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"Ao lado dos pobres" reúne textos do "pai" da Teologia da Libertação e do prefeito da Doutrina da Fé: A voz de Gustavo Gutiérrez
"Ao lado dos pobres", lançado em fevereiro pela Paulinas Editora, reúne textos do precursor da Teologia da Libertação, o peruano Gustavo Gutiérrez, e do atual prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal alemão Gerhard Müller.
«A teologia é compreendida, por Gustavo Gutiérrez, como "momento segundo", precedido pela práxis de libertação. É o que mais tarde se denominaria «passo zero», "ato primeiro" ou "momento pré-teológico", que pressupõe o comprometimento ou «a experiência de Deus no pobre», por parte do teólogo, porquanto se trata de uma teologia que toma a práxis não como tema ou objeto, mas como lugar epistémico. Sem esta «síntese viva com a prática viva», o teólogo não reúne as condições epistemológicas adequadas para fazer Teologia da Libertação», explica Agenor Brighenti na introdução à edição brasileira.
No primeiro capítulo, intitulado "Teologia: uma tarefa eclesial", Gutiérrez reflete sobre os seguintes temas: "Anúncio do Evangelho e teologia", "A situação atual na América Latina" e "Anunciar o Evangelho hoje".
"Experiência libertadora: estímulo para a teologia europeia" é o título da segunda parte, assinada por Gerhard Müller, que apresenta a sua perspetiva sobre a "Nova compreensão da Teologia: reflexão teológica no serviço a Deus de uma práxis libertadora", a "Teologia da Libertação em tensão entre América Latina e Europa" e "Um novo «sentido do nós» na Igreja e o serviço à salvação dos outros".
A terceira secção, "Situação e tarefas da Teologia da Libertação", de Gustavo Gutiérrez, divide-se em "Três grandes desafios contemporâneos à fé", "Uma pobreza desumana e antievangélica" e "Tarefas atuais".
"A controvérsia em torno da Teologia da Libertação" é o tema que ocupa o quarto capítulo, em que o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé assinala "A necessidade de uma Teologia da Libertação", aponta "A nova abordagem teológica original da Teologia da Libertação" e reflete sobre a questão"Fazendo Teologia da Libertação", seguida de uma abordagem à "Legitimidade e limites de uma crítica à Teologia da Libertação".
O último texto de Gutiérrez, intitulado "Onde dormirão os pobres?", fala da "Teologia e anúncio do Evangelho", "Rumo a uma economia planetária" e "Anunciar o Reino", antes da conclusão, enquanto que "O futuro comum da Igreja: solidariedade em Cristo", de Gerhard Müller, é o tema que encerra o volume.
Publicamos um excerto de um dos três textos assinados por Gustavo Gutiérrez, enquanto que noutro artigo (cf. Artigos relacionados) oferecemos um extrato assinado pelo cardeal alemão.
Situação e tarefas da Teologia da Libertação
Gustavo Gutiérrez
Complexidade do mundo do pobre
Desde o início, na Teologia da Libertação, tiveram-se em consideração as diversas dimensões da pobreza. Dizendo-o com outras palavras – como o faz a Bíblia –, prestou-se atenção a não reduzir a pobreza ao seu aspeto económico, certamente fundamental. Isso levou à afirmação de que o pobre é o «insignificante», aquele que é considerado como uma «não pessoa», alguém a quem não se reconhece a plenitude dos seus direitos na condição de ser humano. Pessoas sem peso social ou individual, que contam pouco na sociedade e na Igreja. Assim são vistos, ou mais exatamente não são vistos, porque são bem mais invisíveis na medida em que são excluídos dos nossos dias. As razões disso são diversas: as carências de ordem económica, sem dúvida, mas tam bém a cor da pele, ser mulher, pertencer a uma cultura desprezada (ou considerada interessante somente pelo seu exotismo, o que equivale ao mesmo). A pobreza é, com efeito, um assunto complexo e multifacetado; há decénios, ao falar dos «direitos dos pobres» (cf., por exemplo, Medellín, n. 22), referíamo-nos a esse conjunto de dimensões da pobreza.
Uma segunda perspetiva, presente igualmente desde os primeiros passos, foi a de ver o pobre como «o outro» de uma sociedade que se constrói à margem ou contra os seus direitos mais elementares, alheia à sua vida e aos seus valores. De modo tal que a história lida a partir desse outro (da mulher, por exemplo) converte-se noutra história. Não obstante isso, reler a história poderia parecer um exercício puramente intelectual, se não se compreende que isso significa também refazê-la. De acordo com essa conceção, é firme a convicção, pesem embora todas as limitações e obstáculos que conhecemos, especialmente nos nossos dias, de que os pobres mesmos devem assumir o seu destino. Um homem e teólogo como Las Casas dispunha-se a ver as coisas «como se fosse índio». A esse respeito, retomar o movimento desses esforços no campo da história constitui um rico filão ainda por explorar. O primeiro a fazê-lo, e com conhecimento de causa, foi o índio peruano Guamán Poma. Somente libertando o nosso olhar de inércias, preconceitos, categorias aceites acriticamente, poderemos descobrir o outro.
