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"A grande recusa": Bento XVI renunciou ao pontificado há dois anos

No dia em que se completam dois anos da resignação de Bento XVI ao pontificado (anunciada a 11 de fevereiro de 2013 e consumada no dia 28 desse mês), recordamos o prólogo da obra "A grande recusa" (ed. Paulinas), de Roberto Rusconi.

A renúncia do agora papa emérito «marca uma reviravolta na história da Igreja. Suscitou aplausos mas também perplexidades. (...) Esta obra analisa as movimentações políticas e eclesiásticas que conduziram às renúncias na cátedra de Pedro, desde as primeiras décadas do Cristianismo até Bento XVI.»

 

"A grande recusa": prólogo

A 11 de fevereiro de 2013, o mundo católico preparava-se para celebrar a festa litúrgica da Bem-aventurada Virgem Maria de Lurdes, no aniversário da sua aparição de 1858 a Bernadette Soubirous. Este ano, coincidia ainda com o XXI Dia Mundial do Doente. Ao mesmo tempo, no Vaticano, reunia-se o consistório convocado para proclamar oficialmente a santidade dos oitocentos habitantes de Otranto, massacrados pelos turcos muçulmanos em 1480, e, por conseguinte, considerados mártires. Três ocasiões que, por si só, eram mais do que suficientes para carregar esse dia de símbolos.

No entanto, perante uma assembleia de cardeais atónitos, pois eram certamente muito poucos os que tinham conhecimento do anúncio que estava prestes a ser feito, no fim do consistório, Bento XVI, o antigo cardeal Joseph Ratzinger, comunicava a sua decisão de renunciar ao Papado.

«Depois de ter examinado repetidamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idóneas para exercer adequadamente o ministério petrino. Estou bem consciente de que este ministério, pela sua essência espiritual, deve ser cumprido não só com as obras e com as palavras, mas também e igualmente sofrendo e rezando. Todavia, no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado.»

FotoPrimeira aparição pública de Bento XVI depois da eleição, 19.4.2005, Vaticano

Nessa mesma noite, uma tempestade abate-se sobre a capital da catolicidade. Imortalizado por um fotógrafo e captado num vídeo, um raio atinge a cúpula de São Pedro, quase como se quisesse tornar imediatamente visível o choque sofrido.

A decisão do Papa de renunciar a governar a Igreja não é uma novidade, sendo precisamente a esse tema que se dedicam as páginas deste livro. Com efeito, trata-se de um acontecimento que se verificou várias vezes ao longo da história. Nos primeiros séculos, por exemplo, as renúncias foram muitas e repetidas vezes forçadas, no contexto das perseguições imperiais sofridas pelas comunidades cristãs: nalguns casos tratou-se de renúncias explícitas, noutros, afastamentos de facto. E mesmo depois de o Cristianismo se ter tornado a religião oficial do Império Romano, alguns imperadores de Bizâncio não se eximiram de exilar ou de perseguir diversos Papas.

FotoBento XVI com José Ramos-Horta, antigo presidente de Timor Leste, Vaticano, janeiro 2008 (Getty Images News)

Em plena Idade Média, o feudalismo romano assumiu o controlo do pontificado romano, sendo esse um período sombrio de servilismo, marcado por vários delitos. Quando, nos séculos centrais dessa época, em particular entre o século XI e o século XII, se desencadeou a luta pela libertas ecclesiae – pela independência da Igreja em relação ao poder imperial e, portanto, entre os ambientes reformadores monásticos, por um lado, e o feudalismo e o Império germânico, por outro –, a contraposição entre diversos pontífices que se consideravam igualmente legítimos levou a renúncias e a deposições recíprocas. Nesse período conturbado, de papas e antipapas, o único pontífice indiscutivelmente legítimo a renunciar voluntariamente ao Papado foi Celestino V, o idoso eremita Pedro de Morrone, que ocupou a cátedra de Pedro apenas por alguns meses, em 1294, sendo depois prudentemente encarcerado pelo seu sucessor até à morte, ocorrida dois anos mais tarde.

