

Capa (det.) | D.R.Em julho de 2008 morria em Madrid a médica oncologista África Sendino, na sequência de um cancro da mama. Desde que conheceu o diagnóstico foi escrevendo um diário, que mais tarde confiaria ao capelão do hospital, o padre e escritor Pablo D'Ors, para que lhe desse um estilo narrativo.
"Viver, amar, morrer - Contigo até ao fim", que a Paulinas Editora disponibiliza nas livrarias a partir de segunda-feira, recolhe as últimas vivências da médica, nomeadamente como se colocou, pela primeira vez, no lugar de doente, e a maneira surpreendente, aos olhos do capelão, como entregou a Deus o seu destino.
Num tom próximo e coloquial, e ao mesmo tempo profundo, Pablo D'Ors destaca a dignidade humana, a intensa espiritualidade e o valor cristão do sofrimento que apreendeu do testemunho de África Sentino, à medida que as forças lentamente a deixavam. Os excertos que apresentamos são uma breve amostra da sua fé.
Viver, amar, morrer
Pablo D'Ors
Paulinas Editora
– Posso contar-te uma coisa? – disse-lhe J. C. D.; e, antes que pudesse reagir: – Tenho um cancro da mama.
– Mas ainda estará por confirmar! – respondeu-me ele.
– Não – repliquei-lhe e, aguentando o seu olhar –, já está diagnosticado.
«Não quis render-se aos factos, enquanto não lhe demonstrei que já tinha chegado a hora de fazer-me um estudo profundo. Como tantos dos que mais tarde seriam informados, J. C. D. não aceitou a dimensão da notícia.»
É assim que começa o diário da doutora África Sendino que, na hora da sua morte, alcançou um comportamento que eu não duvidaria qualificar de «exemplar», um adjetivo que, neste caso, não só considero justo ou apropriado, mas também exato.
Nas notas que seguem, Sendino relata como se vestiu, depois de ter sabido aquela terrível notícia e como saiu do laboratório com aquele novo peso que começava a carregar a sua vida. A partir daquele momento, iniciou-se para ela um diálogo com o seu Deus, intenso e prolongado: «Fui à capela de Traumatologia e ajoelhei-me – escreve: “Senhor, rezei, só me ocorre dizer-te que quero que sirva para tua maior glória o que me tocar viver a partir de agora. Tu saberás o caminho que inicias. Tu saberás aonde me conduzes”.»
O que a própria Sendino quis que oferecesse em seu nome ao mundo foi uma espécie de testemunho, o mais fidedigno possível, da sua vivência da doença. E todos somos obrigados a respeitar as últimas vontades dos nossos mortos. Este escrito justifica-se somente por esta vontade e convém deixarmos isto bem claro desde o princípio: não me guia nenhuma outra pretensão; escrevo porque foi isso que ela me pediu. E gostaria de começar, fazendo-o com esta afirmação: se é verdade que os últimos dias e até as últimas horas na vida de uma pessoa simbolizam bem o que essa pessoa foi ou quis ser, então devo pensar que Sendino era o que no catolicismo se entende por santo.
Talvez convenha saber que trabalho como capelão de um hospital, há já alguns anos, e que, como não podia deixar de ser, nessa instituição de saúde, tive a oportunidade de atender muitos doentes e moribundos. Chamaram-me vezes sem conta para administrar a Unção dos Enfermos, por exemplo, ou para ouvir em confissão quem queria reconciliar-se, antes de se submeter a uma importante intervenção cirúrgica ou, até, para a chamada encomendação da alma e despedida do cadáver. Informo sobretudo isto somente para que fique bem claro que, pela minha ocupação atual, muitos têm sido os doentes terminais que foram passando perante os meus olhos e pelas minhas mãos sacerdotais; e que, deste modo, pude constatar como morrem os homens: inconscientes, atormentados, tranquilos, angustiados… Mas nenhum como Sendino. A morte de Sendino destaca-se no meu coração sobre todas as outras.
A Palavra de Deus sempre me causou arrepios, com toda a certeza pela dolorosa inadequação entre o que ela me pede e o que eu estou disposto a dar. Por isso, ali estava eu, naquela cadeirita, embargado por uma estranha sensação: tinha ido para ajudar uma doente, mas, em vez disso, quem ia ser ajudado era eu. Tratava-se da experiência sacerdotal por excelência, o mais alto cume do evangelizador: os pobres evangelizam-nos.
