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Descobrir Deus nas periferias: Quando o cristianismo “Indie” abraça o IndieLisboa

Uma coincidência nas origens, que se prolonga no tempo: o espírito “indie”, isto é, independente, que marca o IndieLisboa, é o mesmo que constituiu a impressão digital do cristianismo das origens. A multiplicidade de olhares “desalinhados” que caracterizam os filmes selecionados para o festival de cinema que arrancou esta sexta-feira, espelha-se no prémio Árvore da Vida, no valor de dois mil euros, que o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura atribui ao melhor filme presente na competição nacional.

A poucos minutos do início da primeira sessão que o júri presidido por Inês Gil se preparava para visionar, na sexta-feira, conversámos alguns momentos com os estreantes da equipa de jurados, Inês Espada Vieira, professora e investigadora de Estudos de Cultura da Universidade Católica, e o P. Vítor Gonçalves, responsável pastoral por uma das igrejas emblemáticas da baixa lisboeta, S. Domingos, e referente da Pastoral da Cultura do patriarcado.

Como cenário, o emblemático cinema S. Jorge, e, num “close-up”, a sala Manoel de Oliveira, cineasta que a Igreja em Portugal distinguiu com o Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes, através do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, voltados para a larga varanda que se abre para a Avenida da Liberdade.

 

O que esperam do IndieLisboa?

Inês Espada Vieira
Continuar o diálogo que a Igreja tem com o Cinema, e este com a Igreja, como acontece, aliás, com todas as artes. A Igreja é um dos seus interlocutores, mas também é, por vezes, a essência do diálogo. Estamos à espera de conhecer melhor os filmes, até que por vezes as sinopses enganam ou são redutoras, buscando apenas uma interpretação; e nós estaremos aqui, de olhos e coração abertos, para acolher aquela que é uma maneira de ver a atualidade.

P. Vítor Gonçalves
Acho muito interessante a ideia “Indie”, porque, de algum modo, o cristianismo também nasceu “Índie”. Esta arte espantosa que é o Cinema, e o colocar em imagens narrativas que tocam vários sentidos, é um desafio da encarnação de Cristo. Por isso, a experiência de estar disponível e aberto para detetar esses sinais da presença de Deus, possivelmente até em realizadores e temas que são independentes, que estão nas margens, nas periferias, é um desafio apaixonante.
Não se trata de “batizar” tudo, mas de reconhecer que o Espírito sopra, e Deus dá o Espírito sem medida. A experiência que nos foi proposta de sermos um olhar que possa, não tanto avaliar nem julgar – apesar de sermos júri –, mas reconhecer aquilo que de belo, bom e verdadeiro há no que vemos, é um desafio que nos faz sentir pequeninos, mas é um serviço, além de ser um gosto da nossa parte, apaixonados pelo Cinema. Em tempo pascal, pode ser uma experiência de descobrir que a independência com que o Espírito gosta de agir também se manifesta aqui.

Inês Espada Vieira
Temos também o privilégio de dar um prémio aos filmes portugueses, e isto é muito importante para a Igreja em Portugal: conhecer aquilo que outras pessoas, que por vezes estão nas periferias, ou até para além delas, pensam sobre o mundo em que vivemos. Isso ajuda-nos a interpretar e a agir melhor, percebendo outras maneiras de ver.

 

Que perspetivas pastorais podem ser suscitadas pela atribuição de um prémio no IndieLisboa?

P. Vítor Gonçalves
Creio que o próprio nome do prémio é revelador, “Árvore da Vida”. Se há uma árvore, há frutos, e sempre diferentes, não é uma monocasta. Neste sentido, mais do que procurar encontrar filmes que se encaixem naquilo que nós pensamos, naquilo que acreditamos, trata-se de encontrar as questões que nos fazem avançar, que nos fazem abrir, estarmos atentos, maravilhar-nos, e perceber o amor de Deus presente, acima de tudo, nas pessoas e em tudo que nos rodeia.
Por isso, para falar dos filmes gosto muito das parábolas de Jesus; o que eram as parábolas? Histórias relativamente simples que estimulavam a coisas grandiosas, sementes que morriam e davam fruto. Portanto, gostaria que em contexto de Igreja aquilo que pudesse ser transmitido – e não tem de ser só a referência de um prémio, é uma responsabilidade para quem o dá, mas ao mesmo tempo é um estímulo para a Igreja que pode ser interpelada por essa parábola, que, como dizia o biblista Carlos Mesters, é como uma urtiga – pica. Portanto, que nos pique.

Inês Espada Vieira
Nas conversas informais que vou tendo, apercebo-me de que estamos aqui como os bichos raros, esquisitos: «O quê, mas tu, a Igreja, estão aqui?». Acho que podemos ser aqui agentes da surpresa, do despertar, para que se perceba que existe uma Igreja que não está só fechada num edifício. Podemos ser esse rosto estranho que traz ao festival um olhar diferente, embora estejamos integrados.

P. Vítor Gonçalves> Trazemos e recebemos esse olhar. Lembro a experiência do fermento na massa – nós não somos apenas fermento, somos também massa. Esta troca de olhares, de perspetivas, de riquezas, de descobertas, de pôr em imagens não só mensagens muito marcadas, mas abrir para a dimensão da surpresa. Como cristão e como padre, acima de tudo o encanto é deixar-me surpreender. Não é ser o agente da surpresa, mas é deixar-me surpreender. E nessa surpresa, creio que Deus age e fala e gosta.


 

Rui Jorge Martins
Imagem: P. Vítor Gonçalves, Inês Espada Vieira, Inês Gil
Publicado em 20.05.2019

 

 

 
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