Por isso mesmo, não basta ter consciência dessa complexidade; é necessário aprofundá-la, entrar no detalhe da diversidade e perceber a sua força interpeladora. Tão-pouco é suficiente observar a condição de outro do pobre (da forma como o temos compreendido); ela deve ser, igualmente, estudada mais detalhadamente e considerada em toda a sua desafiante realidade. Nós encontramo-nos nesse processo graças principalmente aos compromissos concretos assumidos no, e a partir do, mundo da pobreza, marcada maioritariamente entre nós – de um modo ou de outro – pela vivência da fé cristã, como já o demonstrámos. A reflexão teológica nutre-se dessa experiência quotidiana, que já vem de algumas décadas, e, simultaneamente, enriquece-a.
Essa inquietude foi aprofundada nos últimos anos. Trabalhos valiosos permitiram entrar, de modo particularmente fecundo, em alguns aspetos cruciais da complexidade mencionada. De facto, nessa pista encontram-se hoje diferentes esforços para pensar a fé a partir da situação secular de marginalização e de despojo dos diversos povos indígenas do nosso continente e da população negra, incorporada violentamente na nossa história, há séculos. De diversas maneiras, temos sido testemunhas, neste tempo, do vigor e da contundência que adquire a voz desses povos, da riqueza cultural e humana que são capazes de trazer, bem como das facetas da mensagem cristã que eles nos permitem ver com toda a clareza. A isso se acrescenta o diálogo com outras conceções religiosas, as que conseguiram sobreviver à destruição dos séculos anteriores, hoje minoritárias – não obstante, igualmente respeitáveis porque nelas se encontram comprometidos seres humanos –, mas que, sem pretender recriá-las artificialmente, estão presentes com o seu acervo cultural e religioso.
As reflexões teológicas que provêm desses universos são particularmente exigentes e novas. Como o são as oriundas da inumana e, por conseguinte, inaceitável condição da mulher na nossa sociedade, em especial a que pertence aos ex tratos sociais e étnicos que acabamos de lembrar; nesse terreno, assistimos igualmente a ricas e novas perspetivas teológicas levadas adiante sobretudo por mulheres, mas que nos importam e questionam a todos. Um dos campos mais fecundos é o da leitura bíblica, a partir da condição feminina, mas, definitivamente, há muitos outros que ampliam também o nosso horizonte de compreensão da fé cristã.
Ademais – pode ser útil observar –, não se trata da defesa de antigas culturas fixadas no tempo ou da proposta de projetos arcaicos que o devir histórico tenha superado, como alguns tendem a pensar. A cultura é criação permanente, elabora-se todos os dias. Observamos isso de muitas maneiras diferentes nas nossas cidades. Elas são um caldeirão de raças e culturas nos seus níveis mais populares; ao mesmo tempo, porém, são lugares cruéis de crescentes distâncias entre os vários setores sociais que as habitam. Ambas as coisas são vividas nas cidades de um continente em precipitada urbanização. Esse universo em processo, que em grande parte arrasta e transforma os valores de culturas tradicionais, condiciona a vivência da fé e o anúncio do Reino; é, em consequência, um ponto de partida histórico para uma reflexão de ordem teológica.
Apesar disso, a ênfase que o discurso sobre a fé assume legitimamente, segundo a vertente da «opção preferencial pelo pobre», não deve fazer perder de vista a globalidade do que está em causa na situação de todos os pobres. Nem descuidar o terreno comum de onde partem e no qual discorrem as nossas linguagens e reflexões: o dos insignificantes, o da sua libertação integral e o da Boa-Nova de Jesus dirigida preferentemente a todos eles. Efetivamente, é preciso evitar a todo o custo que a necessária e urgente atenção aos sofrimentos e esperanças dos pobres dê lugar a ineficazes buscas de feudos teológicos privados. Estes seriam fonte de exclusividades e de desconfianças que, em última instância, debilitam – dado que, quanto ao essencial, se trata de perspetivas convergentes e complementares – o combate quotidiano dos despossuídos em prol da vida, da justiça e do respeito pelos seus valores culturais e religiosos, e também em favor do seu direito a serem iguais e ao mesmo tempo diferentes.
