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Espiritualidade

Rezar com o coração em Deus e no mundo

Os rabinos são muito claros: a oração não serve para nos colocar num mundo só nosso. Não rezamos para escapar ao mundo que nos rodeia. Rezamos com um olho no mundo, para chegarmos a compreender aquilo que nos é realmente pedido, aqui e agora, no nosso tempo, como cocriadores do Universo.

Quando Deus colocou a raça humana num jardim chamado terra, foi – nisso as Escrituras são claras – para que a conduzisse à plenitude da vida. Espera que mantenhamos a terra em boas condições, que a usemos e desenvolvamos, para que frutifique e multiplique as suas energias criativas, para fazermos a nossa parte, levando à plenitude todos os aspetos da Criação.

O que Deus não completou, compete-nos a nos acabar. Deus deu-nos as plantas e pretende que as cultivemos e façamos a colheita, para o bem do mundo inteiro. Deus deu-nos o sol e quer que usemos a sua energia de forma a manter a vida e não a destrui-la. Deus deu-nos todas as matérias-primas da vida – físicas, psicológicas e mentais – e espera que façamos crescer plenamente aquilo que foi criado em embrião.

Temos de aprender a rezar, e não apenas no nosso próprio interesse.

Não rezamos apenas pelas nossas necessidades. Rezamos para nos tornarmos agentes santos do Deus que nos fez para cuidar da terra e de todos os povos.

Todos nós somos trabalhadores no jardim da vida.

As pessoas mais contemplativas – Teresa de Ávila, João da Cruz, Catarina de Sena, Inácio de Loiola, Tomás Merton, Dorothy Day – foram as que procuraram, de modo mais ativo, a vinda do Reino de Deus sobre a Terra. Nós rezamos para nos tornarmos como elas. Para termos a certeza de viver uma vida de oração autêntica, temos de examinar continuamente e sempre os seus frutos em nós. Estamos realmente mais preocupados com os outros em virtude de nos termos aproximado do Deus que os ama? Ou transformamos a oração num refúgio que nos mantém longe do que a nossa plena humanidade nos pede?

A oração deve servir para nos fazer ver o mundo como Deus o vê. Deve servir para expandir a nossa visão e não para nos prender num mundo que consiste apenas em nós.

O compromisso para com as necessidades do mundo é um sinal da presença de Deus em nós.

 

Joan Chittister
In O sopro da vida interior, ed. Paulinas
27.06.13

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