

Capa (det.) | D.R.O novo livro "Via-sacra para crentes e não-crentes", com textos de José Nunes Martins e Paulo Pereira da Silva, acompanhados por fotografias de Francisco Gomes, vai ser apresentado em Lisboa pelo professor, jurisconsulto e comentador Marcelo Rebelo de Sousa.
O volume editado pela Paulus Editora, que estará disponível para venda a partir de segunda-feira, 9 de fevereiro, segue as 14 estações da via-sacra, cada qual com duas reflexões - uma para crentes e outra para não crentes.
A via-sacra, devoção que remonta ao século XIV, pretendia originalmente evocar as peregrinações a Jerusalém, realizando-se em colinas ou montes, imitando a subida de Jesus ao Calvário, com todos os episódios da sua paixão e morte.
Mais tarde, organizaram-se e estabeleceram-se 14 estações, meditações centradas nos passos de Jesus desde a prisão até à deposição no túmulo, tradição que continua a realizar-se nas ruas de cidades e povoados, sendo uma das mais conhecidas aquela que o papa preside em Roma, junto às ruínas do Coliseu.
No século XVIII começou a colocar-se dentro das igrejas 14 cruzes ou figuras, para que os fiéis sigam a "via crucis", como também é conhecida a via-sacra, voltando-se para a estação contemplada.
Especialmente rezada e meditada durante a Quaresma, esta expressão de religiosidade cristã admite uma adaptação flexível, nos seus conteúdos, à espiritualidade de cada comunidade ou, no caso desta obra, dos leitores.
A estrutura das estações foi evoluindo com o tempo, acentuando-se a tendência de sublinhar os passos de Jesus que têm referências no Evangelho.
"Via-sacra para crentes e não-crentes", de que apresentamos em pré-publicação dois excertos, vai ser apresentada no dia 18 de fevereiro, na basílica dos Mártires (ao Chiado), às 19h30, em sessão que conta com a presença dos autores.
Via-sacra para crentes e não crentes
José Nunes Martins, Paulo Pereira da Silva, Francisco Gomes
1.ª estação: Jesus é condenado à morte
«"Eis o Homem!" Vendo Jesus, os sumos sacerdotes e os guardas começaram a gritar: "Crucifica-o! Crucifica-o!" "Aqui está o vosso rei!" Eles começaram a gritar: "Fora! Fora! Crucifica-o!» (João 19,5-6.14-15)
Todos os dias somos condenados. De forma mais ou menos imprudente, há sempre quem nos aponte o dedo e faça vários juízos a respeito do que dizemos e fazemos, do que temos, do que somos e do que não somos. E, apesar de se basearem em aparências, as sentenças são quase sempre muito convictas.
É duro ser julgado de forma precipitada e sem fundamento por quem se julga o centro do mundo. É duro ser vítima de injustiça. Quantas vezes o bem que fizemos foi interpretado como um mal, um atentado contra o que estavam à espera. Outras vezes, cometemos erros e somos julgados por eles, sem grandes explicações... sem grande justiça. Apenas de forma rápida e definitiva.
Mas cada um de nós também faz o mesmo aos outros. Julgamo-los de forma imprudente, apontamos o dedo e condenamos com grande rapidez, sem nenhuma compaixão. Julgamo-nos sempre excelentes juízes das vidas alheias.
O meu sentido de justiça passa por algo simples: quem é como eu, está bem; quem assim não é... é mau!
Não somos a medida de todas as coisas. Somos menos, muito menos. Somos quase nada.
Evitamos a aspereza do bem, preferimos a comodidade do mal. A nossa aversão a quem escolhe o bem vai ficando mais forte. Esses, abrindo-se ao que está para além deles, mostram-nos que é possível construir uma vida com sentido profundo, com respeito por si e pelos outros, escolhendo bem, escolhendo o bem. Fazendo-se melhor.
O silêncio de quem sabe quem é, e sabe o que quer, desconforta quem não é senão uma aparência do que gostava de ser...
Quantas vezes tive a coragem de assumir a verdade do que sou?
O que quero eu de mim?
Estamos condenados a fazer o nosso caminho. Cada um o seu.
O que julgamos, o que dizemos, o que fazemos, estabelece a nossa identidade. Cria a nossa essência. Define-nos. Esse é um dos nossos maiores talentos: a liberdade de nos escolhermos.
Mas serei eu capaz de assumir e justificar as minhas decisões?
Ou será que me julgo vítima de circunstâncias estranhas e que, por isso, as minhas respostas não podiam ser outras?
Dou-me conta de que posso mudar quase tudo, hoje mesmo?
Quem sou eu para julgar alguém?
Quantas vezes a verdade está à minha frente e eu não a vejo?
Via-sacra para crentes e não crentes | D.R.
Sangue. Sangue no rosto, no cabelo, nas mãos, na túnica sem costura. O Senhor está de pé, frente a Pilatos, em silêncio, no mesmo silêncio que acolheu todas as acusações daquele dia funesto. A justiça está morta, a condenação proferida.
Será mesmo o Filho de Deus vivo, o Rei dos Judeus, que está ali, imóvel no seu silêncio?
Pecadores, vítimas consentidas da Lei levada à letra, declararam a morte de Deus, num tribunal de soldados e de doutores. A força do sistema instalado aliou-se a um meio intelectual feito de mentira. Qual dos dois a mais dolorosa traição?
Venceram aqueles homens que pretendem defender o Pai contra o Filho nesta falhada expedição da encarnação.