A complexidade do universo do pobre e a perspetiva do outro, percebidas inicialmente, conforme recordámos, encontram-se hoje mais bem esboçadas com todas as suas dificuldades e a sua conflitualidade, mas também com todas as suas promessas. Não pretendemos colocar sob uma mesma rubrica todas as correntes teológicas que provêm dessa situação, pois a diversidade, neste assunto, é igualmente importante. Contudo, os laços históricos evidentes entre elas, bem como o horizonte comum do complexo mundo do pobre em que se colocam, permitem-nos vê-las como expressões fecundas das tarefas atuais da reflexão teológica, a partir dos deserdados do continente. Trata-se de fontes abertas, inexauríveis. (...)
Aprofundamento da espiritualidade
Em tempos recentes, temos tido uma abundante produção na linha de uma espiritualidade da libertação. A razão é simples: a experiência espiritual do povo pobre do continente, no meio de um processo histórico que conhece conquistas e tropeços, cresceu em maturidade. Esse interesse em relação à experiência não significa, de forma alguma, uma posição de recuo diante das opções de ordem social que mantemos em toda a sua vigência como expressão da solidariedade com os pobres e oprimidos. Os que opinam dessa forma parecem desconhecer a radicalidade que provém do ir ao fundo das coisas, lá onde se entrelaçam quotidianamente amor a Deus e o amor ao próximo. A essa profundidade situa-se a espiritualidade. Longe de ser uma evasão dos desafios do presente, ela dá firmeza e durabilidade às opções que acabamos de mencionar. Tinha razão Rilke, quando dizia que Deus se encontra nas nossas raízes. E jamais terminamos de aprofundá-las.
No próprio núcleo da opção preferencial pelo pobre há um elemento espiritual de experiência do amor gratuito de Deus. Rechaçar a injustiça e a opressão que ela implica exige uma fé ancorada no Deus da vida. Não surpreende, portanto, que essa opção tenha sido rubricada com o sangue daqueles que, como dizia D. Romero, morreram com o «sinal do martírio». Afora o caso do próprio arcebispo de São Salvador, essa é a situação padecida por numerosos cristãos num continente que se pretende cristão também. Não podemos deixar de lado esse cruel paradoxo numa reflexão sobre a espiritualidade da América Latina. Na verdade, de muitas maneiras a vivência da cruz marca a vida quotidiana dos cristãos do continente e do Peru.
Nesse sentido, é fundamental o itinerário espiritual de um povo que vive a sua fé e mantém a sua esperança no meio de uma vida quotidiana feita de pobreza e de exclusões, mas também de projetos e de maior consciência dos seus direitos. Os pobres da América Latina empreenderam a rota da afirmação da sua dignidade humana e da sua condição de filhas e filhos de Deus. Nesse caminhar, dá-se um encontro com o Senhor, crucificado e ressuscitado. Estar atento a essa experiência espiritual, recolher as versões orais e os escritos em que ela é narrada, converte-se numa tarefa primordial da reflexão teológica que se faz entre nós. Beber no meu próprio poço – assim denominávamos esse momento, usando uma expressão de Bernardo de Claraval. As suas águas permitem-nos ver a medida da inculturação da fé cristã nos povos pobres, mas possuidores de uma cultura e de um curso histórico diferentes dos que encontramos no mundo norte-atlântico.
O que acabamos de dizer é consequência de uma comprovação já mencionada: o povo latino-americano é, maioritariamente, pobre e crente ao mesmo tempo. No coração de uma situação que os exclui e maltrata, e da qual procuram libertar-se, os pobres creem no Deus da vida. Como diziam, em nome dos pobres do Peru (mais de um milhão dos quais se achava ali presente), os nossos amigos Vítor (entrementes falecido) e Irene Chero, a João Paulo II, durante a visita ao país (1985): «Com o coração dilacerado pela dor, vemos que as nossas esposas geram com tuberculose, as nossas crianças morrem, os nossos filhos crescem frágeis e sem futuro»; e acrescentavam: «No entanto, apesar de tudo isso, cremos no Deus da vida.» É um contexto, ou melhor, uma realidade vital, da qual uma reflexão sobre a fé não pode evitar-se. Ao contrário, deve nutrir-se dela. Continuamente.
Esta transcrição omite as notas de rodapé.
In Ao lado dos pobres - Teologia da Libertação, ed. Paulinas
© SNPC |
27.02.14

Ao lado dos pobres
A Teologia da Libertação
é uma Teologia da Igreja
Autor
Gustavo Gutiérrez
Gerhard Ludwig Müller
Editora
Paulinas
Ano
2014
Páginas
208
Preço
13,00 €
ISBN
978-989-673-362-9