FotoAngola, março 2009

Um século e pouco mais tarde, durante o cisma eclesiástico e a crise conciliar, que se arrastaria até meados do século XV, verificaram-se outras renúncias ao pontificado, na verdade não completamente espontâneas. Iniciava-se entretanto uma época de consolidação do poder papal no interior dos seus Estados, no centro de Itália: a partir desse momento, como veremos, uma abdicação do Soberano Pontífice passaria a ser inverosímil e praticamente impensável. Uma forte cisão histórica verificou-se, porém, no dealbar da Revolução Francesa, em finais do século XVIII: a Igreja católica foi privada, à força, do poder temporal dos Papas, com um processo irreversível que terminou com a tomada de Roma por parte das tropas do Reino de Itália, a 20 de setembro de 1870. Boatos de uma possível renúncia ao Papado por motivos diversos começaram a circular, por fim, em meados do século passado, na época de Pio XII e, mais tarde, de Paulo VI e de João Paulo II, sem contudo corresponderem a algum gesto concreto por parte do pontífice reinante.

Foto

Shimon Peres, Presidente de Israel, e Bento XVI, que planta uma oliveira. Israel, maio 2009 (EPA)

Há que sublinhar que o ato de renúncia é previsto pela normativa eclesiástica. A última intervenção nessa matéria remonta ao pontificado de Wojtyla, que, em 1983, mandou promulgar um novo Código de Direito Canónico, atualizando, duas décadas após a conclusão do Concílio Vaticano II, em 1965, a precedente recompilação de normas da Igreja católica, datada de 1917. Na secção dedicada ao «Povo de Deus», a segunda parte ocupa-se da constituição hierárquica da Igreja, a começar pela sua autoridade suprema, o Pontífice Romano. Desde os primeiros cânones contempla-se a hipótese de o Papa reinante se poder demitir por sua livre vontade:

«Se acontecer que o Romano Pontífice renuncie ao cargo, para a validade requer-se que a renúncia seja feita livremente, e devidamente manifestada, mas não que seja aceite por alguém.» (can. 332 § 2)

Foto

Vaticano, dezembro 2009

Os juristas – é oportuno destacá-lo –, sublinham que se deve tratar de uma renúncia (ou de uma demissão), e não de abdicação. No segundo caso, com efeito, designa-se um sucessor, como acontece nas monarquias constitucionais; no primeiro, pelo contrário, deve proceder-se a uma nova eleição.

Embora a renúncia de um pontífice à cátedra de Pedro não seja um facto único na história da Igreja, é um facto unicum para a nossa época, a ponto de a notícia da renúncia de Bento XVI ter dado instantaneamente a volta ao Planeta.

FotoLisboa, maio 2010 (M. Mazur)

No dia seguinte, os sítios online das agências e jornais, e os diários, registaram e amplificaram o espanto geral frente à sua decisão e anúncio, sublinhando na primeira página, com títulos de nove colunas, o caráter assombroso do acontecimento: «O Papa renuncia, adeus histórico» (como em La Repubblica). Fotografias fortemente alusivas ocupam o centro da notícia. Desta vez não são só os jornais italianos – que desde sempre têm dado demasiado espaço às vicissitudes eclesiásticas – a dedicar espaço ao acontecimento e a sublinhar a sua importância (de facto, tais vicissitudes pesam grandemente sobre a sociedade e a política italianas, a ponto de ter sido inventada a especialização profissional do «vaticanista»). Com efeito, basta percorrer os cabeçalhos de todo o mundo para ter uma ideia do impacto da decisão papal e dos matizes das atitudes com que a mesma foi acolhida.

FotoLisboa, maio 2010

O raio caído sobre a cúpula de São Pedro ocupa toda a primeira página de El espectador de Bogotá, na Colômbia, e também aparece na de The Guardian, em Londres, que comenta, com uma certa ironia: Bolt from the blue (aludindo ao proverbial relâmpago em céu sereno). Decididamente irreverentes, se não até zombadores, são Libération, de Paris, e Die Tageszeitung, de Berlim: no diário alemão, numa primeira página quase completamente em branco, não se vê uma fotografia do pontífice, do qual restam apenas os mocassins vermelhos.