Perante o silêncio do Verbo, que o Pai escuta em sofrimento, por amor ao Filho, Pilatos ainda fica mais surpreendido. «Como cordeiro diante de quem o tosquia, emudecerá e não abrirá a boca», ao que as gentes contrapõem com gritos: Crucifica-O! Crucifica-O!
O Senhor vive uma solidão crescente. Solidão na impossibilidade de entrar em relação com os Seus e com aqueles que O esperavam, na impossibilidade de se confiar a eles. Sofre do seu isolamento, neles, em nós, em mim. Sofre da aparente simpatia de Pilatos, que não lhe tendo encontrado falta alguma não chega a uma conversão interior, optando pelo conforto e rejeitando qualquer responsabilidade.
Tudo é acentuado pela crueldade do manto púrpura que lhe deitaram sobre os ombros e dos espinhos que lhe coroam a cabeça. Rei dos Judeus: um título que paira entre a divindade e a humanidade. Título próprio do Senhor em virtude de uma missão divina. O Senhor sabe o seu significado, o seu povo deveria sabê-lo e Pilatos poderia ter feito a sua experiência. E nós? E eu?
Por detrás do rosto do Senhor está o rosto de todos os homens desfigurados, feridos, deficientes, sofredores. "Ecce Homo", eis o Homem, dá dignidade a todo o homem. É selo da aliança entre Deus e os homens: Quem toca no homem, toca em Deus!
Sentença proferida, um fio de água corre sobre as mãos cobardes: o Homem vai morrer mas nada mais retém o Verbo. O Amor pode avançar.
Protege-me, Senhor, da condenação que é viver no desespero. Transforma o meu coração empedernido no medo, num coração de carne, vulnerável, vivo, aberto e que bata ao teu ritmo.
Faz diminuir o "eu"da minha vida para nela poder adicionar o teu espírito. Faz com que a minha vida seja mais abandono e participação do que procura de segurança, mais relação do que posse. Faz com que eu viva realmente e que dê vida.
14.ª estação: O corpo de Jesus é depositado no sepulcro
«Não sabíeis que Eu devo estar na casa do meu Pai?» (Lucas 2, 49)
Acabou? O fim não é o momento em que as coisas se separam,
mas o momento em que acabam.
Se o amor por quem morreu não acabou, então não é o fim.
Sepultados no fundo dos corações de quem amámos, permanecemos. Assim como todo aquele que morre leva com ele tudo quanto por amor lhe foi entregue.
É tempo de esperar, no sofrimento da paciência, que venha o tempo de compreender tudo, de conhecer o sentido da vida e do sofrimento... Antes, talvez, venha a minha hora...
A minha vida é a minha via-sacra. Sou como Jesus, como Pilatos e como a mãe, como Simão e como Verónica, como um soldado impiedoso e um piedoso. Sou um ladrão e um amigo...
A morte de quem me amou toca-me no fundo, rasga-me e leva-me boa parte do meu coração. Viver é ganhar e perder, ganhar-se e perder-se. Estamos todos aqui, condenados à morte.
Aquela montanha existe, mesmo que ninguém esteja a olhar para ela. O que está para além dela... também.
De que vale uma vida inteira se não for capaz de amor? A verdade é algo que alguns julgam uma mentira escandalosa. Somos chamados a ser o milagre em que nem os nossos amigos creem.
Andamos à procura de quê?
A resposta é dada a cada um de nós, de acordo com o caminho que formos construindo com as nossas mãos e percorrendo com os nossos pés. A resposta está no fundo do nosso coração. Lá onde apenas se pode escutar o silêncio e a verdade.
Assumir o amor como o caminho para a felicidade é difícil e muito exigente, mas é o único que faz verdadeiro sentido.
Foge-se da morte. Mesmo depois da morte de alguém próximo, o esquecimento parece ser a solução que alguns adotam para si, mas... como poderá saber o que é a vida quem se recusa a encarar a morte?
Aquele que vive só para si e o que, por amar, se dá aos outros... ambos morrem. Pode ser que nenhuma destas formas de vida tenha sentido, mas também pode ser que apenas uma o tenha... Os diálogos interiores que mantemos connosco e com os nossos são essenciais a uma vida com sentido. Larga e ampla. Profunda e elevada.
A nossa vida estende-se muito para além da nossa morte. Muito.
Somos o amor que formos capazes de criar... e viver.
Só é nosso o que tivermos sido capazes de dar.
Tudo o resto, perde-se.
... cada um de nós é um mistério que se estende e abraça o infinito...
Via-sacra para crentes e não crentes | D.R.
Não há tempo. O "Shabbat"vai começar.
Depois de lavado e cuidado, envolvem o corpo do Senhor num lençol imaculado. Depois é enfaixado e depositado, por José e Nicodemos, no túmulo de pedra. O túmulo é fechado.
Esta noite, da morte vai surgir a Vida.
O Rei está deitado na rocha fria.
Desce até à escuridão da terra, na profundidade do tempo.
Visita os confins do seu reino, abre os túmulos e chama os mortos. Liberta os cativos.
Os que O amam seguem-n’O.
Voltará ainda brevemente para iluminar a humanidade, sua irmã, e lhe dar um coração e espírito novos.
Maria é a única luz acesa sobre a terra:
Mãe sem temor, amável, doce, de bom conselho, prudente, virgem forte e fiel, nossa alegria, nossa esperança, refúgio dos pecadores. Minha Mãe.
Maria, estrela da manhã, radiante de alegria, vê a outra Maria ir a caminho do sepulcro ainda «de madrugada, sendo ainda escuro».
Agora, a Esperança começa!
Publicado em 06.02.2015
Capa | D.R.