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Entrevista ao P. Jorge Coutinho, Presidente da Comissão das Solenidades da Semana Santa de Braga

Com um mandato indefinido, iniciado há cinco anos, p P. Jorge Coutinho, professor da Faculdade de Teologia de Braga e Arcediago do Cabido da Sé de Braga, dedica cerca de três meses da sua vida, em cada ano, exclusivamente para preparar a Semana Santa.

O resultado traduz-se na elaboração atempada do programa para a sua divulgação nas feiras internacionais, ao contrário do que acontecia há seis ou sete anos atrás, agora enriquecida com um «site» que leva a todo o mundo cada momento do programa cultural e religioso deste importante cartaz turístico e religioso da Roma Portuguesa.

A esse propósito, a Rádio Antena Minho convidou-o para uma entrevista cujos momentos principais transcrevemos.

 

Correio do Minho / Antena Minho
No programa da Semana Santa de Braga temos actos mais eruditos e outros mais populares. Como é que a Comissão das Solenidades a que preside conseguiu fazer esta  conjugação harmoniosa?

P. Jorge Coutinho
A parte religiosa da Quaresma e Semana Santa, mais desta, tem sempre uma forte componente de liturgia que se celebra no interior dos templos…

 

Correio do Minho / Antena Minho
Começa no Domingo de Ramos...

P. Jorge Coutinho
Sim, começa no Domingo de Ramos e tem uma grande celebração na Quinta-Feira Santa e depois na Sexta-Feira Santa outra grande celebração e depois a Vigília Pascal. Essa é a dimensão religiosa, a tal que podemos  definir como erudita que tem o seu simbolismo muito bem preparado e estudado, pelo menos na Igreja do Ocidente, com o seu significado teológico, que tem as suas regras precisas e necessita de ser entendida. Por isso, tem muitas vezes um monitor para ajudar as pessoas a perceber aquilo que se está a celebrar ou o que está a acontecer. Chamamos-lhe a componente erudita.
A componente popular é constituída pelos actos exteriores, as procissões, fundamentalmente. A Procissão de Ramos, para imitar o cortejo que acompanhava Jesus na entrada de Jerusalém. Era do povo porque não foi organizada, foi espontânea, tem poucas formalidades e não é uma das procissões muito estruturadas.
De tarde temos a dos Passos, como a de Quinta-feira e Sexta-feira Santa são procissões mais populares, como acontece com a famosa Procissão da Burrinha. Representa quadros bíblicos e também pode ser popular, embora exija mais conhecimentos dos livros bíblicos.
Podemos ligar o erudito ao popular.

 

Correio do Minho / Antena Minho
Na dimensão cultural também conseguem fazer essa conjugação ou é mais erudita?

P. Jorge Coutinho
Na vertente cultural, é toda ela erudita, a não ser as exposições de fotografia, como os oratórios são bastantes populares embora não seja uma arte popular.

 

Correio do Minho / Antena Minho
As exposições são uma aposta forte da Comissão para este ano. Houve alguma razão especial para que isso acontecesse?

P. Jorge Coutinho
Não, de algum modo aconteceu. Nós procuramos contactar entidades que possam fazer exposições também acolher as ofertas. Houve uma série de ofertas outras entidades que gostariam de fazer estas exposições por esta altura.
Aconteceu com as duas exposições de iniciativa do Museu Pio XII e...

 

Correio do Minho / Antena Minho
...com a mostra do Braga Parque.

P. Jorge Coutinho
Não, essa é da iniciativa da Comissão. Entre as ofertas é o caso da Junta de Freguesia de S. Vítor e do Museu Pio XII.

 

Correio do Minho / Antena Minho
E quanto às exposições da responsabilidade da Comissão…

P. Jorge Coutinho
Temos a itinerante que começou no Braga Parque e vai visitar algumas cidades e a dos oratórios embora seja assumida pela Santa Casa de Misericórdia de Braga e Câmara. Acontece de várias maneiras. Este ano temos sete exposições o que é excepcional. Quanto à itinerante é uma experiência da Comissão. Escolhemos quatro localidades, Braga, Montalegre, Porto, Aveiro e Bragança.

 

Correio do Minho / Antena Minho
Isso aconteceu com as exposições mas não “aconteceu” com os concertos.

P. Jorge Coutinho
Também acontece. Como é o caso da oferta do Colégio Teresiano. Soubemos que havia uma vontade do colégio e nós acolhemos essa ideia para um espectáculo de dança sobre os Símbolos da Páscoa, no dia 13. O mesmo acontece com o concerto do Conservatório de Música, no dia 14. É uma festa que o Conservatório faz aos familiares e alunos do Coro e Orquestra e que Comissão acolheu no seu programa. Enche sempre a Sé e é um momento de alegria.

 

Correio do Minho / Antena Minho
Os outros concertos não são ofertas…

P. Jorge Coutinho
Para o público são, porque a entrada é gratuita, mas para a Comissão geralmente custam dinheiro. A Irmandade de Santa Cruz oferece um mas paga-o. A Irmandade da Misericórdia também oferece um concerto que costuma ser caro.

