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Bíblia

Galileu e Saramago

O julgamento pela Inquisição de Galileu Galilei (um homem profundamente crente e até bem relacionado com a hierarquia da Igreja), no qual ele se viu obrigado a abjurar as ideias do monge Nicolau Copérnico, por elas contrariarem a Bíblia, é bem conhecido. Também é conhecido que o Papa João Paulo II “anulou” a condenação do sábio, admitindo um erro institucional. Mas é menos conhecido que as primeiras observações do céu feitas por Galileu com o telescópio foram logo confirmadas por jesuítas. Um dos maiores astrónomos da época, o jesuíta Cristoph Clavius, que estudou em Coimbra (e que foi grande admirador de Pedro Nunes), manifestou simpatia por Galileu, embora não tivesse chegado ao ponto de admitir o heliocentrismo. Abriu, há poucos dias, no Museu do Vaticano, uma grande exposição de astronomia, que evoca o nascimento da ciência moderna. Neste ano, em que celebramos Galileu, podemos olhar, como ele fez, para os satélites de Júpiter e pensar, como ele pensou, que, ao contrário do que transparece em certos passos da Bíblia, a Terra não é o centro do mundo.

Galileu, quando notou, numa carta à Grã-Duquesa Cristina de Lorena, que "a intenção do Espírito Santo é ensinar-nos como se vai para o céu e não como o céu vai", citava o cardeal Caeser Baronius, bibliotecário do Vaticano, que tinha assim resolvido o conflito entre religião e ciência. Contradições entre o texto da Bíblia e o conhecimento científico já tinham ocorrido antes, mas tinham sido ultrapassadas pelos religiosos mais esclarecidos. Por exemplo, certos trechos das Escrituras segundo os quais a Terra é plana levaram alguns padres antigos a rejeitar o conhecimento grego de que era esférica. Contudo, os cristãos mais cultos aceitaram a esfericidade do nosso planeta muito antes das viagens de circum-navegação. O físico Steven Weinberg ironizou: “Dante achou até que o interior da Terra redonda era um bom lugar para os pecadores.”

Há compatibilidade entre ciência e religião? Penso que sim. Mas, para que haja, como bem mostra o caso Galileu, tem de se abandonar a ideia de que a Bíblia é um livro de ciência. O seu conteúdo não resultou da aplicação do método científico e a apreensão religiosa desse conteúdo tem a ver com a fé e não com a razão. Trata-se de um livro em larga medida ficcional, escrito e reescrito por vários autores ao longo dos anos, que, obviamente, não pode ser levado à letra, como fizeram ontem os cardeais do Santo Ofício e fazem hoje os criacionistas evangélicos. Não é um livro de história, mas um livro de histórias, um livro que faz parte do património literário da humanidade, sendo apreciado mesmo por quem não tem fé.

A Bíblia, mais do que qualquer outro livro, tem sido fonte de todos os tipos de leituras e tresleituras. O escritor José Saramago acaba de dar um exemplo maior de tresleitura. Deixei, há muito, de me interessar pelo autor quando ouvi os seus dislates anti-científicos. Mas, agora, devido ao banzé que se instalou (há quem diga que é puro “marketing” para aumentar as vendas do último livro), não posso deixar de me pronunciar. Saramago falou sobre a Bíblia de uma maneira que, seja-se ou não crente, não é intelectualmente séria. Não foi apenas chamar-lhe “manual de maus costumes” e “catálogo de crueldades”. Foi também ter dito que o Génesis tinha “coisas idiotas”, exemplificando: “Antes, na criação do Universo, Deus não fez nada. Depois, decidiu criar o Universo, não se sabe porquê, nem para quê. Fê-lo em seis dias, apenas seis dias. Descansou ao sétimo. Até hoje! Nunca mais fez nada! Isto tem algum sentido?”. A pergunta é que não tem nenhum sentido! É o grau zero da crítica religiosa ou mesmo literária. O que não seria dito se alguém analisasse “O Memorial do Convento” desta maneira tão tosca? Tão errado é levar a Bíblia à letra, aceitando o que lá está, como levar a Bíblia à letra, recusando o que lá está. Francamente, não consigo distinguir entre a teologia básica dos que condenaram Galileu e esta anti-teologia igualmente primitiva de um escritor contemporâneo.

 

Carlos Fiolhais
Professor universitário
In Público, 23.10.2009
08.11.09

Foto
Planeta Júpiter e Io, um dos seus satélites, descoberto por Galileu
Foto: NASA

















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