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Bíblia

«Vou mostrar-vos um caminho que ultrapassa todos os outros»

«Aspirai (…) aos melhores dons.
Aliás, vou mostrar-vos um caminho que ultrapassa todos os outros.
Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como um bronze que soa
ou um címbalo que retine.
Ainda que eu tenha o dom da profecia
e conheça todos os mistérios e toda a ciência,
ainda que eu tenha tão grande fé que transporte montanhas,
se não tiver amor, nada sou.
Ainda que eu distribua todos os meus bens
e entregue o meu corpo para ser queimado,
se não tiver amor, de nada me aproveita.
O amor é paciente,
o amor é prestável,
não é invejoso,
não é arrogante nem orgulhoso,
nada faz de inconveniente,
não procura o seu próprio interesse,
não se irrita nem guarda ressentimento.
Não se alegra com a injustiça,
mas rejubila com a verdade.
Tudo desculpa, tudo crê,
tudo espera, tudo suporta.
O amor jamais passará.
As profecias terão o seu fim,
o dom das línguas terminará
e a ciência vai ser inútil.
Pois o nosso conhecimento é imperfeito
e também imperfeita é a nossa profecia.
Mas, quando vier o que é perfeito,
o que é imperfeito desaparecerá.
Quando eu era criança,
falava como criança,
pensava como criança,
raciocinava como criança.
Mas, quando me tornei homem,
deixei o que era próprio de criança.
Agora, vemos como num espelho,
de maneira confusa;
depois, veremos face a face.
Agora, conheço de modo imperfeito;
depois, conhecerei como sou conhecido.
Agora permanecem estas três coisas:
a fé, a esperança e o amor;
mas a maior de todas é o amor.»
1.ª Carta aos Coríntios, 12,31 – 13,13
Leitura do 4.º Domingo do Tempo Comum

Para S. Paulo o mais precioso dos dons do Espírito Santo é o amor. É ele que dá valor a todos os outros.

Não é uma lição de moral que Paulo nos dispensa, mas a contemplação de um mistério que nos ultrapassa. Com efeito, antes de falar de nós, este texto fala de Deus e contempla o mistério do seu amor. De facto, cada vez que encontramos a palavra «amor» no texto poderíamos substitui-la pela palavra «Deus».

«O amor é paciente»; sim, Deus é paciente com a humanidade, connosco, ele para quem «mil anos são como um dia e um dia como mil anos», como diz Pedro (Segunda Carta de Pedro 3, 8).

Sim, «o amor é prestável», é suficiente ver Jesus lavar os pés dos seus discípulos (João 13).

Sim, ainda, o povo de Israel teve muitas ocasiões de experimentar que o amor (ou seja, Deus) «não guarda ressentimento»: ele que perdoou ao seu povo ao longo da história bíblica. Até ao dia em que, sobre o rosto de Cristo na cruz, pudemos ver a prova do amor infinito de Deus e ouvimos as palavras supremas do perdão: «Pai, perdoa-lhes, não sabem o que fazem».

Paulo faz o inventário do catálogo de possibilidades infinitas de superação que Deus nos oferece. Como se dissesse: «Eis o que o amor vos torna capazes de fazer».

Os quinze comportamentos que S. Paulo enumera, longe de serem utopias, são as realidades extraordinárias que a experiência nos faz descobrir. Realmente, e sabemo-lo bem, o amor, e só o amor, permite a quem ama, àqueles que se amam, atingir a plenitude da paciência, do esquecimento de si, da doçura, da transparência, da confiança total e da alegria profunda.

É o amor de Deus, ou seja, o amor dado por Deus que, só ele, pode fazer das nossas comunidades as testemunhas que o mundo espera.

Inversamente, podemos ler neste texto um bom catálogo de critérios para julgar os nossos comportamentos individuais e coletivos. Num tempo onde as palavras e os gestos de amor se multiplicaram, essa grelha de discernimento não é supérflua.

Paulo insiste que só o amor fará de nós adultos. «Quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá. Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Mas, quando me tornei homem, deixei o que era próprio de criança.» Podemos deduzir que todas as outras qualidades, a ciência, a generosidade, e mesmo a fé e a coragem, o dom das línguas ou da profecia, são apenas infantilidades quando comparadas com o amor, o único valor que conta.

Quando se pensa no relevo que os Coríntios davam à inteligência, ao nascimento, à condição social, compreendemos melhor a audácia de Paulo. Todos estes pseudo-valores, a que também nós damos tanta importância, não passam de lixo, como Paulo diz noutra passagem. Porque as maiores virtudes não são nada se não estão irrigadas pelo amor de Deus. Eis alguém que recoloca tudo no seu lugar.

Uma vez mais ouvimos ressoar as bem-aventuranças: só os pobres de coração sabem acolher as riquezas de Deus. Talvez nós não ousemos suficientemente contar com estas possibilidades infinitas do amor que estão à nossa disposição, desde que as peçamos. O Espírito é muito discreto e espera, talvez, que lhe peçamos ajuda.

 

Marie Nöelle Thabut
In Conferência Episcopal Francesa
© SNPC (trad.) | 03.02.13

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