FotoFátima, maio 2010

Nos dias seguintes, em muitos cabeçalhos, a sátira tornar-se-á ainda mais pungente. Nos Estados Unidos, o influente The New York Times, pelo seu lado, sublinha que a demissão do Papa coloca a Igreja at crossroads («numa encruzilhada»), intitulando o artigo principal: A Turbulent Tenure for a Quiet Scholar («Um mandato turbulento para um estudioso tranquilo»), referindo-se a uma situação de perturbação em curso no interior da Igreja católica, a que também se refere The Independent, de Londres, usando o termo turmoil («tumulto») e chegando a uma conclusão precisa: New Leader Wanted («Procura-se novo líder»). Na Alemanha, o autorizado Die Welt sublinha o «cansaço» de Bento XVI, transformando, com este termo, uma constatação de facto numa alusão ambígua a uma cedência tanto psicológica como física. Na primeira página do The Daily Telegraph, de Londres, uma fotografia francamente impiedosa põe o dedo na ferida da «fragilidade» do Papa. Também El País, de Madrid, põe em destaque a sua falta de «forças», embora o nosso olhar não possa deixar de cair sobre o comentário subjacente, em que se afirma claramente que a «retirada» do Papa reabre a luta pelo poder no Vaticano. Ainda em Madrid, o diário conservador El Mundo sublinha que com o gesto de Bento XVI se interrompe a tradição do Papa que morre «na cruz»: a expressão está entre aspas, enquanto, no subtítulo, ainda entre vírgulas, se reproduz a forte crítica feita pelo cardeal de Cracóvia, antigo secretário de João Paulo II, que afirmara, no ardor do momento, que «não se desce da cruz». O canadiano The National Post, The International Herald Tribune e, sobretudo, a imprensa anglo-saxónica, mas não só, detêm-se de repente sobre o problema concreto da sucessão papal. E assim poderíamos prosseguir durante páginas a fio.

FotoFátima, maio 2010 (M. Mazur)

Na maioria destes diários, depois de ultrapassarmos os títulos mais expressivos, os comentários nos vários artigos apresentam-se muito mais fundamentados, reflexo de um vasto espectro de atitudes, que posteriormente se irá diferenciando e matizando nos dias seguintes, quando, aliás, também as outras notícias forem reconquistando o seu espaço e os acontecimentos associados ao vértice da Igreja católica passarem a ser alvo de menor atenção. Desde o primeiro dia adensam-se nas suas páginas declarações e avaliações de prelados, muitas vezes subtil e vagamente alusivas, de modo particular quando se trata de personagens associados a uma possível candidatura à sucessão. De qualquer modo, de momento parece prevalecer um assombro declarado por parte de todos os interessados.

Foto

Muito mais emotivas são sem dúvida as reações dos fiéis individuais, a ponto de nos levar a refletir sobre a imagem pessoal do Papa e sobre a representação do Papado que foi colocada perante os seus olhos, sobretudo durante os quase trinta anos de  ontificado
de João Paulo II, e que foi por eles interiorizada, como manifestaria um simples fiel: «Fiquei pessoalmente surpreendido pelo facto de o vigário de Cristo não se ter abandonado à divina Providência e aos desígnios imperscrutáveis de Deus, visto que este é sempre invocado em todas as situações, inclusive nas mais insolúveis. Que o homem ceda, faz parte da sua natureza; que ceda o representante de Deus na Terra, inclusive como católico que sou, isso sim, surpreende-me e levanta-me muitos problemas.»

FotoMéxico, março 2012 (Reuters Pictures)

Para tocar de perto o desconcerto geral, basta ter tempo para percorrer alguns blogues ou limitar-se aos ecos registados nas páginas dos jornais, sob o título: «Que arrepio entre os devotos em oração pelo Papa que já não é Papa.» Entre os inúmeros testemunhos destaca-se a declaração de um simples pároco: «As pessoas acorriam à igreja desorientadas, atordoadas. Tive de explicar, de falar com todas, uma por uma.» O popular diretor da Rádio Maria, padre Livio Fanzaga, sintetizava de modo eficaz, porquanto impregnado de retórica eclesiástica: «As ovelhas têm a sensação de ter perdido o seu pastor», e os fiéis, encontrando-se perante «uma novidade absoluta, estão muito abalados».

