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Entrevista

Tornar Jesus pertinente é uma imensa prioridade para a Igreja

Seguimento de Jesus, sofrimento, diálogo com a cultura, espiritualidade, atenção e silêncio são alguns dos temas abordados pelo padre José Tolentino Mendonça nesta quarta e última parte da entrevista concedida à Ecclesia.

 

O discipulado é muito marcado pelo desprendimento. Como enquadrar esta necessidade para seguir Jesus?

Há uma história que talvez ajude a responder. Um mestre vai ter a primeira lição com o discípulo, chama-o e convida-o para tomar chá. E diz ao discípulo que apresente a sua chávena para poder derramar chá. O mestre começa a deitá-lo mas não para quando a taça está cheia. O chá começa a derramar, e o discípulo, muito atrapalhado, grita: “Mestre, mestre, está a derramar”. E o mestre diz-lhe, calmamente: “É a primeira lição: se a tua taça não estiver vazia, não poderás acolher o que te vai ser ensinado”. O desprendimento não é um absoluto. Mas é um meio necessário porque cria disponibilidade. E nós só somos discípulos quando temos real capacidade de acolher na nossa vida a palavra que Jesus nos dirige. Por isso o “vem e segue-me” e o “deixa tudo” são condições indispensáveis para a construção do discipulado em nós.

 

Muitas vezes essa condição dá ao cristianismo a marca do sofrimento…

Quando o desprendimento é bem entendido, sem dúvida que é exigente. Mas é uma exigência dentro da ternura e da esperança. De facto o cristianismo tem um lado de luta e resistência. Tertuliano dizia: “Nós não nascemos cristãos; tornamo-nos cristãos”. Ser cristão não é um dado espontâneo da nossa natureza – é uma decisão. Implica uma vitalidade e até uma condição de combate. Por isso há um certo sofrimento no ser cristão, mas não é um sofrimento sem sentido e como um fim em si mesmo, mas uma etapa necessária de uma construção, de uma sementeira que está a acontecer em nós.

 

O padre Tolentino Mendonça escrevia que o cristianismo não é um ornamento, mas um fermento…

O grande perigo é reduzirmos o cristianismo a uma dimensão ornamental e puramente sociológica. Somos cristãos apenas por ser, porque recebemos isso do passado ou apenas porque a gramática cristã nos dá uma certa consolação. O cristianismo tem de ser muito mais do que isso. Tem de ser fermento, tem de ser vida, tem de ser uma decisão e um caminho. E nesse sentido os evangelhos constituem para nós uma sacudidela da nossa instalação e do nosso conformismo.

 

De que forma é possível colocar o evangelho no diálogo cultural?

É uma imensa prioridade de toda a Igreja tornar Jesus pertinente para as mulheres e os homens do nosso tempo. Porque o grande perigo é termos uma coisa extraordinária para anunciar, uma boa nova, mas ninguém nos querer ouvir. E nós próprios perdermos a capacidade de tornar o anúncio audível. É um esforço muito grande. Estes anos têm mostrado que a cultura é o novo templo, é o novo espaço da missão, é o novo lugar do anúncio. Ela é tudo aquilo que torna a vida humana decisiva, é o horizonte de felicidade que cada tempo procura. É aquilo que realmente faz mexer, que dá sentido ao dia a dia. E é aí que nós temos de colocar o fermento do evangelho.

 

Num diálogo permanente com os chamados “cristãos culturais”?

Tratam-se de pessoas que têm uma cultura cristã mas que são cristãos desativados, não praticantes. Contudo não deixam de ser cristãos. Há neles uma semente do evangelho que em algumas circunstâncias faz emergir a questão de Deus – num funeral, numa festa de família ou quando se é questionado pelo sentido da vida, em momentos chave da existência, nas suas etapas mais dramáticas. A Igreja tem de olhar para os cristãos não praticantes não como um peso mas como um desafio.

 

Para esses e para todas as pessoas há um “tesouro escondido” que é preciso descobrir. Chegamos a ele pela imagem tão sugestiva da batata e da cebola... (*)

Jesus, quando fala do “tesouro escondido”, refere-se a alguma coisa que está no coração do homem. Às vezes vivemos o drama da evangelização: a quem? Como? Onde? De que forma? É ao coração que temos de chegar. E no fundo o tesouro, ainda que escondido, já lá está.
Do que se trata é de fazer da fé uma proposta de encontro e reencontro consigo mesmo. Hoje o cristianismo precisa de redescobrir uma dimensão sapiencial. Ele tem de ser anunciado como alguma coisa que faz a diferença, que ajuda a viver. Não é apenas uma verdade que está por cima das nossas cabeças, uma ideologia que nos transcende, um dogma que vai para lá de nós. O cristianismo é praticável, no sentido em que nos ajuda nas pequenas e grandes decisões e nas hesitações do nosso viver. Por isso é preciso anunciar que em cada coração há o tesouro escondido.