«Quero deixar claro – continua Sendino, quando relata a segunda fase do seu tumor – que o facto de a doença pressupor um período de perdas não sentencia irremediavelmente que o facto seja um período de perda de mim mesma. Não, de modo nenhum! Mesmo sendo dolorosa a comprovação do fracasso do tratamento para erradicar um tumor, experimentei que a minha recaída tinha algumas vantagens como, por exemplo, já não me esperariam tantas novidades, excetuando, naturalmente, a perspetiva de um desenlace final. Então, a morte apresentou-se como uma convidada para a festa.»
Esta página do seu diário – talvez uma das mais intensas – foi para mim muito reveladora: Sendino começa a falar da morte, chama-a pelo seu nome e dá-lhe as boas-vindas; Sendino não se esquiva ao rosto da morte, como faz a maioria dos doentes, com disfarces e trapaças. Como capelão de um hospital, comprovei que são muitos os que dizem que, quando chegar a hora de estar doentes, quererão saber toda a verdade; mas também comprovei que são poucos os que, chegada essa hora, querem efetivamente saber tudo. A personalidade que não está preparada para encaixar a notícia da sua morte costuma proteger-se através da ocultação. Sendino não precisou desta estratégia. Recebeu a notícia do seu falecimento iminente, da sua possibilidade, com coragem e elegância. Dentro do seu coração travava-se uma batalha; mas, como um bom estratega, ela dispunha os seus soldados para o ataque e para a defesa.
Ao pensar sempre na sua enfermidade como fonte de ajuda aos outros, Sendino rompeu milagrosamente esse círculo egocêntrico que caracteriza a maior parte dos doentes. Na minha maneira de ver, pensar no outro, quando se está a sofrer, só pode ser considerado heroico.
Como se isto fosse pouco, Sendino quis ser médica mesmo depois de morta: quis que a sua experiência vital servisse de força curadora para quem continua neste mundo. Por isso – e só por isso –, a sua preocupação derradeira com as suas memórias. Não procurava a glória mundana, a que não creio que alguma vez tenha dado a mínima atenção. Buscava ser médica até ao fim. Esforçava-se por ser fiel à sua vocação.
«Deus não nos oferece a doença como castigo, mas como caminho. E porque nesse caminho estou a aprender intensíssimas lições do que se pressupõe que Deus compõe como argumento da minha biografia. Por fim, compreendo que a Providência divina não é uma simples formulação, mas uma realidade quotidiana que me aguarda no rosto dos meus amigos. E vejo, como num espetáculo grandioso, até onde pode chegar a bondade de quem me rodeia.»
Bem depressa as suas palavras ficam em suspenso, seguramente porque a sua reflexão deriva em oração e porque esta se torna demasiado íntima e a caneta cai dos dedos e ficam os dois, Sendino e Deus, nesse silêncio religioso em que as palavras – mesmo as mais belas – só podem profanar.
«Desde o princípio da minha enfermidade compreendi que a minha forma de encará-la não era o resultado de uma grande fortaleza psicológica, mas um dom estritamente sobrenatural. Desde esse primeiro momento – continua –, soube que só tinha um desejo: fazer esta minha peregrinação do melhor modo possível.» E termina esta entrada do seu diário com uma afirmação tremenda: «Os enfermos são um tesouro para a Igreja.» Não é somente o que tinha escrito; eu mesmo comprovei com os meus olhos e ouvidos que Sendino se via a si própria – enquanto doente – como um autêntico tesouro.
Sendino e eu falámos com frequência da oração e da leitura espiritual, a que ela dizia recorrer ultimamente com maior frequência porque, por efeito da morfina, durante a meditação, tendia a dormitar ou até adormecer. Sobre a oração, respondeu-me duas coisas que me comoveram muito. A primeira: que nunca tinha rogado pela sua cura. «Quem sou eu – disse-me –, para pedir algo assim?» Fiquei mudo, estupefacto: era a primeira vez que encontrava um doente crente que não tinha rezado pela sua recuperação. A segunda, talvez ainda mais impressionante e comovedora: que quando alguém lhe dizia que orava pela sua saúde, ela aplicava secretamente o que no seu foro íntimo ela designava por desvio de oração. Assim como há alguns aparelhos telefónicos que podem ser programados para que as chamadas feitas para eles toquem em outros – explicou-me –, assim também eu programo o meu coração – disse também – e o meu próprio coração foi encolhendo enquanto escutava. – Deste modo, todas as orações que me têm por meta redundam em benefício de outros enfermos e Deus as leva em conta a favor deles.» Neste sentido, confessou-me que, muito amiúde, tinha «desviado» a oração para uma tal Keti (que, aliás, nem sequer conhecia). Como qualificar esta atitude? – perguntei a mim mesmo, ao ouvir aquilo. Generosidade? Solidariedade? Comunhão dos santos? Pirueta espiritual?
