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«A morte digna não é a que encurta a vida»

Desde que assumiu a presidência do Conselho Pontifício para a Família, o arcebispo italiano Vincenzo Paglia tem apostado na recuperação, pela positiva, da defesa da família e da vida. Nesse sentido, defende que «a morte digna não é a que encurta a vida», e está convicto de que os Estados «promovem a eutanásia por cegueira cultural». Por isso, afirma que «a Igreja nunca dirá sim à eutanásia e ao suicídio assistido». Entrevista ao responsável, a três semanas da discussão e votação da eutanásia no parlamento português, prevista para 20 de fevereiro, depois de na legislatura passada a sua legalização ter sido chumbada por cinco votos.

 

Acaba de apresentar um congresso sobre cuidados paliativos, o que significa que o Vaticano considera que se trata de uma questão muito importante.

Sim, trata-se de um congresso sobre cuidados paliativos organizado pela Academia Pontifícia para a Vida, a Cimeira Mundial de Inovação para a Saúde (WISH), do Qatar, e de um conhecido periódico científico inglês, o British Medical Journal (BMJ). O tema dos cuidados paliativos é fundamental neste momento nas tarefas da Academia Pontifícia para a Vida.

 

O que se propõe com esta iniciativa?

Propomos favorecer o crescimento de uma sensibilidade, ou, melhor, de uma cultura do cuidado perante o perigo de uma cultura do descarte, que é o terreno fecundo para a eutanásia e para o suicídio assistido. Neste sentido, a perspetiva dos cuidados paliativos, que tem em conta não só o doente, mas também a sua família nos momentos finais da vida, é uma das perspetivas mais urgentes na sociedade contemporânea.

 

Porquê?

Porque está a aumentar o número de idosos, aumentam as doenças crónicas, aumenta, portanto, a esperança de vida. Se tudo isto desaparece num horizonte de solidão, torna-se algo terrível, um autêntico inferno.

 

Daí a importância dos cuidados paliativos.

Efetivamente. Daí a importância de promover os cuidados paliativos, para cuidar dos doentes a 360 graus, incluindo o aspeto espiritual, humano, social e familiar. Por isso acreditamos que esta perspetiva é uma opção de humanidade, para fazer que os últimos tempos da nossa vida terrena não sejam momentos de dor nem de abandono, mas tempos em que a dor possa ser, inclusivamente, derrotada, e, sobretudo, que o acompanhamento possa ser real e efetivo.

 

Quando a Igreja se pronuncia desta forma, alguns acusam-na de opor-se à morte digna.

A morte digna não é a que encurta a vida. A morte digna é deixar viver e acompanhar quem está a passar pelos últimos momentos da sua existência com a oração, apertando-lhe a mão, mostrando-lhe afeto, acariciando-o e sem o deixar só. Porque a dignidade é isto. A dignidade não é gozar de boa saúde, porque ninguém goza de uma saúde perfeita. Quando não nos dói o estômago, queixamo-nos dos dentes… Por isso, quando estamos doentes, nem por isso temos menos dignidade. A dignidade é estender a mão, sempre. Ou seja, não existe uma dignidade só individual. A dignidade é estar uns ao lado dos outros, querendo-nos bem, perdoando-nos, quando há problemas. A dignidade é a fraternidade humana.

 

O que diz aos que propõem que, chegado a determinado momento da vida, alguém, na sua plena consciência, pode decidir pôr fim à sua vida?

Direi que lamento que haja pessoas que se suicidem. Para mim, o suicídio é uma derrota da sociedade, porque o suicídio é sempre uma petição de amor não atendida, ou pode ser também uma resposta inapropriada à demanda de amor de outra pessoa. Temos de estar atentos, porque a quem decide tirar a sua vida podemos convencê-lo de que é importante para nós e para outras pessoas. E não é válido nem honrado dizer que «eu já não aguento mais».

 

Porque é que os Estados não veem isso?

Os Estados não podem fazer tudo.

 

Mas por que promovem a eutanásia?

A meu ver, por cegueira cultural. Estou absolutamente convencido de que o que se passa é que há o primado de um falso conceito de dignidade, de liberdade e de autonomia. Temos que trabalhar, portanto, para que todos possamos viver as relações autênticas, que são indispensáveis para uma vida em plenitude.

