Caminhos para Deus (3): Descrença
Aqueles que percorrem o caminho da descrença não só pensam que a religião organizada não tem nenhum atrativo (mesmo que por vezes considerem que as suas celebrações e ritos são reconfortantes), como chegaram a uma conclusão intelectual de que Deus provavelmente não existe - ou que não existe, ou que não pode existir. Frequentemente procuram provas da existência de Deus, e ao não encontrá-las, ou ao depararem-se com o sofrimento intenso, rejeitam completamente a perspetiva crente.
O principal benefício deste grupo é que os seus membros não assumem nenhum dos poucos estimulantes confortos da religião. Em alguns casos pensaram mais profundamente sobre Deus e a religião do que alguns crentes. E entre as pessoas mais altruístas que existem no mundo estão ateus ou agnósticos. Alguns dos mais incansáveis trabalhadores na ajuda humanitária que eu encontrei quando trabalhava com refugiados na África Oriental eram não crentes. O "santo secular" é real.
Também são dotados de uma intuição especial para detetar respostas hipócritas, vazias ou preguiçosas. Diga a uma pessoa deste grupo que o sofrimento faz parte do misterioso plano de Deus, e que, por isso, precisa de ser aceite incondicionalmente, e ela desafiá-lo-á imediatamente a explicar-se. Um dos meus amigos praticava o seu ateísmo religiosamente: as suas perguntas mantiveram-me alerta e preparado para responder nos últimos 30 anos. Tente falar-lhe da «vontade de Deus», e ele responderá assertivamente com a noção de responsabilidade pessoal.
O principal perigo para este grupo é por vezes esperar que a presença de Deus seja explicada apenas de maneira intelectual. Quando algum acontecimento ocorre nas suas vidas e afeta as suas emoções, algo que os toca profundamente, rejeitam a possibilidade de que pode ser um sinal da ação de Deus. A sua inteligência pode tornar-se um muro que fecha os seus corações a experiências da presença de Deus. Eles podem também estar pouco dispostos a atribuir a Deus algo que a pessoa crente entende como um exemplo óbvio da presença divina.
É como a história do ateu que quando é apanhado numa enchente que ameaça a sua casa, vê a oportunidade de provar a existência de Deus: «Vou pedir ajuda a Deus, e se Ele existir, então salvar-me-á». Assim, quando ouve um aviso na rádio alertando os ouvintes para se deslocarem para locais mais altos, ele ignora-os. A seguir, um bombeiro bate à porta para o evacuar; «Se Deus existe, então vai salvar-me», responde ele. Quando as águas sobem, o homem vai para o segundo andar. Os tripulantes dos barcos da guarda costeira oferecem-lhe ajuda, mas ele volta a declinar.
Por fim, ele acaba no telhado da casa, com as águas à sua volta. Um helicóptero da polícia atira-lhe uma corda, mas ele recusa. De repente, uma onda gigante engole-o e ele afoga-se. Encontrando-se no paraíso, dá de caras com Deus, que o vem acolher. Ao princípio, o ateu surpreende-se; mas depois diz-lhe, furioso: «Porque é que não me salvaste?».
«Como assim?», pergunta Deus. «Mandei-te os bombeiros, a guarda costeira e a polícia, e tu nem mesmo assim quiseste ouvir-me!».
James Martin, SJ
Trad.: rjm
02.02.14
Ferdinand Hodler (det.)








