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"Ao lado dos pobres" reúne textos do "pai" da Teologia da Libertação e do prefeito da Doutrina da Fé: A voz de Gerhard Müller
"Ao lado dos pobres", lançado em fevereiro pela Paulinas Editora, reúne textos do precursor da Teologia da Libertação, o peruano Gustavo Gutiérrez, e do atual prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal alemão Gerhard Müller.
As frequentes deslocações do prelado germânico à América Latina permitiram-lhe «distinguir entre uma teologia da libertação equivocada e uma teologia da libertação correta», lê-se no resumo do volume.
«Como toda a "nova" teologia, também a Teologia da Libertação teve de dar contas, a si mesma e à Igreja, de quanto nela são reconhecíveis e atuantes os elementos essenciais da tradição cristã. A Teologia da Libertação ofereceu essa prova através das obras de Gutiérrez, nas quais o compromisso com os pobres se liga à profunda espiritualidade e mística católicas, no seu melhor sentido», escreve o padre Josef Sayer, na introdução à edição alemã
A Gutiérrez importa «a realidade vital dos pobres. Enquanto esta for, como sempre, má e deplorável – literalmente –, as preocupações da Teologia da Libertação conservam-se vivas», acrescenta o sacerdote germânico, que durante anos presidiu à "Misereor", organismo da Conferência Episcopal Alemã para a ajuda ao desenvolvimento.
Publicamos um excerto de um dos três textos assinados por Gerhard Müller, enquanto que noutro artigo (cf. Artigos relacionados) oferecemos um extrato de Gustavo Gutiérrez.
Experiência libertadora: estímulo para a teologia europeia
Gerhard Müller
Em minha opinião, o movimento eclesial e teológico que, depois do Concílio Vaticano II, na América Latina, sob o nome de «Teologia da Libertação», encontrou eco mundial, inclui-se entre as mais significativas correntes da teologia católica no século XX. (...)
No que diz respeito ao conceito, «Teologia da Libertação» remonta ao título de uma conferência que Gustavo Gutiérrez fez em 1968, no Norte do Peru, em Chimbote. Essa formulação serve também de título para o seu livro Teologia da Libertação, de 1971, com que a Teologia da Libertação se tornou mundialmente conhecida. Na décima edição, reelaborada, de 1992, encontra-se também uma abrangente introdução. Nela, ele esclarece determinados conceitos ambíguos, como, por exemplo, a opção preferencial pelos pobres, a luta de classes, a teoria da dependência, o pecado estrutural ou social. Ao mesmo tempo, neutraliza convincentemente as objeções de horizontalismo e de um imanentismo do Cristianismo, que jamais deve ser instrumentalizado para o programa ideológico de um suposto paraíso sobre a Terra, criado pelo ser humano. Diferentemente da teologia existencialista de proveniência europeia, a Teologia da Libertação pergunta – entre outras questões – o que é que Deus, a graça e a revelação abrangem no que diz respeito à compreensão de si dos cristãos inseridos num contexto de sociedade do bem-estar e socialmente garantida. A Teologia da Libertação compreende o trabalho teológico como participação transformadora e, portanto, prática, na abrangente ação libertadora inaugurada por Deus, mediante a qual o agir histórico do ser humano é capacitado e chamado ao serviço da libertação e da humanização do ser humano.
Deve salientar-se que a Teologia da Libertação não é um constructo teórico que surgiu de uma escrivaninha. Ela vê-se em continuidade com o desenvolvimento geral da teologia católica nos séculos XX e XXI. Tendo em vista as novas estruturas sociológicas que resultaram da mudança radical para a moderna sociedade industrial, para a globalização dos mercados e para a interação em rede de todos os sistemas de comunicação, deve-se aqui fazer referência ao ensinamento social dos Papas, a começar pela encíclica Rerum novarum, de Leão X, passando pela encíclica Populorum progressio, de Paulo VI, até João XXIII, que disse que a Igreja deveria colocar-se ao lado dos pobres. A isso se acrescentam os extensivos escritos doutrinais e as atividades do papa João Paulo II.
Uma fonte especial para a Teologia da Libertação é a Constituição pastoral do Concílio Vaticano II Gaudium et spes, sobre a Igreja no mundo de hoje. Na Constituição eclesial Lumen gentium, o Concílio já apresentara a Igreja não como uma comunidade religiosa separada do mundo e autossuficiente, mas como sacramento da salvação do mundo. Na medida em que a Igreja, como sinal e instrumento, age em prol da unidade de Deus com os seres humanos e destes entre si, ela mostra-se como serva da salvação que Deus historicamente, de modo único e definitivo, realizou em Jesus Cristo, e que Ele, no Espírito Santo, tornou princípio perene da história humana e da construção de uma sociedade dignamente humana. Assim, as grandes assembleias episcopais latino-americanas de Medellín (1968), Puebla (1979) e Santo Domingo (1992) compreenderam-se como uma implementação e concretização da tendência geral da teologia católica no século XX, no contexto social, cultural e espiritual do subcontinente latino-americano. Para isso, foi também fundamental a nova e abrangente compreensão da Igreja do Concílio Vaticano II, na América Latina. A divisão da Igreja num pequeno círculo de responsáveis, bispos, sacerdotes e religiosos que pertencem à classe branca da população, ou seja, que vieram como missionários estrangeiros, de um lado, e uma população autóctone, proveniente dos chamados Índios, descendentes de escravos e mestiços – mantida na passividade e na imaturidade, assistida apenas com a oferta de ritos religiosos –, de outro, divisão essa que remonta ao período colonial e ainda hoje se faz sentir, é completamente incompatível com o conceito de Igreja do Concílio.
