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«É preciso vencer a ideia de que a religião é um espaço de diminuição do humano», diz diretor da Pastoral da Cultura

O diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura considera que «é preciso vencer a ideia de que a religião é um espaço de diminuição ou constrangimento do humano».

«Pelo contrário, a experiência religiosa potencia a humanidade e é um lugar de aventura do humano», afirmou o padre José Tolentino Mendonça em entrevista ao programa "Câmara Clara", transmitido em outubro na RTP-2.

A primeira parte da conversa com Paula Moura Pinheiro, centrada na espiritualidade cristã e na relação da Igreja Católica com os artistas, começou com a leitura, por parte do sacerdote, de um poema da sua autoria, "Quando Deus vacila em mim", incluído no seu mais recente livro de poesia, "Estação central":

«Quando Deus vacila em mim
sem adornos, ataduras, sem outro pretexto
Quando o sinto a ponto de perder-se
na folhagem a meu lado
compreendo o grande mistério
uma lei face à qual as palavras
não servem

Deus abraça o meu vazio profundamente grato
Abraça a imundície de todos os seus filhos
e continuamente declara-os bem-aventurados

Pois Deus sendo casto deixa-se consumir
com a paixão insultuosa
dos devassos»

«Na leitura que faço de Jesus de Nazaré e dos textos das origens cristãs que se lhe referem, observo que a fronteira entre o puro e o impuro é algo absolutamente central para entendermos a pretensão, a proposta e a excentricidade dos seus gestos, que anula essa fronteira. Uma fronteira que persiste sob outras formas», assinalou.

No seguimento do Concílio Vaticano II (1962-1965), a relação da Igreja com o mundo não pode ser feita de «costas voltadas», pautada pela «agressividade, zanga, remorso ou mal-entendidos», mas tem de constituir «a oportunidade de um encontro, na diferença, na diversidade e na surpresa».

«Essa ideia de um encontro no impossível de todos os nossos desencontros é alguma coisa que eu persigo obstinadamente, quer na ensaística teológica em torno ao texto bíblico quer na poesia», sublinhou o vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa.

«O que se espera de um poeta e de um artista é uma grande liberdade e verdade interior, para chegar à expressão daquelas dimensões que muitas vezes estão submersas ou silenciadas na vida comum e nos contextos mais ordinários das convenções», o que se converte num «serviço à humanidade».

José Tolentino Mendonça salienta que «há uma relação muito grande entre a poesia e a experiência religiosa».

«Se pensarmos em toda a literatura mística, vemos que essas vozes trabalham uma unidade. Lembro-me sempre que Eugénio de Andrade dizia que o seu poeta preferido era S. João da Cruz, não pela experiência religiosa mas por ser um criador extraordinário».

Por isso «a experiência religiosa é também fecunda em termos artísticos»

«A espiritualidade tem a ver com o espanto, a procura, a pergunta. Levinas dizia que o poema é um ato espiritual por excelência. Toda a arte é uma procura espiritual: os pintores não trabalham sobre o visível mas dão a ver o invisível; os músicos não trabalham sobre os sons que já existem mas dão a ouvir o inaudível; os poetas não dão simplesmente a ver as formas do mundo mas dão a ler o ilegível que cada um de nós transporta colado à sua pele. Por isso é tão dramático pensar-se num divórcio entre a experiência religiosa e a vocação artística, porque ela tem cumplicidades de quem explora um território comum.»

O teólogo madeirense referiu-se também ao afastamento entre a Igreja e a arte, que no seu entender «tem muitas razões, algumas negativas, outras positivas».

«A arte precisava de seguir o seu caminho, fazer uma exploração a partir da sua autonomia, desfazendo e interrogando de forma mais livre e solitária. A arte não pode viver da encomenda mas tem de viver de um chamamento interior e não com a finalidade de umas expectativas de um tempo.»

«O divórcio», explicou, «também se explica pela necessidade fundamental de cada um ter o seu próprio espaço», como acontece à experiência religiosa, que «também se alimenta das imagens mas é alguma coisa para lá das imagens».

«Durante séculos vigorou a consideração de que o outro era um perigo. As Igrejas olhavam para os artistas como pessoas desviantes, com ideias demasiado marginais que não refletiam a vivência institucional ou de uma comunidade. E da parte da arte também surgiu a desconfiança de que a Igreja podia ter uma atitude invasiva e de controlo em relação à criação.»

«Esta fratura acabou por ser positiva, mesmo tendo em conta toda a dor e injustiça que ela abarca, porque agora há um reencontro e um entendimento muito grande de que a arte é uma procura legítima e necessária da verdade e dá a ver o mistério. Hoje diz-se que um teólogo terá sempre uma visão pobre se tiver apenas uma boa base filosófica e não tiver profundidade estética e um conhecimento da criação do seu tempo.»

Referindo-se à presença dos católicos na sociedade, o responsável acredita que «há uma certa insolência nos crentes porque eles vão ao arrepio das convenções, perseguindo o invisível».

«Os crentes na paisagem do mundo são uma pergunta, mais do que uma resposta: "por que é que eles são assim, por que é que pensam daquela maneira, por que é que são aquela minoria tão estranha, que se reconhecem naquele património de ritos, pensamento e espiritualidade?"»

Um dos traços da espiritualidade cristã, realçou, baseia-se na convicção de que «Deus é improvável» e de que é na «surpresa» que ele se revela»

«A coisa mais grave é Deus tornar-se um hábito, uma rotina. Por isso os crentes têm a responsabilidade enorme de não se tornarem profissionais de Deus mas testemunharem-no não como se fossem seus donos ou administradores, mas enamorados que continuamente se espantam com a sua possibilidade.»

 

Rui Jorge Martins
© SNPC | 08.11.12

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José Tolentino Mendonça

 

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