
O livro religioso na feira
1.
Haverá sempre diferentes opiniões acerca da função cultural das feiras do livro. É óbvio, no entanto, que podem ser uma boa ocasião, embora desconfortável, para um contacto vivo com os livros.
Em Lisboa, não existe uma única livraria onde seja possível encontrar sinais da abundância, variedade e qualidade do livro religioso que, hoje, se publica em várias línguas. O catolicismo português do século XX produziu pouco e consumiu menos. É conhecida a grande decepção do dr. Alçada Baptista com o medíocre acolhimento da impressionante aventura da Moraes, nos anos 60. Era um catolicismo pietista, devocional, pouco preocupado com o questionamento e encarnação cultural da fé.
Por outro lado, o público português é muito reduzido e não temos, com o Brasil e com os países de língua oficial portuguesa, uma relação eficaz a nível do livro religioso de qualidade. Apesar disso, a partir dos anos 90 e começos do século XXI, surgiram sinais de mudança: várias editoras tiveram ou têm colecções atentas ao novo mercado espiritual. Já me referi várias vezes a esse fenómeno.
Hoje, quero destacar a colecção Teofanias, da Assírio & Alvim, dirigida por José Tolentino Mendonça. Com apenas três anos, já conta com alguns livris indispensáveis: Espera de Deus, de Simone Weil; Gramática do Assentimento, de J. H. Newman; Os Imperdoáveis, de Cristina Campo; A Nuvem do Não-Saber (anónimo do século XIV); Adquirir a Sua Alma na Paciência, de Kierkegaard; a Ética, de D. Bonhoeffer; e o mais recente Diário (1941-1943), de Etty Hillesum. Na mesma editora, Tolentino Mendonça reuniu, este ano, um conjunto de importantes ensaios com o título: A Leitura Infinita. Bíblia e Interpretação.
A colecção Crença e Razão, do Instituto Piaget, é, no campo religioso, a mais persistente e abundante. Desde 1993, já ultrapassou os 50 títulos dedicados a uma temática cada vez mais actual e solicitada. Os Manuscritos do Mar Morto, de André Paul; a Filosofia das Religiões, de Charles Taliaferro/Paul J. Griffiths; e A Lei de Deus. História Filosófica de uma Aliança, de Rémi Brague, são as últimas traduções.
Fr. Joaquim Carreira das Neves, um biblista muito apreciado, deu aos seus leitores, em dois volumes, uma obra de sucesso assegurado: A Bíblia – O Livro dos Livros (Editorial Franciscana).
2.
Um outro fenómeno que merece atenção – e que hoje não posso descrever – é o interesse de jovens historiadores pela investigação das relações Igreja-Estado, nomeadamente durante o Estado Novo. Esse interesse manifesta-se na relativa abundância de teses publicadas por várias editoras. Destaco a mais recente e notável, A Oposição Católica ao Estado Novo (1958-1974), de João Miguel Almeida (Edições Nelson de Matos, 2008). De carácter bem distinto – testemunhal – é Por Teu Livre Pensamento. Histórias de 25 ex-presos políticos portugueses, de Rui Daniel Galiza e João Pina, um primor gráfico da Assírio & Alvim.
O livro religioso de qualidade não se esgota nos géneros apontados. Antonino Mendonça acaba de publicar uma obra de ficção, Frei Bernardo (Multinova), que encarna uma bela eclesiologia narrativa, nos ziguezages de pós-Vaticano II. Laure Ferreira dos Santos continuou, de forma mais serena, o seu Diário de uma Mulher Católica a Caminho da Descrença II (Angelus Novus). Ana Vicente e Leonor Xavier, do Movimento Internacional Nós Somos Igreja, organizaram uma colaboração muito vasta e significativa para dizer, em Portugal, o que é Ser Igreja (Ariadne).
3.
Por último, vem uma obra indispensável para quem procure, com inteligência, Crer em Jesus Cristo. Viver como Cristão, do dominicano espanhol Felicísimo Martínez Díez (Gráfica de Coimbra, 2008). Desejo, antes de mais, felicitar a Editorial por se ter aventurado a publicar uma das mais recentes e inclusivas cristologias do século XX e começos do século XXI. Não assume apenas as últimas investigações sobre o Jesus da história e o Cristo da fé. Insere este Jesus – que Spinoza considerava património da humanidade e sumo filósofo – na nossa actualidade como fonte de vida a testemunhar e a celebrar. É uma cristologia que se encarna, para além das fronteiras religiosas, numa ética, numa espiritualidade e desabrocha na liturgia. Peço aos que virem este volume de 1042 páginas para não se assustarem. É uma obra apaixonante, a pensar e saborear lentamente e a qual será necessário voltar quando precisarmos, não de receitas, mas de aprofundar as questões centrais da fé cristã. Inscreve-se, sobretudo, numa escola cristológica, muito marcada por E. Schillebeeckx – sem exclusivismos – aberta ao contributo das experiências de novas gerações de todas as culturas. Não pretende dizer a última palavra, sabendo que uma teologia, na linha de Tomás de Aquino, só abre as portas ao silêncio contemplativo, percorrendo o caminho de todas as investigações, interrogações e interpelações inscritas no mundo actual.
Franz Kafka, ao ser interrogado sobre Jesus, inclinou-se e disse: “É um abismo de luz. É preciso fechar os olhos para não nos despenharmos”. E abri-los para caminhar.
Consulte os «sites» da Feira do Livro de Lisboa e do Porto.
Fr. Bento Domingues, O.P.
in Público, 01.06.2008
04.06.2008
Topo | Voltar | Enviar | Imprimir
![]()