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A professora de Religião de uma escola primária de Roma, impressionada com os rostos inquisitivos das crianças, convidou-os, com muita inteligência, a escrever uma carta dirigida ao Papa, sobre o tema: «Porque fizeste isso?» Também as crianças se sentiam desorientadas. Eis o que escreveu uma menina: «Querido Papa, gostava de te dizer que não te deves preocupar: eu estou do teu lado. Sei que estás triste pela tua escolha e que não a fizeste de ânimo leve. Não sei se fizeste bem ou mal, mas não te tortures interiormente. Contudo, se puderes explicar-me, gostava de saber porque é que o fizeste.» Outra menina, pelo contrário, procura refúgio nas seguranças de sempre: «Querido Bento XVI, para mim não fizeste bem. Devias continuar a ser Papa, sem nunca te renderes.» O afeto infantil pelo idoso pontífice não consegue, por outro lado, dissipar os temores: «Querido Papa, sei que te demitiste por problemas de saúde e que nos deixaste a todos. Eu sei que isso te desagrada, mas diz-me cá, que pensas que será da Igreja? Será que a vão fechar? Responde-me, por favor.»

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No futuro imediato, porém, prevalece um sentimento de quase admiração por uma renúncia tão humana. O sublinhar da hu mildade manifestada pelo pontífice e a constatação da sua fragilidade pessoal não nos permitem ignorar o seu gesto.

No espaço de um dia, as emoções são substituídas pelas análises, que se vão acumulando nos dias seguintes, na tentativa de procurar uma explicação para tudo o que sucedeu, de compreender de que modo – e em que momento, como veremos – Bento XVI terá tomado uma decisão, sem dúvida de rutura, e de começar a pesar as suas consequências. Surgem também críticas explícitas, que remetem para as tensões em curso no topo da Igreja. Algumas são envoltas num léxico alusivo: «Ninguém se pode demitir de ser pai só porque os filhos não lhe obedecem», outras são extremamente explícitas: «Como tinha medo de mudar três homens, demitiu-se ele.» O ministro Andrea Riccardi, que tem o privilégio de conhecer pessoalmente Bento XVI, comentou: «Deparou com dificuldades e resistências maiores do que julgamos. E já não teve força para se lhes opor e para carregar com o peso do seu ministério. Devemos interrogar-nos porquê.»

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Será sobretudo necessário interrogarmo-nos sobre que cenários reais se terão aberto com o gesto revolucionário do pontífice. E, ao mesmo tempo, é indispensável sublinhar o realismo com que Joseph Ratzinger teve consciência dos perigosos aspetos de um governo da Igreja católica fora do controlo de um Papa já idoso, a quem a idade e a doença fazem falhar as forças necessárias para governar a poderosa burocracia da Cúria romana.

Com efeito, no seu olhar, e no de todos nós, ainda está gravada a experiência recente dos últimos anos do pontificado de João Paulo II, quando a sua doença já não estava oculta e não lhe permitia certamente conduzir com mão firme o leme da Igreja. Acontecera o mesmo meio século antes, quando chegava ao seu termo o pontificado de Pio XII. Retrocedendo um pouco mais, isso também se tinha verificado de forma aparatosa no início do século XX, na época de Leão XII, e ainda antes, já perto da conclusão do pontificado de mais de trinta anos de Pio IX.