 

Correio do Minho / Antena Minho
Depois temos o concerto patrocinado pelo Braga Parque...

P. Jorge Coutinho
O Braga Parque tem sido o grande patrocinador da Semana Santa. É uma obra fantástica — o “Requiem alemão”, de Brahms. Na Terça-feira Santa é sempre um grande concerto e enche a Sé até à porta… nem sentado nem de pé cabe mais gente. Com o Coro da Sé do Porto e Orquestra, adquire sempre uma grande solenidade.


Correio do Minho / Antena Minho
Tem o patrocínio do Braga Parque, o que nos leva para outro tema que é o envolvimento da cidade, das empresas e das instituições nas Solenidades… até para angariar receitas para um orçamento de 105 mil euros.

P. Jorge Coutinho
É o grande problema que a gente tem. Já que referiu o Braga Parque, devo deixar aqui o meu apreço pela Drª. Ana Rodrigues que tem sido de uma grande simpatia e abertura, sentida em anos anteriores. Dão os cinco mil euros que têm mantido com muito boa vontade em contraste com a indiferença de outros.

 

Correio do Minho / Antena Minho
Mas num orçamento de 105 mil euros, tem de bater a outras portas…

P. Jorge Coutinho
Esse montante do orçamento inclui a comparticipação das Irmandades, porque o orçamento da Comissão anda pelos 75 mil euros. Há um contributo das entidades que formam a parceria da Comissão: Cabido, Irmandades da Misericórdia e Santa Cruz, com cinco mil euros cada uma. Depois a Câmara Municipal e a Associação Comercial de Braga. A Câmara Municipal tem colaborado muitíssimo bem e este ano concede 29 mil euros que corresponde principalmente ao custo das ornamentações. É um bom entendimento da Câmara Municipal. Não pedimos mais dinheiro porque oferece bastantes serviços logísticos. Fizemos a nossa proposta e foi aceite. Não tem acontecido com outros parceiros. O Turismo Verde Minho também entra com cinco mil euros. A Associação Comercial oferece serviços…

 

Correio do Minho / Antena Minho
Certamente  chegaram outros ecos, mas o cartaz deste ano é lindíssimo, pela expressividade…

P. Jorge Coutinho
Deixa-nos orgulhosos e já demos uma palavra de parabéns ao autor do cartaz, o Abel Rocha, proprietário da Paleta de Ideias. A princípio não se “via” bem este fundo em cor damasco, mas acabou por ter um belo efeito espantoso, porque é uma cor litúrgica e está associada ao tema.

 

Correio do Minho / Antena Minho
Onde foram buscar este fantástico rosto de Cristo?

P. Jorge Coutinho
Como se pode comprovar, é o extraído de uma fotografia devidamente tratada do rosto do Cristo do Senhor dos Passos da Irmandade de Santa Cruz (que sai no próximo sábado à noite na procissão do Miserere para a Igreja de S. Pedro e S. Paulo). O Abel Rocha colocou-lhe um brilho nos olhos para simbolizar o Cristo sofredor onde já se vislumbra a Ressurreição. Resume o Mistério Pascal, da morte e da vida. Está muito bem expresso e tem tido muita repercussão de todos os lados. Há pessoas de todo o país que viram este cartaz e exclamaram “Ai que lindo”…
O Abel Rocha apresenta-nos sempre várias propostas e constitui um excelente apoio na montagem do programa da Semana Santa de Braga.
Ao contrário – deixe-me dizer-lhe isto de passagem — do que outro mau espírito de Braga que leva muitas vezes algumas pessoas a entrar numa catedral e só verem uma teia de aranha.

 

Correio do Minho / Antena Minho
São mesquinhas...

P. Jorge Coutinho
Não digo mais nada.

 

Correio do Minho / Antena Minho
Mas esse é o maior pecado dos portugueses a que muitos bracarenses não fogem..

P. Jorge Coutinho
E entre a clerisia, se calhar também se vive…

 

Correio do Minho / Antena Minho
Um dos problemas sempre difíceis de resolver é dos anjinhos e figurantes das procissões…

P. Jorge Coutinho
Já foi pior, porque nos últimos anos, as coisas têm melhorado. Recorremos à imaginação… embora a procissão de Ramos, porque é domingo e é à tarde, as famílias não estão disponíveis, continua difícil. A Irmandade de Santa Cruz recorreu à sua creche e vai lá buscar crianças e aumentou sensivelmente o volume de anjinhos para completar os quadros bíblicos. Nas outras procissões tem sido a nossa teimosia, junto das paróquias. Há menos crianças, há menos fé e menos empenho dos pais embora as crianças gostem muito de ser anjinhos.
Há dois anos choveu muito e a procissão não pôde sair e eu vi como muitas crianças estavam com pena por não poderem desfilar na procissão… isso está a ser ultrapassado e está a conseguir-se um número interessante de crianças e adolescentes.

 

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in Correio do Minho

13.03.2008

 

 

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Cartaz da Semana Santa de Braga, 2008
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