«A Liturgia das Horas assegurou-me a melhor e mais equilibrada nutrição espiritual. É possível que os salmos não ofereçam o que apeteceria mais a cada alma em cada momento; mas a maior parte das vezes oferecem, misteriosamente, aquilo de que mais se precisa. Estou muito agradecida ao saltério; porque, ao rezá-lo, é como se a minha enfermidade adquirisse imediatamente uma ressonância universal. Nós, os que sofremos, deveríamos irmanar-nos. Se o mundo soubesse da enorme força espiritual que se congrega numa clínica! Ao ver o segundo nódulo como um inimigo que me arreganhava os dentes – metálicos e afiados –, achei muito consolo nas palavras – “Felizes os que em ti encontram a sua força” – do Salmo 84 [84(83),6]. Então, tive de repetir a mim mesma a minha convicção mais firme: que as minhas misérias não me afastam de Deus, mas me devolvem a Ele.»
A doença…, uma graça? Sendino soube pessoalmente que não é possível viver humanamente sem conhecer a dor na sua própria carne. Sabia que longe do sofrimento e da dor não há humanidade. Que uma doença não se compreende nem se vive, em toda a sua radicalidade, enquanto não se agradece. Que o seu cancro era uma estranha bênção quase incompreensível, mas que como cristã e como médica ela estava na melhor das condições para entendê-la e vivê-la. Sendino viveu a sua morte, o que muito poucos podem afirmar. Quase ninguém tem essa lucidez, essa valentia. Todo o mundo tem demasiado medo do lado escuro e, sem determinadas chaves de compreensão, o próprio testemunho de África Sendino ficará como o de uma extraterrestre e será enterrado no esquecimento.
É isto o que esta vida pôde dar? Esta vida já não poderá gerar mais vida? Quantos dos que nos apertamos agora nos bancos desta capela de hospital nos lembraremos de Sendino daqui a um mês ou, até, na próxima semana? Confesso que me assustam os lutos prolongados a que algumas viúvas parecem tão dedicadas; o que me assusta mais é a espantosa brevidade com que hoje se costuma viver os lutos: a rapidez com que metemos os mortos nos seus caixões e a rapidez com que todos voltamos aos nossos afazeres quotidianos, como se nada tivesse acontecido. De vez em quando, um pensamento para o morto, sim, mas só um. Ou dois, mas só dois. E, às vezes, pensamentos que nem sequer atingem a categoria de pensamento, pois são rajadas ou imagens devoradas por outras imagens que mal têm tempo de deixar em nós essa borra de tristeza que nos tornaria mais humanos.
«O meu maior medo? Que a intensidade do meu sofrimento me tente a não louvar a Deus e a não dar graças ao seu nome. Só peço uma coisa: que a minha enfermidade não me afaste dele; pois, se o fizesse, para quê e a quem serviria?» Guardei silêncio. Não tinha nada a acrescentar.
«Aceito ser um despojo – continuou ela, por fim. – Quero gastar-me e desgastar-me a cumprir a sua vontade.» Depois daquela confissão, ficámos novamente em silêncio. Pus-me a rezar e creio que ela também. Minutos depois, voltou a tomar a palavra para dar-me conta do enorme trabalho interior que teve de fazer para aceitar não poder valer-se a si mesma.
Duas atitudes pesaram muito em Sendino e nisso, ao menos nisso, compartilhou a experiência da maioria dos enfermos. Que, pela sua progressiva invalidez, a sua dependência dos outros fosse cada vez maior, deixando de ser autossuficiente e dando demasiado trabalho às enfermeiras e demais pessoal de saúde. («Não há nada que eu deteste tanto como dar que fazer aos outros.») Por isso, Sendino fazia o impossível para se tornar menos gravosa; e nunca pedia nada que não pudesse realizar por si mesma.
A segunda atitude – e isto doeu-lhe ainda mais – foi a de, em certa ocasião, os seus irmãos terem decidido uma reunião familiar, sem contar com ela, nem sequer a terem informado.
«Como se eu já não contasse – disse-me. – Como se eu já estivesse morta.»
Sendino tinha os olhos cheios de lágrimas, quando me relatou esta pena. Tinha compreendido que a enfermidade não implica somente dor física, mas também um progressivo desaparecimento do horizonte dos outros, mesmo dos seres mais queridos. (...)
Desaparecer progressivamente do horizonte dos outros, Morremos para este mundo muito antes de o nosso coração deixar de bater.