Foto REUTERS/Max Rossi

Não foi certamente profeta Nanni Moretti, quando, em 2011, realizou o filme Habemus papam, apresentado a concurso no festival cinematográfico de Cannes. Então as reações oficiais, desde os organismos da Conferência Episcopal Italiana no seu diário Avvenire e no semanário dos Paulistas, Famiglia Cristiana, não se mostram completamente desfavoráveis, mas essencialmente cautelosas e desconfiadas. O filme era, sem dúvida, uma história fantasiosa, interpretada de forma magistral pelo ator Michel Piccoli: um cardeal eleito Papa entra em pânico antes de se apresentar na varanda das bênçãos da Basílica de São Pedro e esconde-se debaixo de uma cadeira. Depois de ter tentando inutilmente desaparecer nas ruas de Roma e de ter sido levado de novo para o Vaticano, no momento de dar a bênção a fiéis e prelados, perante o desconcerto geral, exclama: «Peço perdão ao Senhor por aquilo que estou prestes a fazer... Percebi que não sou capaz de desempenhar o papel que me foi confiado.» A posteriori poderíamos dizer que o cineasta se limitara a «farejar o futuro», elaborando uma artística encenação da dramática renúncia de quem se considera pessoalmente inadequado para uma missão demasiado grande para ele. Escreveu inesperadamente a jornalista Natalia Aspesi: «O Papa de Michel Piccoli, que foge da cátedra sentindo-se velho, deprimido e perdido, suscitou uma comoção nova e profunda frente às palavras e ao gesto chocantes do verdadeiro Papa, Bento XVI.»

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Não faltou, obviamente, quem retomasse a profecia atribuída a São Malaquias, bispo irlandês de Armagh, que viveu no século XII. Na verdade, porém, trata-se de um texto falso, forjado por volta de 1595, para suportar as pretensões de um cardeal de Or vieto que pretendia ser eleito Papa. Consiste numa série de cento e doze legendas que, começando pelo papa Celestino II (1143-1144) e até ao número setenta e três, condizem perfeitamente com os pontífices que tinham ascendido até então ao trono de Pedro, e ao aspirante ao Papado de finais do século XVI. Por outro lado, as legendas seguintes tornam-se tão vagas que só com um certo artifício, e por vezes com um esforço notável, se consegue adaptá-las a cada pontífice dos últimos quatro séculos.

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Na literatura das revistas ilustradas italianas, em meados do século XX, essas falsas predições tiveram um êxito particular, visto que o epíteto Pastor Angelicus parecia ajustar-se na perfeição a Pio XII. Foi esse, com efeito, o título de um filme de caráter biográfico, interpretado pelo próprio Papa, estreado em 1942 por ocasião do seu jubileu episcopal. Ao seu sucessor, João XXIII, foi aplicada com muita liberalidade o epíteto de Pastor et nauta, com o pretexto de que Angelo Giuseppe Roncalli era patriarca da cidade de Veneza, cidade de navegadores. Nesta série de predições altamente improváveis, a legenda atribuída ao pontificado de Bento XVI é a penúltima da lista. Depois dele prevê-se um único pontífice, com a enigmática designação de Petrus Romanus.

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Não são certamente estes os motivos pelos quais se deve esperar o fim da Igreja e do mundo, que tanto interesse parece suscitar sob falsas formas de divulgação científica. Após os inúteis temores mediáticos difundidos em finais do ano 2000, coincidentes com o início do novo milénio, e a última e recente desilusão associada às presumíveis predições com base num calendário maia para 21 de dezembro de 2012, não basta retomar pela enésima vez as já gastas Centúrias de Nostradamus, astrólogo francês da primeira metade do século XVI, cujas disparatadas predições se adaptam, por sua vez, a tudo e ao inverso de tudo.

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Se Petrus Romanus deve ser o último de uma série, embora fictícia, podemos esperar que com ele, ou pelo menos imediatamente a seguir a ele, se inaugure a época de uma Igreja nova e renovada. Passou meio século desde que João XXIII terá dito que era necessário abrir as janelas: depois disso, demasiadas energias se gastaram no esforço de voltar a fechá-las.

 

Roberto Rusconi
In A grande recusa, ed. Paulinas
Fotografias: Arquivo
27.08.13 | Atualizado em 10.02.15

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Capa

A grande recusa

Autor
Roberto Rusconi

Editora
Paulinas

Ano
2013

Páginas
128

Preço
10,00 €

ISBN
978-989-673-312-4

 

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