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Turismo, cultura, espiritualidade

Dormir em mosteiros (V): Santa Escolástica, Roriz

Às vezes, aparece gente no limite do stress e da fadiga. «Na nossa sociedade, não se permite que a pessoa pare. E tudo está montado para que não haja verdadeiro tempo livre, que sirva para parar e pensar.» Palavra de monja, dita em tempos de supressão de feriados e em que tudo à volta nos faz sentir que a vida se deve resumir a trabalhar e a preencher os parcos tempos livres com novas animações.

A irmã Maria do Carmo Tovar, superiora do Mosteiro de Santa Escolástica, em Roriz (Santo Tirso) acrescenta: «Há pessoas que andam à busca de qualquer coisa, por vezes têm um desejo de rezar mais ou menos incipiente». Podemos definir assim o objetivo da hospedaria deste mosteiro das Monjas Beneditinas da Rainha dos Apóstolos.

À volta, a quinta convida a essa verdadeira rutura que é ser capaz de dedicar tempo ao tempo. Situado num vale verde, de quintas e terras agrícolas, o mosteiro está rodeado de árvores de fruto. Plantações de vinha e milho, uma horta e um jardim (onde abundam as camélias, por exemplo) completam-se para dar ao ambiente uma sinfonia de cores que muda com as estações. No outono, a música atinge o seu esplendor, com a mescla das cores fortes dos vermelhos, amarelos e castanhos e as diversas tonalidades de verde. Para a contemplação, há também o terraço da hospedaria, onde se pode usufruir de um «silêncio especial» - aquele que vem da brisa, dos pássaros ou dos cães, da passagem de automóveis ao longe... Ou ainda a "casa do caseiro", mais retirada do mosteiro, ainda que mais próxima da aldeia.

Na oração, o gratuito volta a estar no centro: "É pela graça que fostes salvos, por meio da fé; não se deve às obras", diz o texto da carta de São Paulo aos Romanos (3,21-22) aos Coríntios (2 Cor 13,4), lido na oração de hora intermédia desta sexta-feira que o “Público” passa no mosteiro.

A oração marca o ritmo do dia: desde logo, com momentos para a prece particular (às 7h e às 18h); depois, com os tempos comunitários, centro da vida monástica: às 7h30, laudes (louvor da manhã) e missa; às 12h30, a hora intermédia; às 17h30, vésperas; às 18h30, oficio de leitura e, às 21h, completas. Às 9h também há lectio divina (oração de base bíblica). Normalmente é individual mas, em determinados tempos litúrgicos como o Natal ou a Páscoa, pode ser partilhada entre as irmãs e os hóspedes. Estes são convidados a participar em todos os tempos de oração que desejem - a capela está aberta a todos, pois as irmãs consideram que a sua oração é também oração da comunidade dos crentes.

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A paz em todas as portas

A presença monástica em Roriz não é de agora. O nome da localidade terá origem no topónimo germânico Rodericus. Essa raiz infere-se de um documento de 1096, onde se dá conta da fundação, atribuída a D. Toure Sarnão à roda de 1070, do "monasterio de rodoriz". Mas já no século IX - antes da fundação da nacionalidade -, ali teria havido um primeiro edifício monacal.

Do mosteiro do século XI sobrou a igreja românica que ainda se pode ver na aldeia. Em Santo Tirso - Imagem e Identidade, escreve Augusto Pilar que aquilo que atualmente se vê integra cinco fases de construção, entre o século XII e o século XIII.  Elementos escultóricos vegetalistas e geométricos na abside, da primeira etapa construtiva, e escultura figurativa já no final do século XIII, são alguns dos componentes mais interessantes. Duas figuras - uma masculina e outra feminina - simbolizarão Adão e Eva no imaginário popular, mas apresentam uma «clara “intenção de fertilidade”». E há ainda duas «preciosas imagens» - um São Lourenço em pedra anca, dos séculos XVI ou XVII, e um São Pedro em madeira estofada, setecentista.

O atual mosteiro é um projeto de Raul Lino, de 1937, tentando conjugar a tradição monástica e aquilo que era o entendimento da arquitetura portuguesa. Em 1939, as primeiras monjas (quatro portuguesas e uma francesa) passaram a residir ali, vindas de um mosteiro beneditino da Bélgica. Os locutórios estão à entrada mas, quando faz bom tempo, o jardim também é um excelente sítio para a conversa.

Quando se entra, uma escada larga dá acesso aos pisos superiores, onde estão os quartos das 24 monjas e da hospedaria. A remodelação recente incluiu a preocupação de criar condições para cuidar das monjas mais idosas. Em todas as portas, a legenda "pax", encimada por uma pomba e um ramo de oliveira estilizados, serve de saudação permanente - que se estende mesmo à louça utilizada. A beleza das pinturas de Cláudio Pastro, artista, arquiteto e teólogo marca os diferentes espaços. Os hóspedes podem passar também pelo claustro, sobretudo no inverno. No refeitório, uma Última Ceia em ferro forjado estilizado confirma a preocupação estética que se nota em todo o mosteiro.