 

A Igreja nunca vai dizer sim à eutanásia?

A Igreja nunca dirá sim à eutanásia nem ao suicídio assistido. Porque nós dizemos sim ao amor. A Igreja não pode fazer o jogo sujo da morte. Que a morte o faça. Nós temos outro trabalho para fazer. É verdade que não podemos impedir que a morte faça o seu processo, mas acelerá-lo, não. Não podemos, porque estaríamos a atentar contra o humano, e também contra Deus. Neste sentido, temos de descobrir a beleza do estarmos juntos, a beleza de nos manteremos unidos. Desta forma, derrota-se o medo da solidão, do sofrimento, e, portanto, desse falso desejo de querer acabar com a vida.

 

Todavia, há cada vez mais pessoas sós, sobretudo nas grandes cidades.

Por isso digo que se trata de uma derrota da sociedade. E, por isso, digo também que deveríamos estar muito preocupados pela solidão que reina nas nossas cidades. E não se trata só de um problema dos governantes ou dos legisladores. É um problema de todos, incluindo a Igreja.

 

Em que sentido é um problema também da Igreja?

Porque pode acontecer que na Igreja haja uma vivência individualista do cristianismo, na qual cada um só pensa em salvar a sua alma. Isto não é Evangelho. Temos de nos salvar juntos, como povo. Aquele que pensa só em si mesmo não é cristão. Este vírus individualista, que está a infetar inclusivamente o cristianismo, é algo terrível. E, por isso, o papa Bento perguntava-se: «Como é possível que os cristãos pensem que se podem salvar sozinhos?». Esse é um exame de consciência que temos de fazer. Porque podemos estar a pensar que, com essa atitude, estamos a viver uma suposta espiritualidade, que, na realidade, não o é.

 

A família goza de boa saúde?

Em todas os inquéritos dos últimos anos constata-se isto: a família (pai, mãe, filhos) é a realidade que mais sustenta a sociedade. Se a sociedade se debilitou, é porque também se debilitaram os vínculos familiares. A meu ver, faz falta uma reflexão teológico-espiritual sobre a família, entendida em todas as suas articulações e vínculos. Muitas vezes dedicámo-nos só a refletir sobre o homem e a mulher, o marido e a esposa. E sobre este tema escrevemos rios de tinta. Em contrapartida, escreveu-se pouco sobre a fraternidade, sobre a irmandade, sobre a relação com os idosos ou com os familiares. Ou sobre a tarefa social da família, para criar uma sociedade mais familiar. Este é um dos maiores desafios que tem diante de si o novo Instituto para a Família João Paulo II.

 

Terminaram-se os problemas no Instituto para a Família João Paulo II?

Terminaram-se alguns problemas que, a meu ver, eram pretensiosos. Agora, começa para o Instituto o grande desafio de como promover uma cultura ampla da família em relação com a Igreja e com a sociedade. Neste contexto, são importantes algumas novas indicações, que se correspondem com algumas novas matérias curriculares.

 

Qual é o objetivo final das mudanças no Instituto para a Família?

Demo-nos conta de que é muito importante dar fundamento teológico aos afetos. Daí, a teologia fundamental dos afetos. E não só os afetos morais. Compreendemos a necessidade de um vínculo mais estreito entre Igreja e família, que não podem estar separadas, a importância da transmissão da fé e das tradições através da família, a importância de conhecer as diversas tradições jurídicas. Estamos, portanto, ante uma nova componente jurídica das diversas tradições sobre a família. Descobrimos, por exemplo, a importância de tratar o tema da política e da economia em relação com a família. Descobrimos a importância da dimensão histórica dos afetos, e não só encerrar o amor na restringida perspetiva romântica, que, muitas vezes, é só sentimental e emotiva, e não histórica e construtora de relações.


 

José Manuel Vidal
In Religión Digital
Trad.: Rui Jorge Martins:
Imagem: Chinnapong/Bigstock.com
Publicado em 09.02.2020 | Atualizado em 17.02.2020

 

 
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