De acordo com a indicação bíblica e a própria tradição teológica da eclesiologia, os leigos, homens e mulheres, bem como sacerdotes, catequistas e freiras estrangeiros e – em crescente número e importância – autóctones, todos eles se compreendem como portadores da missão comum da Igreja. Os milhares de comunidades de base são uma prova viva de uma identificação imediata do povo com a Igreja. A Igreja já não é Igreja apenas para o povo, nem tão-pouco apenas Igreja do povo, mas a Igreja é o Povo de Deus entre as nações, oriundo das nações da Terra, e ela é, portanto, o Povo de Deus para o mundo.
Os pobres e desclassificados, em razão de um profundo encontro interior com o Evangelho, compreendem-se na sua dignidade de pessoas diante de Deus, na medida em que colaboram ativamente na vida da comunidade eclesial, cumprindo, assim, a missão da Igreja como sacramento da salvação do mundo. Com isso, surge também uma nova compreensão da teologia. O teólogo profissional, como perito em religião, não se contrapõe aos fiéis ou aos não especialistas. Ele entende-se, tal como todos os discípulos, como ouvinte e aprendiz diante do único Mestre e Palavra de Deus, isto é, Cristo. Desse modo, ele penetra no contexto da experiência da fé e da religiosidade da vida do povo, ou seja, da comunidade daqueles que professam a fé em Jesus Cristo e ousam percorrer o caminho do seu seguimento na existência – para os outros. Participa dos seus sofrimentos e das suas esperanças. Desse modo, Teologia da Libertação, no melhor sentido da palavra, é teologia contextual, amadurecida a partir da comunidade. Assim também se supera a fissura entre uma teologia universitária erudita e uma reflexão da fé a partir das experiências concretas das comunidades. (...)
A Teologia da Libertação não é uma sociologia religiosamente guarnecida ou um tipo de socioteologia. Teologia da Libertação é teologia em sentido estrito.
O fundamento é a fé em Deus que criou o ser humano à sua imagem, e que, em seu Filho Jesus Cristo, se comprometeu com esse ser humano a ponto de Jesus ter assumindo a morte a que os seus adversários o condenaram. A meta é, em todas as dimensões da vida humana, dar a conhecer Deus como o Deus da vida e vencedor da morte. A Teologia da Libertação supera todos os dualismos que querem banir Deus para o Além e a salvação para uma interioridade. O ser humano encontra-se na tensão interior do ser interpelado por Deus na criação, na história da salvação, e da esperada plenitude, para além dos limites da morte individual e do fim geral da história. A fé cristã significa participar, compreendendo e agindo, do processo de transformação da história, o qual Deus, na ação salvífica de Jesus Cristo, revelou definitivamente como movimento em direção a Ele. Aqui não existe, em absoluto, a questão de um primado da ortopráxis sobre a ortodoxia. Quando se fala do primado da práxis, pretende-se nada menos do que uma redução do Cris tia nis mo a uma ética. Trata-se de uma participação na práxis de Deus no amor, que só pode ser reconhecido na fé na Palavra da autorrevelação de Deus. (...)
A Teologia da Libertação não estará morta enquanto as pessoas se deixaram instigar pelo agir libertador de Deus e fizerem da solidariedade para com os semelhantes sofredores, cuja dignidade é lançada à lama, a medida da sua fé e a força motora do seu agir social. Em resumo, significa crer em Deus como um Deus da vida e garante da salvação do ser humano, entendida holisticamente, e opor-se aos ídolos que significam morte prematura, pobreza, redução à miséria e degradação do ser humano.
Com frequência, Gutiérrez afasta o mal-entendido da Teologia da Libertação dos seus simpatizantes e dos seus opositores, segundo o qual, nela, estariam inseridos teólogos que se interessam de modo especial pela dimensão social e política da vida humana, e que tratariam, um pouco de forma amadora, áreas que lhes são estranhas, como a economia, a política e a sociologia, enquanto perdem de vista os temas próprios da teologia, a saber, a referência fundamental do ser humano a Deus. Em contrapartida, quem leva a sério o princípio da Teologia da Libertação não ficará surpreendido nem com o princípio estritamente teocêntrico e cristocêntrico nem com a conexão com a comunidade viva da Igreja.
Esta transcrição omite as notas de rodapé.
In Ao lado dos pobres - Teologia da Libertação, ed. Paulinas
© SNPC |
27.02.14

Ao lado dos pobres
A Teologia da Libertação
é uma Teologia da Igreja
Autor
Gustavo Gutiérrez
Gerhard Ludwig Müller
Editora
Paulinas
Ano
2014
Páginas
208
Preço
13,00 €
ISBN
978-989-673-362-9