Devo dizer que Sendino nunca se rendeu à sua doença, que sempre lutou contra ela, porque isso – a luta – era o que ela entendia como dever. Contudo, não o fez por se ter agarrado avidamente à vida, como vi muitos outros doentes fazer, mas porque não queria partir deste mundo sem ter dado a última coisa que podia dar. Pois, se ainda não está claro, Sendino era o que comummente se entende por uma lutadora. Uma lutadora de lutas sem quartel que estava disposta a sacar das armas, quando o Senhor em quem cria lhe dissesse que tinha chegado a sua hora.
Por mais dolorosas que fossem todas as perdas que sofria, Sendino sabia que a sua identidade mais profunda não se cifrava na liberdade de movimento, que não radicava na simples autonomia – como tantos dizem – e que, ainda mais, é na experiência da dependência radical dos outros que o ser humano está nas melhores condições para se compreender a si próprio. Depois daquela visita, algo mais prolongada que as habituais, concluí que a ninguém como ao doente se abre tanto a possibilidade da fé. Pela primeira vez, no meio do imenso conjunto de pessoal hospitalar em que lhe tocava viver, aquela mulher era definitivamente uma privilegiada.
– Que sorte tens por estares doente! – estive quase a dizer-lhe.
Porque Sendino era uma lição viva de Evangelho para quem entrasse no seu quarto com o coração aberto. É que, naquele quarto, respirava-se uma atmosfera sagrada. Não cheirava a igreja (quer dizer, a incenso ou a cera), mas a santidade; e a santidade é – ao menos tal como a vi nela – elegante e discreta, terna e firme, silenciosa, necessária…
«Sou médica – lembro eu agora o que Sendino me disse numa das últimas tardes em que esteve lúcida. – Meti as mãos na massa do sofrimento com a nobre intenção de aliviá-lo. E, se tive o privilégio de tocar em tanta dor de outros corpos, como não hei de permitir que outros toquem no meu? Graças a esta enfermidade que sofro, compreendi que compartilhar a dor não significa simplesmente assumir a dor alheia, mas também repartir a minha. Tenho sofrimento; de acordo. Posso compartilhá-lo ou guardá-lo para mim. Decidi entregá-lo. E, ao dizê-lo, compreendi que é assim que se alivia e que para isso – para entregá-lo – se existe.»
Não é nobre este testemunho? – pergunto a mim próprio e pergunto ao mundo. E também: Terei eu captado alguma coisa do mistério de África Sendino ou apenas o amplio enquanto escrevo sobre ele? Em suma, é esta a minha experiência com doentes: que são um mistério; que Deus me espera neles mais do que em nenhum outro lugar; que todos têm um nome próprio – único, original, irrepetível – e que esse nome, o de todos esses doentes – também o de Sendino –, é sempre e iniludivelmente o meu.
Como capelão hospitalar, aprendi que nós, os seres humanos, passamos a vida a fugir do sofrimento (também eu, sobretudo eu), e que, só quando não fugimos do sofrimento é que nos realizamos como homens. Quando eu entrava no quarto de Sendino, tinha a impressão de que ela me increpava com um «Olha para mim, não tenhas medo!». E, às vezes, eu olhava para ela, mas só às vezes; e, nessas vezes, eu terminava o encontro tão reconfortado como angustiado. De quanta humanidade são capazes os seres humanos? – interrogo-me. Quanta humanidade estamos dispostos a aceitar? Viver humanamente, que é aquilo a que Sendino me convidava, fatiga indizivelmente. Às vezes, parece-nos que assim não poderemos resistir muito tempo; mas logo depois, que sim, que podemos. A verdade é que sempre se pode um pouco mais e isso mesmo – a nossa capacidade de resistência – é o que assusta.
«Olha para mim!» – dizia-me Sendino sem palavras, quando eu entrava no seu quarto. «Olhai para ela!» – digo eu, agora, a quem leu estas poucas páginas. Para mim foi uma honra ter conhecido esta mulher. Tenho a certeza de que não estive à altura do que ela esperava de mim, do que Deus esperava de mim ao pô-la no meu caminho. Mas parece-me que as conversas que mantive com ela, as minhas visitas, este caderno redigido na esteira das suas poucas notas, justificam a minha presença como sacerdote num hospital. E isso – devo dizê-lo – importa-me. Creio que, quando chegar a minha hora e tiver de apresentar-me diante do Pai, entre muitas outras coisas, lhe direi: «Eu conheci Sendino.»
Publicado em 13.11.2014
Capa | D.R.