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Caminhos para Deus (4): Regresso

A cada ano este caminho fica mais preenchido. Tipicamente, as pessoas deste grupo começam a vida numa família religiosa mas distanciam-se da sua fé. Após uma infância em que foram encorajados (ou obrigados) a participar em celebrações litúrgicas, acabam por as considerar maçadoras, irrelevantes, ou ambas. A religião mantém-se distante, embora estranhamente apelativa.

É então que algo reacende a sua curiosidade por Deus. Talvez tenham alcançado algum sucesso financeiro ou profissional e perguntem: «É só isto?». Ou depois da morte de um familiar, começam a questionar-se mais sobre a sua própria mortalidade. Ou os seus filhos fazem perguntas sobre Deus, despertando questões que tinham ficado adormecidas durante anos. «Quem é Deus, mamã?»

E assim começa uma jornada experimental de regresso à fé, ainda que esta possa não ser a mesma que conheceram quando eram crianças. Talvez haja uma nova tradição que lhes fale mais claramente. Talvez voltem à sua religião original de uma forma diferente, e mais comprometida, do que quando eram novos. As pessoas deste grupo pensam muitas vezes que precisam de se reeducar para compreender a sua fé de uma forma mais amadurecida, ao contrário daquelas que percorrem o caminho da crença (cf. Artigos relacionados).

Quando eu era criança, costumava pensar em Deus como o Grande Solucionador dos Problemas, que resolveria todas as minhas dificuldades se eu rezasse o suficiente. Peço-te para ter um "5" no meu teste de matemática. Melhor ainda, peço-te para que amanhã caia neve. Se Deus fosse bom, pensava eu, haveria de responder às minhas preces. Por que motivo poderia Deus não responder a elas?

À medida que crescia, o modelo de Deus como o Grande Solucionador colapsou - em primeiro lugar porque Deus não parecia interessado em resolver todas as minhas dificuldades. Rezei, rezei, rezer, mas nenhum dos meus problemas ficou solucionado. «Porque não?», perguntei. Será que Deus não cuida de mim? O meu narcisismo adolescente suscitou-me sérias dúvidas, que me levaram a considerar que Deus não existia.

Este agnosticismo morno viria a ferver durante a universidade. Durante o meu ano de caloiro e nos seguintes, eu e os meus amigos trocámos muitos argumentos, madrugada fora, sobre religião (normalmente depois de demasiadas cervejas ou demasiada erva). Essas conversas levantaram dúvidas sobre o Deus a quem eu orava quando era mais novo. Mas na altura eram apenas dúvidas fortuitas e perguntas desligadas.

Os meus questionamentos dispersos juntaram-se quando o meu colega de quarto morreu num acidente de viação. O Brad era um dos meus amigos mais chegados e a sua morte foi quase insuportável.

No seu funeral, num húmido dia primaveril, sentei-me na igreja episcopal, rodeado pela despedaçada família de Brad e pelos meus amigos enlutados, e pensei no absurdo de acreditar num Deus que permitiria o que aconteceu. Quando a celebração terminou, decidi não crer num Deus que se permitia agir tão cruelmente. O Grande Solucionador dos Problemas não estava a resolvê-los, mas a criá-los.

O meu novo ateísmo foi revigorante. Não só me sentia alguém com uma inteligência de cinco estrelas, como estava orgulhoso de ter rejeitado algo que obviamente não funcionava. Porquê acreditar num Deus que não podia ou não queria evitar o sofrimento? O ateísmo não só era intelectualmente respeitável, como tinha algumas vantagens práticas: a partir de então as minhas manhãs de domingo ficaram livres.

E foi assim que enveredei decididamente no caminho da descrença.

Este percurso continuou alguns meses, até uma conversa com uma amiga comum de Brad. Jacque vinha de uma pequena cidade próxima de Chicago, e era o que os meus amigos ironicamente chamavam «fundamentalista»   , ainda que não tivéssemos mais do que uma ideia diminura sobre o que isso queria dizer. (Queria dizer que a sua fé enformou a sua vida.) Jacque tinha vivido no mesmo dormitório do Brad no meu primeiro ano da universidade.

Depois de uma aula, conversando do lado de fora do nosso antigo dormitório, envolvido pela neve, contei à Jacque o zangado que estava com Deus, e como tinha decidido que nunca mais iria à igreja. Os meus comentários foram como que um desafio para ela: «Tu que és a crente, explica lá isto».

«Bem», disse ela meigamente, «tenho dado graças a Deus pela vida do Brad.» Ainda hoje me recordo de estar de pé a conversar com ela, ao frio, e sentir que a minha respiração tinha sido levada pela resposta. Em vez de argumentar sobre o sofrimento, ela estava a dizer-me que havia diferentes tipos de relação com Deus, diferentes daqueles a que eu estava habituado quando olhava para Ele como o Grande Solucionador dos Problemas.

A resposta de Jacque empurrou-me para o caminho do regresso. Ela não tinha respondido à minha pergunta sobre o sofrimento. Em vez disso, as suas palavras lembraram-me que a questão do sofrimento (ou o «mistério do mal», como os teólogos dizem) não é a única pergunta a fazer sobre Deus. A sua resposta disse que é possível viver com a interrogação do sofrimento e continuar a acreditar em Deus - como uma criança pode confiar nos pais mesmo quando não compreende totalmente o que eles fazem ou dizem.

A resposta também me recordou que há outras questões igualmente importantes, como «Quem é Deus?». O não ser capaz de responder a uma pergunta não significa que outras não sejam igualmente válidas. As palavras de Jacque abriram uma janela para outra perspetiva da fé.

No entanto, eu continuava preso numa grande questão: se Deus não era o Grande Solucionador dos Problemas, o Deus da minha juventude, quem era Ele? Ou Ela? Ou Isso?

Só quando comecei a ouvir falar de um outro Deus - um Deus que está connosco no sofrimento, um Deus pessoalmente interessado na nossa vida, mesmo que não se sinta que todos os problemas foram resolvidos -, é que a minha vida começou a fazer mais sentido. Não estou a dizer que encontrei uma resposta inteiramente satisfatória para o mistério do sofrimento - ou para o facto de a vida do meu amigo ter terminado aos 21 anos. Mas ajudou-me a compreender a importância de estar em relação com Deus, mesmo nos tempos difíceis.

Quando eu era noviço, um dos meus diretores espirituais citou o filósofo escocês John Macmurray, que comparava a «religião real» com a «religião ilusória». A máxima da «religião ilusória» é esta: «Não temas; confia em Deus e Ele velará para que nenhuma das coisas que temes te aconteçam». A perspetiva da «religião real» é outra: «Não temas; as coisas que temes vão provavelmente acontecer-te, mas não há nada a recear».

 

James Martin, SJ
Trad.: SNPC/rjm
06.02.14

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