Leitura
Esperança
A nossa esperança é a virtude teologal, é a esperança no céu, é a confiança na misericórdia de Deus. A nossa esperança é infalível, porque tem as promessas e os merecimentos de Jesus Cristo a aboná-la. A nossa esperança é aquela que não faz bater o coração do incrédulo, porque a fé, no que se espera, é a essencial inspiração da esperança, é a sua irmã, fecundada pela mesma vontade omnipotente, e no mesmo instante da sua aparição; é, finalmente, o seu fundamento, como diz S. Paulo.
A esperança cristã não nos dá certeza absoluta da nossa santificação, da nossa perseverança no bem, e glorificação celeste, como querem os calvinistas; mas sugere-nos segura confiança na bondade de Deus, nos socorros da graça, e nos merecimentos de Jesus Cristo. Esta confiança, porém, não derroga a humildade que Deus nos impõe, nem nos permite adormecer no seio da nossa fraqueza, sem recear a queda, a que propende o espírito, por mais desligado que se julgue dos vínculos da terra.
A presunção e o desespero são dois excessos opostos à esperança.
Presumimos, quando tão arreigadas julgamos nossas virtudes, e tão fortes nos desvanecemos em conservá-las, que não mais receamos perder a graça, a felicidade eterna.
Desesperamos, quando alteamos a enormidade da culpa sobre a misericórdia divina, e nos julgamos demasiadamente quebradiços e frágeis, para que a graça nos sustente, em harmonia com os preceitos do Eterno.
Desesperar é um ultraje ao Infinito, que previra as fraquezas da criação, quando, por um acto de sabedoria imensa, permitiu que a alma infinita se revestisse da matéria, que se aniquila depois de enfraquecer-se nas gloriosas lutas do martírio, ou nas baixas sensualidades das paixões.
Desesperar é o extremo dos infortúnios, que repele o chamamento do juiz, que tantas vezes nos chama, quantos são os sobressaltos de desesperação que sentimos! O coração não adormeceria marasmado em seus vícios, se, entre a culpa e a misericórdia existisse uma barreira de perpétua separação?!
Diz a filosofia que o temor e a esperança são incompatíveis. Respondem os teólogos que a mais segura esperança não exclui o temor filial, que nos afasta da culpa, para que assim a mão invisível do anjo nos encaminhe por estrada desatravessada de empeços, que, às vezes, embaraçam o trânsito das mais robustas virtudes.
A base do Cristianismo são os merecimentos de Cristo: e o só nome deste Justo, selando as promessas do seu reino, prometendo-no-lo como conquista de seu sangue, vale mais, fala mais alto, que os escrúpulos detestáveis dalguns teólogos, que, sentados indignamente no tribunal dos perdões, de ali declaram cerradas as portas do céu para o penitente, que não sabe avaliar o grau de parentesco que têm os escrúpulos requintados com a rude ignorância.
«Deus – diz Santo Agostinho – constituiu-se nosso devedor, não por ter recebido alguma coisa de nós, mas prometendo-nos o que lhe aprouve.»
«Deus – diz S. Paulo – é fiel às suas promessas, e não permitirá que a tentação seja superior às vossas forças; mas fará que da mesma tentação tireis vantagens, para que possais perseverar.»
Recordemos a misericórdia do Senhor em todos os tempos, e com todos os pecadores.
Possuam-se de esperançosa consolação os que são arrastados no turbilhão dum século, em que as cidades são Nínives, e os homens não sentem a contrição dos Manassés; possuam-se das esperanças, que sentira Achab, e David, quando azedavam no travor das lágrimas aquela perversa doçura do crime, momentaneamente convertido em remorso.
O remorso é, a um tempo, voz do crime, e chamamento de Deus: é o bem que suspira e geme abafado pelo mal.
Jesus Cristo, em suas máximas, nos exemplos da sua vida, respira até à morte indulgência e misericórdia. O quadro, que ELE nos deixou, foi o da sua misericórdia, e não o da sua justiça. As parábolas da ovelha desgarrada, do filho pródigo, dos operários da vinha, e do publicano no templo, são lições de misericórdia. Zaqueu, a pecadora de Nahim, a mulher adúltera, S. Pedro, e os judeus, que o crucificaram, são sublimes exemplos de confiança.
Camilo Castelo Branco
Camilo Castelo Branco nasceu a 16 de Março de 1825, em Lisboa, faz hoje 185 anos. Ficou órfão de mãe aos dois anos e de pai aos nove. Aos 16 anos, casa-se em Friúme (Ribeira de Pena). Em 1844, instala-se no Porto com o intuito de cursar Medicina, mas não passa do 2.º ano. Em 1845, estreia-se na poesia e no ano seguinte no teatro e no jornalismo - actividade que nunca abandonará.
Viúvo desde 1847, fixa-se definitivamente no Porto a partir de 1848 (onde, em 1846, já estivera preso por ter raptado Patrícia Emília). De 1849 a 1851 consolida a sua actividade jornalística, retoma o teatro, estreia-se no romance com Anátema (1851).
Em 1853, abandona o curso de Teologia no Seminário Episcopal, funda vários jornais e em 1855 é o redactor principal de O Porto e de Carta.
A partir de 1881 agrava-se a doença dos olhos. Em 1889, por ocasião do seu aniversário, é objecto de calorosa homenagem de escritores, artistas e estudantes, promovida por João de Deus.
No ano seguinte, já cego, impossibilitado de escrever, suicida-se 1 de Junho.
As suas obras principais são: A Filha do Arcediago (1855); Onde está a Felicidade? (1856); Vingança (1858); O Romance dum Homem Rico (1861); Amor de Perdição (1862); Memórias do Cárcere (1862); O Bem e o Mal (1863); Vinte Horas de Liteira (1864); A Queda dum Anjo (1865); O Retrato de Ricardina (1868); A Mulher Fatal (1870); O Regicida (1874); Novelas do Minho (1875-1877); Eusébio Macário (1879); A Brasileira de Prazins (1882).
Além destes livros escreveu poesia, teatro, dezenas de traduções (do francês e do inglês), polémica, prefácios, biografia, história, crítica literária, jornalismo e epistolografia (compreendendo mais de duas mil cartas).
Camilo Castelo Branco
In Horas de Paz (1.º vol.)
© SNPC |
15.03.10

Camilo Castelo Branco



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