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Rito da "Nivola": A grandiosidade de uma tradição secular

Imagem © Catedral de Milão

Rito da "Nivola": A grandiosidade de uma tradição secular

O Santo Prego, que a tradição refere ser um dos usados para crucificar Jesus, é considerada a mais importante relíquia da catedral da cidade italiana de Milão, e o aparato cénico que lhe está associado é igualmente único.

O padroeiro de Milão, Santo Ambrósio (c. 337-390), terá recebido a relíquia do imperador romano Teodósio e guardou-a na catedral paleocristã de Santa Tecla, mencionando-a na oração fúnebre em sufrágio do césar.

Em 1576, S. Carlos Borromeu fez descer e levou em três procissões o Santo Prego, guardado a 40 metros de altura, na abside sobre o altar maior, como oração de súplica a Deus pelo fim da peste que então se tinha espalhado pela cidade.

Como sinal explícito de gratidão, Carlos estabeleceu que na catedral, a 3 de maio, dia em que a Igreja recordava o momento em que Santa Helena encontrou a Cruz, a relíquia fosse exposta para a veneração dos fiéis durante quarenta horas.

É ao cardeal Giovanni Battista Montini, arcebispo de Milão desde 1954 e futuro papa Paulo VI, que se deve o uso de ser o próprio prelado a subir para recuperar a relíquia.

«Enquanto os mecanismos para elevar a "Nivola" foram movimentados por força humana, com guinchos, rodas e cordas, subiam os cónegos; quando foram mecanizados e as seguranças aumentaram, subiram os arcebispos», explica Marco Navoni, cónego da catedral.

O Concílio Vaticano II suprimiu a festa da Invenção da Santa Cruz, a 3 de maio, e o rito foi transferido para o sábado que antecede o dia 14 de setembro, festa da Exaltação da Santa Cruz. Mantém-se a veneração da relíquia aos fiéis durante 40 horas, regressando depois ao seu lugar, assinalado por uma luz vermelha sempre visível sobre o altar maior.

O que dá o nome e a espetacularidade cénica ao rito é a "Nivola", espécie de ascensor em forma de nuvem, construído entre os séc. XVI e XVII em madeira, metal e tela, decorado com anjos e querubins pelo pintor Paolo Camillo Landriani em 1612.

Içada até aos anos 60 pelos braços de 16 homens e hoje movida por um guincho elétrico, é a "Nivola" que desde há 60 anos ergue os arcebispos de Milão aos 40 metros do Santo Prego, em "voo" entre as voltas da catedral. Chegando ao topo, os prelados inserem a relíquia numa cruz de ouro e descem.

Trata-se de um rito devocional de grande impacto visual e emotivo, entre os raríssimos da Igreja católica a conservar estas características à distância de quase cinco séculos, que é capaz ainda hoje de encantar fiéis e visitantes.

«O verdadeiro momento de relançamento do culto ao Santo Prego deve-se ao cardeal Carlo Maria Martini, explica o cónego Navoni: «Em 1984 ocorria o quarto centenário da morte de S. Carlos Borromeu e o arcebispo Martini quis marcar essa efeméride renovando a devoção ao Santo Prego a nível diocesano e urbano».

«A cruz original de S. Carlos foi trazida de Trezzo para a catedral e o Santo Prego peregrinou por toda a diocese, atraindo a atenção dos fiéis ambrosianos, muitos dos quais, precisamente como antes de S. Carlos, talvez lhe ignorassem a existência», acrescentou.

Com o atual arcebispo de Milão, o cardeal Angelo Scola, a descida da relíquia assumiu a forma de encontro, com a peregrinação do Santo Prego a alguns lugares simbólicos da cidade marcados pela fé e por problemas que atravessam a sociedade.

O percurso inclui a clínica Mangiagalli, local de sofrimento e dos novos desafios a que é chamada a saúde pública, incluindo o aborto, o arranha-céus da Unicredit, símbolo da finança, a paróquia de S. Giuseppe dei Morenti, na periferia norte-oriental de Milão, para estar junto dos migrantes e confrontar-se com os seus problemas, e a Trienal, símbolo do mundo da cultura.

O rito da "Nivola", presidido pelo cardeal Scola, está marcado para este sábado, às 15h00; as celebrações prolongam-se até segunda-feira. Para completar o fascínio artístico das celebrações será exposto o grande ciclo de telas sobre o Santo Prego, pintadas por vários artistas no séc. XVIII.

Na cruz, Deus inverte toda a realidade, porque a descobre em toda a sua nudez», mostrando «as chagas» da sociedade, «de que os meios de comunicação falam apenas de maneira descritiva», afirmou Scola em 2015, por ocasião do rito.

«Cabe a nós, imersos na realidade quotidiana, fazer a ligação entre o nosso caminho pessoal e comunitário, entre a nossa biografia e a família humana», assinalou.

 

Imagem© Catedral de Milão

 

Imagem© Catedral de Milão

 




 

Simone M. Varisco / Caffè Storia, Giuseppe Frangi / 30giorni, La Repubblica
Redação: Rui Jorge Martins
Publicado em 07.09.2016

 

 

 
Imagem © Catedral de Milão
O que dá o nome e a espetacularidade cénica ao rito é a "Nivola", espécie de ascensor em forma de nuvem, construído entre os séc. XVI e XVII em madeira, metal e tela, decorado com anjos e querubins pelo pintor Paolo Camillo Landriani em 1612
Com o atual arcebispo de Milão, o cardeal Angelo Scola, a descida da relíquia assumiu a forma de encontro, com a peregrinação do Santo Prego a alguns lugares simbólicos da cidade marcados pela fé e por problemas que atravessam a sociedade
Na cruz, Deus inverte toda a realidade, porque a descobre em toda a sua nudez», mostrando «as chagas» da sociedade, «de que os meios de comunicação falam apenas de maneira descritiva»
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