Como em qualquer espaço beneditino, o lema é ora et labora, reza e trabalha. Na Regra de São Bento, lê-se: «São verdadeiros monges se vivem do trabalho de suas mãos.» Para cumprir com a sua vocação, as monjas do Mosteiro de Santa Escolástica fazem trabalhos de paramentaria econfecionam compotas e umas deliciosas bolachas de manteiga com a marca do mosteiro - nestes casos, com a colaboração de várias funcionárias (caixas de meio quilo custam 7,25€, as de quilo 13,30; sacos de meio quilo, que podem não incluir todas as variedades, ficam em 4,25€). Hóspede ou não, pode passar-se pelo mosteiro e comprar estas delícias. Mas a partir de novembro só por encomenda, que as mãos já não chegam para tantos pedidos.

Regressamos à capela, onde se prova outra doçura - abusando de Miguel Torga, uma doçura «que se não prova» mas «se transfigura/ Numa doçura/ Muito mais pura/ E muito mais nova», como escrevia em Confiança. Com vozes que parecem um sussurro, as monjas rezam o salmo 118: «Como poderá um jovem manter puro o seu caminho? Só guardando as tuas palavras. Eu procuro-te com todo o coração. Não deixes que me afaste dos teus mandamentos. (...) Alegro-me mais em seguir as tuas ordens do que em possuir qualquer riqueza».

A respiração comanda o ritmo da oração, o ritmo é pausado, brota um incipiente desejo. Por instantes, o mundo está em harmonia.

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O espaço

A pedra era um tesouro escondido. A hospedaria do Mosteiro de Santa Escolástica foi renovada há cerca de dois anos e a beleza do granito da região foi colocada à vista em vários espaços e paredes. Os vinte quartos (nove duplos no primeiro piso e onze individuais, assolados, no segundo), conjugam a sobriedade e a elegância, possibilitando uma estadia de absoluta tranquilidade.

Cada quarto tem o nome de um santo e um ícone como decoração e proposta de meditação. Todos os vãos disponíveis são aproveitados para pequenas secretárias ou roupeiros, deixando também grandes entradas de luz - o que acontece também em quase todas as casas de banho.

Espaços próprios para os hóspedes são também uma pequena capela, uma sala de reunião, uma sala de estar e um terraço. Daqui, quando está bom tempo, pode avistar-se o Gerês, o Sameiro ou a Penha de Guimarães. A capela tem meia dúzia de cadeiras e outros tantos pequenos bancos, que permitem ficar numa posição entre o ajoelhado e o sentado. E inclui ainda um ícone da Apresentação de Jesus, uma sóbria cruz, um pequeno baú como sacrário, uma Bíblia sobre o altar e uma via-sacra.

Na pequena mata colada ao mosteiro, está disponível ainda a "casa do caseiro", um pouco mais isolada. Nela pode ficar uma família até cinco pessoas. Uma cozinha equipada com micro-ondas e salamandra (os quartos têm aquecimento) permite uma estadia ainda mais autónoma.

 

Como chegar

Na autoestrada Porto-Braga, sair para Santo Tirso e seguir as indicações para Guimarães. A meio caminho entre Santo Tirso e Guimarães, virar à direita para Roriz.

 

O que fazer

É possível participar nas orações das monjas, passear pela cerca do mosteiro, ir para junto da "casa do caseiro" ou voltar à hospedaria e refugiar-se no terraço. Perto estão o também beneditino Mosteiro de Singeverga, o santuário de São Bento das Pêras (com festa a 11 de julho, o lugar permite uma espantosa vista sobre o vale do Vizela), ou o antigo mosteiro beneditino de Santo Tirso, que é monumento nacional. Em Roriz, pode ver-se a igreja românica que fez parte do antigo mosteiro e está classificada como monumento nacional. Em Santa Maria de Negrelos, a antiga igreja paroquial está classificada como imóvel de interesse público pela pintura a fresco do século XV, na capela-mor, representando a Assunção de Nossa Senhora. Em ano de Capital Europeia da Cultura, ou fora dele, Guimarães é outro destino próximo que merece a pena.

 

Preços e condições

A hospedaria de Santa Escolástica não estabelece preços de estadia. As despesas são comparticipadas com donativos. Normalmente, um homem sozinho é encaminhado para o vizinho Mosteiro de Singeverga. Do mesmo modo, a hospedaria aceita pessoas que busquem algo mais do que um poiso para passar a noite. Pode ser útil a recomendação de alguém já conhecido ou de um pároco, ou uma informação que permita saber o que pretende cada pessoa com a ida ao mosteiro.

 

António Marujo
In Público (Fugas), 1.9.2012
20.09.12

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Foto
Daniel Rocha/Público

 

Ligações e contactosMosteiro de Santa Escolástica: Rua do Mosteiro, 2 – 4795-311 Roriz, Santo Tirso. Telefone: 252 941 232; endereço eletrónico: monjas.beneditinas@clix.pt

 

 

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