 

Qual a importância de uma atitude tão cultivada por Jesus Cristo como é a atenção?

A atenção é capaz de perfurar as camadas da cebola. Todos nós temos muitos véus, muitas máscaras, muitas crostas. Jesus olha para o homem como uma batata, não como uma cebola. Para ele não há os equívocos das aparências. Ele sabe olhar para o que é vital e substancial, sabe olhar para o fruto e para o tesouro que cada um é. E isso é a atenção.
Nos evangelhos chega a ser comovedor: há uma grande multidão e ninguém repara em ninguém. Sabemos, pelas multidões de hoje, que ninguém se olha nos olhos, ninguém está a olhar para os dramas e alegrias que cada um vive. Na massa todos nós somos anónimos, muito sonolentos e sonâmbulos. Mas Jesus repara: repara na dor daquele pai, no sofrimento daquela mulher, ouve a voz daquele doente e do cego que a multidão manda calar. Jesus dá atenção ao humano. E essa atenção é alguma coisa que a Igreja, e nós cristãos, temos novamente de nos apropriar.

 

No quadro da recuperação da atenção no âmbito espiritual, que importância tem o silêncio?

O silêncio é a grande escola da atenção. É no silêncio que o nosso olhar se prepara para ir além das aparências, para romper aquilo que temos como evidente e que muitas vezes é um mero preconceito. O silêncio é a condição para a escuta, para ouvirmos profundamente o que se diz e o que não se diz, o presente e o ausente. O silêncio é uma escola que afina os nossos sentidos para a hospitalidade e para podermos acolher realmente o outro na sua situação. Por isso o silêncio a que somos chamados neste tempo quaresmal prepara-nos para sermos especialistas em humanidade e em encontro.

 

O Tempo Pascal é uma oportunidade para descobrir que tudo em nós passa pelo mistério pascal?

Gosto de pensar que a Quaresma é uma primavera. Estamos rodeados de natureza e vemos que tudo renasce, tudo brota, tudo rebenta. Não estamos condenados à cinza. Na Quarta-feira de Cinzas recebemo-las para as transformarmos em fogo, em labareda e vida nova. O fogo novo é aquele que no extremo da morte acendemos no sábado pascal, para que as portas da manhã de Páscoa possam abrir. É à luz do fogo pascal e da sua labareda que somos chamados a olhar para nós próprios e para o mundo, sentindo e acolhendo este desafio à primavera do Espírito e ao rejuvenescimento interior a que o Tempo Pascal nos convida.

 

Que ajuda dá o livro “O Tesouro Escondido” [da autoria de José Tolentino Mendonça] a quem deseja aproximar-se do mistério pascal, que é o essencial da mensagem cristã?

Escrevi este livro como uma ferramenta espiritual. Muitas vezes estamos sozinhos, com uma vida muito ocupada, sem grande tempo ou disponibilidade para fazer um retiro espiritual nas condições que a tradição cristã nos oferece e recomenda.
Esta obra constitui um subsídio para, na vida de todos os dias, vivermos um tempo de Deus, um tempo de reencontro conosco próprios, um tempo sapiencial.
O livro fala das grandes etapas e dilemas de uma existência adulta, e o seu cristianismo avançado ajuda-nos a sentir que Jesus nos reconstrói, cura e transforma depois dos nossos quebramentos, ruturas e derisões interiores.

 

Essa transformação opera-se através da beleza das imagens literárias e mediante a radicalidade que propõe...

O cristianismo é um instrumento de cura do humano, na sua inteireza e verdade. Não é um sufragâneo ou contrafação. Quando anunciamos o Cristo inteiro, sentimos que o evangelho é palavra que hoje nos renova e revitaliza. Nesse sentido não é um livro de autoajuda, não é um livro que apresenta um Jesus ao sabor das modas, mas procura, na simplicidade, partir da verdade do anúncio cristão.

 

* “O Tesouro Escondido” é o título do mais recente livro de José Tolentino Mendonça, onde o autor pergunta se o “mundo interior” das pessoas “é uma cebola ou uma batata”.

 

© Ecclesia | 19.04.11

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