Cinema
12 anos escravo
É surpreendente descobrir que a história em que este filme se baseia foi publicada pela primeira vez em 1853 por Solomon Northup, raptado em Washington (EUA) e transportado para a escravidão no Sul do país.
Northup passou 12 anos (1841-1852) como escravo, trabalhando em plantações de algodão, canaviais, como criado e em obras de engenharia. Parecia impossível que alguma vez viesse a ser libertado e voltasse a ver a mulher e os filhos. Através da intervenção de um canadiano que trabalhava no Sul, os amigos conseguiram a sua libertação.
A narrativa recorda - o que não acontece muitas vezes em cinema - os pressupostos racistas dos proprietários dos escravos, tratados não como seres humanos mas como posses, a humilhação por que passaram, bem como a privação da liberdade.
O filme, galardoado com os Óscares de Melhor Filme e Melhor Argumento Adaptado em 2014, começa com Solomon a trabalhar nos canaviais, regressando depois ao seu passado livre no Norte, na condição de cidadão de Saratoga, e a ser bem acolhido pela população da cidade, nomeadamente o dono da loja que no fim irá em seu auxílio.
Foto: D.R.
Solomon tem mulher e duas crianças. Aceitando o convite do dono de um circo para, durante três semanas, tocar violino, instrumento em que é virtuoso, acaba por ser drogado e preso, tratado brutalmente e enviado para Nova Orleães, onde é vendido.
O argumento tem frequentes regressos ao passado da vida de Solomon, realçando a sua angústia.
O primeiro proprietário, relativamente benigno, fica impressionado com as aptidões de Solomon, que entretanto passa a usar o nome de Platt, na melhoria do transporte de bens ao longo do rio. No entanto, envolve-se numa luta com um capataz, o que leva o dono a vendê-lo.
Foto: D.R.
O novo proprietário trata os escravos com brutalidade e violência, humilha Solomon e explora uma escrava, Patsy, que converte em amante, o que incendeia a raiva da mulher para com a jovem.
Ambos os donos das plantações são filmados a juntarem os escravos e a lerem-lhes a Bíblia, e um deles interpreta as Escrituras para reforçar a sua perspetiva quanto à posse de seres humanos.
Esta descrição não faz justiça às cenas de escravidão, aos efeitos que ela produz nos homens e mulheres, à opressão psicológica e à violência física que o filme mostra, por vezes implacavelmente.
Foto: D.R.
O realizador, Steve McQueen, começou a sua carreira como pintor, o que se torna evidente no estilo visual do filme. O cineasta recorre à câmara fixa na maior parte das sequências, deixando que a ação ocorra dentro do enquadramento. Por vezes movimenta a câmara, acompanhando a marcha dos personagens. O filme mostra longos planos, como pinturas, dando tempo aos espetadores para contemplar a cena.
O filme é abençoado por um forte elenco, liderado pelo ator de palco e cinema britânico Chiwitel Ejiofor. O proprietário mais bondoso, se se pode dizer assim, é interpretado por Benedict Cumberbatch, enquanto que o papel do dono sadista e tirânico é confiado a Michael Fassbender, protagonista de "Hunger" e "Shame" anteriores filmes de McQueen.
Foto: D.R.
O filme apresenta Lupita Nyong'o, cuja interpretação de Patsy lhe garantiu o Óscar para melhor atriz secundária.
Outros papéis menores, mas ainda assim significativos na trama dramática, são assumidos por Paul Giamatti, o leiloeiro de Nova Orleães, Paul Dano, o capataz, e Brad Pitt, que além de produzir o filme interpreta o trabalhador canadiano que toma a peito a causa de Solomon.
A dramatização da experiência dos escravos no sul dos EUA lembra ao público a escravatura que continua hoje em diversas partes do globo, mais de 160 anos após os acontecimentos narrados no livro.
12 anos escravo, 2013, 133', M/16.
Peter Malone
In Signis
Trad.: SNPC/rjm
© SNPC |
03.03.14

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