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Religiões estão a ganhar segunda hipótese de vida nas sociedades secularizadas

As religiões estão a ganhar «uma segunda hipótese na vida dos indivíduos nas sociedades secularizadas, devido ao desencanto em relação à vida», considera o padre José Tolentino Mendonça.

«Mesmo as grandes obras da humanidade sabem a pouco se não houver mais nada. Ficam aquém desta fome e desta sede que habitam o coração humano», defende o diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura em entrevista publicada este sábado no semanário “Expresso”.

No século XX «as religiões foram identificadas como um inimigo das sociedades abertas ou das muito ideologizadas», o que constituiu «um erro crasso», porque as primeiras foram substituídas por «sistemas fechados, violentos, e que constituíram, esses sim, verdadeiras ameaças para as sociedades e para os povos», sublinha.

O vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa está convicto de que no século XXI vai ser reavaliada «a herança e o papel que as religiões têm na construção pacífica entre os grupos que compõem uma sociedade», pelo que é essencial «redescobrir as tradições religiosas».

As religiões «fazem falta na intimidade, na síntese pessoal que cada um vai fazendo, nas respostas às grandes questões» sobre o sentido e a meta da vida, dado que «é na resposta a essas questões que a vida individual ganha forma e atinge ou não a sua plenitude».

Para o padre Tolentino Mendonça, «há uma grande necessidade da experiência que as religiões possibilitam», como se vê «na reabilitação contemporânea da experiência da peregrinação».

«O caminho é um traço comum a todas as tradições religiosas, todas falam do caminho e da necessidade de o fazer. Hoje, essa necessidade é vivida de forma apaixonada, militante, por milhões de pessoas que, no fundo, descobrem que estas sociedades, da abundância ou da recessão, não dialogam com as questões fundamentais que os indivíduos trazem», aponta.

A idade condiciona a atitude diante da religião: «Há um desprendimento maior em relação aos bens materiais, às vitórias da vida, àquilo que nos ocupa, nos cega e nos preenche por inteiro: a agenda, o coração… A síntese é completamente diferente numa idade mais avançada. No fundo, há uma sabedoria do relativo, do precário».

Por seu lado, «os anos da juventude, da vida mais ativa, são vividos na euforia da conquista do definitivo, e depois percebe-se numa idade mais avançada que a vida está inacabada. Porque a vida é um projeto que não se realiza só por fora. Também precisa de se encontrar por dentro. E não é apenas pelo medo da morte».

A adesão a uma crença não implica o condicionamento da liberdade, sustenta: «Ficamos com a ideia de que a religião é uma espécie de açaime, uma domesticação do indivíduo. É o seu contrário. O que nós vemos nos percursos religiosos mais autênticos é uma intensificação dessa própria rebeldia e um questionamento».

«Às vezes pensamos na religião como uma possibilidade de anulação da razão. Pelo contrário, a religião é um grande espaço de racionalidade», salienta, acrescentando que a crença precisa do «diálogo com a razão, embora sejam, de facto, dimensões diferentes».

Todas as religiões manifestam «uma grande preocupação política, no sentido da construção da polis, do viver humano», mas expressam-se mediante «modalidades diferentes que têm a ver com esta grande divisão entre o Oriente e Ocidente, entre modos de vida e sínteses».

A religiosidade é muito mais do que os efeitos negativos que a crença em Deus trouxe ao mundo em muitos locais e momentos da história: «Nas religiões ficamos demasiado reféns dos maus exemplos; e, se calhar, levamos muito tempo, culturalmente, a apontar o dedo aos maus exemplos».

«Há um quinhão de violência que ensombra a nossa história e que tem a ver com a religião e com as guerras religiosas. Mas esse quinhão de violência não obscurece o núcleo de verdade fundamental que nunca deixou de inspirar mulheres e homens para construírem percursos de liberdade e de exemplaridade que fecundaram o bem de cada tempo e de cada cultura», realça.

A última pergunta: «O que diria a um ateu?»: «O ateísmo é o maior drama. No mais fundo do coração do homem há uma sede de infinito e transcendência que fica sem resposta. Diria a um ateu, como a um crente, que não deixasse de procurar».

A entrevista decorreu no âmbito da coleção “A essência das religiões”, da autoria de Huston Smith, que o semanário “Expresso” distribui gratuitamente a partir do próximo sábado.

Cada um dos seis livros, prefaciado pelo padre Tolentino Mendonça, é dedicado a uma religião: Hinduísmo, Budismo, Confucionismo e Taoismo, Islamismo, Judaísmo e Cristianismo.

 

Rui Jorge Martins
© SNPC | 11.01.14

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