor Chollet e Antoine (pai de Artur). Este diálogo é o ponto-chave para interpretar e ler o espaço, o tema, os gestos, o ritmo, as interações e as transfigurações ao longo do filme. Neste encontro aparentemente cordial, entre professor e pai, pela primeira vez, Antoine sente-se fortemente questionado nas suas certezas de educador exemplar (de alguém que não quer repetir os mesmos erros do seu pai!). É aqui o início que levará Antoine a repensar o modo como exerce a sua paternidade e vive a conjugalidade. Neste sentido que podemos falar de reabilitação ética de Antoine como pai do testemunho. Para o psicanalista Massimo Recalcati, «o termo testemunho é o ato singular, sem reparo e sem garantias, com o qual um pai (biológico, afetivo, espiritual), privado de todo o suporte ideal, sabe oferecer uma solução possível e encarnada» (é forte a indiferença de Anthony perante o filho Artur na cena em que está a ler o livro ou naquele em oferece um Cd de música como prenda de aniversário) de como se possa unir o Desejo à Lei. A função simbólica da paternidade é unir o Desejo à Lei. Um Pai é aquele que sabe unir e não opor o Desejo à Lei. A Lei que não é repressiva é condição de possibilidade da própria existência do Desejo.

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Desse modo “a função paterna assume as vestes da doação, da transmissão do desejo e não aquela da pura repressão ameaçadora. O pai como testemunho que mostra como seja possível unir o trauma da Lei que torna possível a doação de Desejo». Frequentemente tendemos a ver a figura do pai como exemplo incorruptível, sem dúvidas, como a figura kantiana do dever-ser. O que acontece com o pai biológico sucede com as diversas figurações simbólicas da paternidade, por exemplo, do pai-formador, do pai-espiritual… No diálogo central do filme, Antoine (pai de Artur), é sensibilizado e questionado por uma outra figura (o professor de Artur), confessando na verdade a sua fragilidade, o complexo sempre presente da sua relação não curada com a autoridade paterna. A ferida aberta do passado torna-se anulamento da relação justa dos afetos do presente.

Um outro momento digno de registo entre Antoine e o seu pai é a viagem de carro até à casa rural onde Antoine viveu a sus infância. Esta é sempre lugar de revisitação permanente da identidade. Este fazer-se presente no espaço convivial, de corpo situado, faz da memória um lugar pulsante de recordações. Como diz o poeta Tomas Tranströmer “as recordações olham-me”. Voltar lá é o ato que permite a Antoine a reconciliação da sua relação tensa com a figura paterna. Esta viagem de regresso à infância, para além do espaço físico, comporta o lugar do inconsciente, esse lugar psíquico que o toque humano de volta em volta se lembra de avivar. Esse lugar do in-consciente onde a dimensão crente está bem presente à espera de ser desvelada na afetividade relacional.

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O ícone medieval de Cristo presente na capela abandonada, situada na colina junto ao mar, é símbolo-lugar do quietismo inquieto da interioridade de Antoine. É o ícone de Cristo, ao contrário de qualquer ídolo manejável pelas nossas mãos, que olha atentamente o seu rosto. Sermos olhados e atraídos por aquele rosto-mistério, no fundo uma passividade ativada, muda tudo. Esta ‘surpresa inesperada’ de sermos amados e olhados atentamente é a irrupção do Terceiro lacaniano, do Rosto levinesiano, do Inominável da mística, de Deus-presente na carne dos evangelhos, ou se quisermos o Próximo do próximo. A irrupção de um ‘terceiro inesperado’ é condição para o dom, de saída de uma relação exclusiva com Deus para uma ligame inclusivo dos outros (família, comunidade, amigos) nessa relação.

Mas Antoine ainda não está preparado para se ajoelhar como ato de autotranscendência, de abandono de si à abertura orante com Deus e com mundo da vida. Se o toque é expressão da relação afetiva, ele é também sentimento de debilidade e de falha. Expressão disso é a reação repulsiva de Antoine ao toque do pai que, no regresso da viagem, enquanto dorme, deixa descair inconscientemente a sua mão sobre a mão do filho. Este instintivamente evita o toque. Há toda uma memória, uma imaginação que o gesto corpóreo torna nítido – a memória de uma infância/adolescência/adultez tensiva na relação entre filho e pai, que de certo modo condiciona a existência presente. Os traços da infância perseguem-nos.

