Resistir, confiar, perdoar: Evangelho do Domingo de Cristo Rei
Por três vezes ressoa a mesma interpelação a Jesus crucificado: «Se és…»; «se és o Messias», riem entredentes os chefes; «se és o rei dos judeus», troçam os soldados romanos; «se és o Messias», injuria um dos malfeitores crucificados com Jesus.
Notemos que cada um interpela Jesus a partir da sua situação pessoal: os chefes religiosos do povo esperavam o Messias, o eleito de Deus, e aos seus olhos a aparência de Jesus na cruz está muito distante das suas expectativas. Os soldados romanos, membros do exército de ocupação, gozam de um pretenso rei que não se consegue defender. Quanto ao malfeitor, espera alguém que o salve da morte, o Messias.
A palavra hebraica/aramaica “Messias”, que em grego se traduz por “Cristo”, quer dizer ungido, aplicando-se, na Bíblia, a pessoas a quem Deus confiou uma missão importante, iluminando-as e fortalecendo-as com a unção do seu Espírito de Deus. O Novo Testamento vê o messianismo realizado plenamente em Jesus Cristo.
As três interpelações na cruz assemelham-se à narração das três tentações no deserto, no início da vida pública de Jesus (Lucas 4), pela voz do diabo: se és o Filho de Deus, ordena a esta pedra que se torne pão; se és o Filho de Deus, atira-te do pináculo do templo, porque está escrito que os anjos te hão de guardar.
A segunda tentação diz respeito à realeza de Jesus. O tentador fez-lhe ver todos os reinos da terra e disse-lhe: «Dar-te-ei todo este poderio e a sua glória, porque me foi entregue e dou-o a quem me aprouver. Se te prostrares diante de mim, tudo será teu».
Nestas duas etapas da vida de Cristo, tal como é narrada por S. Lucas, a questão de fundo é a mesma: qual é o papel do Messias? É ele um chefe político ou religioso? Alguém que tem todo o poder para dispor de tudo? Um rei todo-poderoso? Se é assim, Jesus não corresponde a este esquema: este condenado, crucificado como um malfeitor, não tem nada, aparentemente, que se assemelhe a um rei do universo. Aliás, ele nada responde a quem o desafia a mostrar finalmente o seu poder.
No episódio das tentações, a cada uma das provocações do diabo, Jesus respondeu com a Escritura: «Está escrito: nem só de pão vive o homem»; «está escrito: ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto»; «não tentarás ao Senhor, teu Deus».
A Escritura foi a sua referência para resistir. E pode muito bem pensar-se que, ao longo de toda a sua vida terrestre, de cada vez que enfrentou tentações relacionadas com a sua missão de Messias, foi a referência è Escritura que lhe permitiu manter a sua rota.
Na cruz, ao contrário, Jesus não responde, cala-se perante as provocações. E, contudo, a interpelação é relevante: ele é o Messias, e sabe-o. Ora, o Messias é aquele que salvará o mundo; por isso devia salvar-se a ele mesmo! É a nossa lógica humana, é a lógica dos seus interlocutores. E é disso que ele morre: morre por não ter agido conforme à lógica de quem o provocava, às suas ideias sobre o Messias.
Mas Jesus sabe que só Deus salva; ele espera a sua salvação apenas de Deus. Aliás, o seu nome di-lo claramente: “Jesus” quer dizer “Deus salva”. Portanto ele não tem nada a acrescentar, nada a responder. Espera na confiança. Sabe que Deus não o abandonará à morte.
Este episódio das injúrias é enquadrado no Evangelho de Lucas por duas palavras de Jesus, duas palavras de perdão: a segunda é a frase dirigida a quem chamamos de “bom ladrão”; a primeira é relatada por Lucas antes do excerto lido este domingo: «Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem». Palavra humana e divina, porque ele é homem e Deus. O perdão dado por Cristo aos seus carrascos é o próprio perdão de Deus. Em Jesus, homem e Deus, é Deus que perdoa. Estamos reconciliados; é suficiente acolhermos esta reconciliação.
É precisamente o que faz o “bom ladrão”: reconhece Jesus como o Messias, pede-lhe ajuda, naquela que é uma oração de humildade e de confiança. Diz-lhe: «Lembra-te» - são as palavras habituais da prece habituais que se dirige a Deus. Por Jesus, é ao Pai que ele se dirige: «Jesus, lembra-te de mim quando vieres inaugurar o teu reino». E Jesus responde-lhe: «Amen, eu declaro-te: hoje, comigo, estarás no Paraíso». «Hoje»: a atitude de verdade e humildade deste homem, que, como se costuma dizer, não era propriamente um menino de coro, é a única condição para que aquele dia seja o hoje da salvação para ele.
Evangelho da solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo
Lucas 23, 35-43
«Naquele tempo, os chefes dos judeus zombavam de Jesus, dizendo: "Salvou os outros: salve-Se a Si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito". Também os soldados troçavam d’Ele; aproximando-se para Lhe oferecerem vinagre, diziam: "Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo". Por cima d’Ele havia um letreiro: "Este é o Rei dos judeus". Entretanto, um dos malfeitores que tinham sido crucificados insultava-O, dizendo: "Não és Tu o Messias? Salva-Te a Ti mesmo e a nós também". Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o: "Não temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo das nossas más ações. Mas Ele nada praticou de condenável". E acrescentou: "Jesus, lembra-Te de Mim, quando vieres com a tua realeza". Jesus respondeu-lhe: «Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso».
Marie-Noëlle Thabut | Com SNPC
In Conferência dos Bispos de França
Texto
do Evangelho: Secretariado Nacional de Liturgia
© SNPC (trad.) |
22.11.13
Altichiero da Zevio








