Virtudes a redescobrir e a viver
Temperança (para além da escassez)
Temperança é palavra que está a sair do nosso vocabulário quotidiano. Do económico já saiu há muito tempo, para deixar espaço ao seu contrário. Usamo-la agora para o clima, para as escalas musicais, para as escalas musicais ou para o cravo de Bach, que são também coisas importantes, mas que não estão no centro da nossa vida civil nem do pacto social. Com a temperança está todo o léxico da ética das virtudes que tende a desaparecer da gramática da vida em comum; e as consequências políticas, civis e económicas deste eclipse estão já tristemente à vista de toda a gente. A nossa civilização (pelo menos a ocidental) corre o risco de deixar de compreender a mensagem de vida sã contida na ética das virtudes, e isso depende de diversos motivos, de dois especialmente.
O primeiro é o desaparecimento do conceito de educação do caráter, a começar pela educação das nossas crianças: o que é natural e espontâneo torna-se automaticamente bom, sem necessidade de corrigir e orientar comportamentos ou inclinações espontâneas, e que no entanto não são boas. Conheço pais que em nome de não especificadas teorias pedagógicas neo-rousseaunianas deixam tranquilamente que os filhos não os chamem mamã ou papá, mas sim Luísa e Pedro. "É assim que lhes sai", argumentam perante a minha perplexidade, "para quê forçá-los?!". A ética da virtude, pelo contrário, vive de uma tensão dinâmica entre natureza (todos somos capazes de virtude) e cultura (que precisa de exercício, disciplina e vontade para que nos tornemos naquilo que somos já potencialmente). Por isso grandes praticantes da ética das virtudes – muitas vezes sem sequer se darem conta – são os verdadeiros atletas e cientistas. O segundo motivo é o não ser capaz de reconhecer um valor na experiência do limite. Quando não se consegue ver o positivo do limite é impossível compreender e apreciar as virtudes, de modo especial a temperança, que consiste precisamente em dar valor ao limite que, ao mesmo tempo que restringe o horizonte de visão (como a “sebe da colina do Infinito” de Leopardi), abre «intermináveis espaços que estão para além dela». É possível que a escrita em tabuinhas de argila na Mesopotâmia tenha nascido porque um certo mensageiro do senhor de Uruk era mudo.
De temperança já nem se fala, mas são muitos, muitíssimos, os maus frutos da sua falta: da destruição do ambiente, ao estilo de vida dos novos ricos e poderosos; de como se fala, escreve email, até às tragédias familiares e infelicidades sem conta, causadas muitas vezes por homens e mulheres não mais educados ao domínio de si e ao controlo das suas paixões, isto é, à temperança.
A temperança foi também uma grande virtude económica das gerações passadas. Orientou o consumo e sobretudo deu origem à poupança que permitiu o desenvolvimento económico do segundo pós-guerra. Permeava também a vida dos empresários que, embora sabendo o que é a abundância, educavam os filhos e viviam eles mesmos o bom uso das coisas e uma certa sobriedade que não humilhava os pobres. Isso não se aplica àqueles que vivem de rendimentos – que nunca me cansarei de distinguir dos empresários – cuja proliferação considero ser a primeira doença de toda a sociedade decadente. A virtude da temperança leva a não consumir hoje uma parte do rendimento para poder dispor dele amanhã – eu e a minha família – e para permitir que outros cidadãos possam usar para investimentos a riqueza disponibilizada pela minha abstinência. É significativo que a teoria económica clássica utilizasse para designar a poupança a mesma palavra "abstinência", normalmente usada para o jejum e para a castidade, recordando assim que estes três fenómenos eram todos filhos da Senhora temperança.
A cultura económica atual que se baseia no maior consumo possível aqui e agora – e melhor ainda se for a crédito - tem, pelo contrário, necessidade do vício da intemperança (uma mistura de avareza e gula) para se poder auto-alimentar. A natureza da virtude da temperança compreende-se se pensarmos que ela se desenvolveu num mundo caraterizado pela escassez absoluta de recursos. É bom não abusar dos bens, pois aquilo que eu consumo como supérfluo é o que falta ao outro como necessário. Todo o ensinamento dos Padres da Igreja sobre o uso dos bens e sobre a pobreza deve ser lido e compreendido neste contexto de recursos limitados e de relacionamentos económicos como "jogos de soma zero". Assim como deverá ser inserida neste horizonte de escassez a ética campesina centrada na virtude da temperança, incluindo aquela seu típico florescimento que foi o movimento das caixas rurais, sobretudo no nordeste italiano (não é certamente por acaso que a província Trentino - Alto Adige está hoje no último lugar em Itália no que diz respeito à percentagem da população vítima da grave falta de temperança que é o jogo de azar!).
No século XX, com a segunda revolução industrial, pensámos que tinha terminado a era da escassez e que tínhamos chegado ao éden da infinita capacidade de reprodução de bens; começámos a olhar o mundo como um lugar de recursos potencialmente ilimitados. Daqui o declínio da temperança como virtude. Pena foi que esta fase de recursos sem limite tenha durado pouco mais que um instante, porque, primeiro o ambiente, depois as energias e a água, e com eles a deterioração de capitais civis, relacionais e espirituais foram-nos mostrando de seguida outros limites não menos apertados e graves que os da época da escassez de mercadorias privadas e de abundância de capitais coletivos. Hoje os novos limites são sobretudo sociais e globais e, para com eles conviver, seria necessária uma imediata redescoberta da temperança, que deveria ser proposta como nova virtude social e económica.
Não pode ser adiada por mais tempo a interiorização do valor do limite, e isso apenas poderá ser feito por uma nova ética das virtudes, uma vez que toda a interiorização requer o saber atribuir um valor intrínseco às coisas, acima do cálculo utilitário de custo-benefício, hoje dominante em todos os âmbitos da nossa cultura. Mas enquanto ontem existia uma relação clara entre a minha temperança e o meu bem-estar pessoal e o nosso bem comum, hoje na era da complexidade este nexo ofuscou-se. Já não é imediato associar o uso do ar condicionado na minha casa ao aumento da temperatura nas cidades (e ao consequente aumento do uso de ar condicionado, em espirais que projetam carregados cenários para o futuro). A racionalidade económica por si só não ajuda a esta tomada de consciência (pelo contrário); seria necessário o registo lógico da virtude que nos leva a praticar uma ação por termos interiorizado o seu valor intrínseco. Por isso, se não des-mercantilizarmos a sociedade, isto é, se não libertarmos importantes áreas da vida civil, hoje ocupadas e colonizadas pela lógica do preço e do incentivo, cada vez menos entenderemos o valor da sobriedade, da abstinência, do controlo de si mesmo, e cada vez menos o entenderão as crianças.
Em conclusão, ontem como hoje, sem temperança não há partilha de bens, não existe a alegria da comunhão. Se não nos educarmos continuamente a delimitar as fronteiras do eu, partilharemos com os outros apenas as migalhas de refeições exageradas; assim não experimentaremos a verdadeira fraternidade, que é fruto de escolhas difíceis de quem sabe limitar razões e âmbitos do "eu", para edificar as do "nosso", e as de todos.
Luigino Bruni
In Avvenire, 11.8.2013
Trad.: P. António Bacelar
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02.02.14
TemperançaLuca Giordano