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Nem sempre o tempo cura tudo, são necessárias mediações de graça. Apreender o pormenor que abre à metáfora das relações reconciliadas coloca-nos sempre em relação com o que somos e para quem somos. A infidelidade ou fuga às sensações é impossível. O que torna este filme digno de ser visto, apreendido, sentido e pensado não é o facto de ser uma adaptação cinematográfica de um best-seller literário mas de colocar intensamente em interação o autor e a sua própria vida como metáfora propensa ao sentido. O mesmo significa dizer que a força da película está em representar a vida na sua força originária, tal como o homem realmente a vê e sente. Creio que aqui poderá estar um possível critério de discernimento e crítico para uma gramática do assentimento que distinga as diversas configurações da arte e da sua qualidade para dizer a relação humana com o originário.

Numa das poucas entrevistas que Andrei Tarkovski deu ao longo da sua breve vida, à pergunta sobre o que era a arte, o ‘poeta do cinema’ respondia assim: “Antes de formular um conceito, neste caso sobre a arte, devemos responder a uma outra pergunta muito mais vasta, ou qual é o sentido da existência do homem sobre esta terra. Talvez o nosso fim sobre esta terra é aquele de nos elevarmos espiritualmente. Se a nossa vida tende para esta fecundidade espiritual, a arte é um dos meios para chegarmos […] Contudo, se queremos atrair as massas, não poderemos esperar obras de grande engenho poético”. O poeta católico irlandês Seamus Heaney, prémio Nobel da literatura em 1995, falecido recentemente, di-lo de outra forma: «Não que os artistas sejam profetas, mas frequentemente encontram maneiras de ver e dizer, de novo, chegam a imagens que avançam. Uma nova metáfora que seja verdadeira em relação à realidade faz avançar as coisas». É aqui, a meu ver, que se poderá situar a redescoberta da fé, ao nível do poder das imagens pensadas e vividas na sua intensidade poética.

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Mas será possível aliar beleza poética/criatividade e profundidade ética? Apreender as sensações vitais que paulatinamente se vão alojando na nossa memória, quase sempre sem uma nitidez absoluta, é condição de possibilidade para o despertar corpóreo. Isso significa dar corpo concreto às imagens presentes na memória porque se “Agora, vemos como num espelho, de maneira confusa; depois, veremos face a face. Agora, conheço de modo imperfeito; depois, conhecerei como sou conhecido” (1Cor 13,12). Há toda uma pedagogia de sensibilidade estética que não podemos descurar, antes situá-la no contexto do nosso quotidiano, e não como momento aprazível ou figuração estetizante decorativa. Se a arte não eleva espiritualmente o humano, distanciando de si mesmo, não é condição de fecundidade, de abertura, mas pura idolatria.

Tal como a figura de Antoine colocava a sua paternidade como ideal a atingir pelo filho, também a figura de Cristo frequentemente é posta como o ideal de homem e de humanidade (“crescer até à estatura de Cristo”). Mas o paradoxo  está  na tentação exemplarista/representacionista de chegar a esse ideal impossível. Cristo é singularmente único. O que o faz singular é a sua Kenose, abaixamento, a sua proximidade à estatura pobre e frágil dos humanos. Isto nenhum outro Deus fez em absoluto nem nenhum outro humano. Creio que isto poderá mudar toda na nossa imaginação e prática crente. Cristo na experiência relacional com a Abbá-Deus não coloca como ideal para si mesmo a paternidade de Deus (ser Pai no modo de Deus-Pai).

Ele sabe a diferença que a condição de filiação estabelece na relação. Sabe porque não vive um ideal mas vive da e na intimidade do Pai como Filho, a um Pai a “quem se pode rezar e ajoelhar” (Heidegger). Deus é Pai e Jesus é Filho. A diferença é possibilidade absoluta da identidade. Esta relação paterno-filial alarga-se à experiência dos discípulos segundo a potência do Espírito Santo dado eucaristicamente. Cristo nunca exige aos discípulos e aos humanos com que se cruza que sejam como Ele mas que sigam o seu mandamento: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei, e não: “como eu vos amei, amai-me assim também”. Cristo colhe a diferença sem apelar ao seguidismo voluntarista. Ele dá a ver no seu corpo a relação íntima com Abbá-Pai. Por isso “a iniciativa de Deus é de penetrar, em total vulnerabilidade, o coração da existência, ser entre os homens, oferecendo-lhes a possibilidade participarem na vida divina” (Taylor).

 

 

 

Nota: O filme "Quem deseja ser amado?" vai ser exibido no dia 30 de novembro em Braga (Auditório Vita, 21h15), no âmbito do ciclo "CInema e o sentido da vida", e a 14 de dezembro em Almada (Auditório Municipal Fernando Lopes-Graça, 21h30), integrado no 4.º Ciclo de Cinema Católico.

 

João Paulo Costa
Imagens: Fotogramas do filme "Quem deseja ser amado?"
© SNPC | 28.11.13

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