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Lourdes Castro: O efémero, a alegria, a eternidade

Partiu Lourdes Castro para a vida eterna, após longa e representativa carreira como artista plástica que, com ancoragem na década de 60, alcança progressiva notoriedade em Portugal e no estrangeiro, até ser reconhecida como figura cimeira pelos seus pares e pelos melhores estudiosos e críticos das artes visuais. A perspetiva cristão da cultura, assumida pela Igreja católica e protagonizada, no âmbito de intervenção da Conferência Episcopal Portuguesa, pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, fez jus a essa superior representatividade ao atribuir-lhe em 2015 o Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes.

O experimentalismo e o carácter inédito da sua obra, com singular aura poética, surgem dominados pelo desígnio e pela capacidade de nomear plasticamente o objeto e de, ao mesmo tempo, aprofundar a rutura com a noção tradicional de "escultura".

Nessa perspetiva, Lourdes Castro interferiu decisivamente na problematização plástica enquanto discurso transdisciplinar: do desenho à pintura, do virtual ao empírico. Veja-se, a este propósito, a linha de pesquisa que remete para a noção de sombra e sua apropriação. «Esse contacto excessivo com os objetos, o seu esvaziamento significante, conduziram a artista a um inédito trabalho sobre as sombras humanas, imobilizadas em sensíveis contornos sobre os mais diversos materiais e também sobre tela e progressivamente sobre plexiglas», observou Raquel Henriques da Silva (num texto em que estudava a Coleção Manuel de Brito apresentada em 1994 no Museu do Chiado).



Imagem D.R.


Dando importante contributo, com valor de experiência, à reformulação de linguagens plásticas que se tinham esgotado ou convencionalizado numa visão redutora de formas previsíveis, desde cedo Lourdes Castro construiu uma obra coesa e dinâmica, que não se deixa aprisionar em códigos de género e que através da inquirição do valor plástico da sombra discorre sobre relações entre existência e ausência e assume a manifestação da presença como um rasto do visível.

A reformulação da serigrafia como processo criativo e a consequente exploração das possibilidades técnicas deste método compositivo constitui outro fator a destacar, designadamente considerando a importante colaboração da artista com René Bertholo. «A surpresa do desenho, a simplicidade da forma, do contorno de uma sombra, fascinou-me tanto que ainda hoje para mim é nova...», referiu a dado momento Lourdes Castro....», referiu a dado momento Lourdes Castro (citada na dissertação de mestrado que lhe é dedicada por Joana Galhardo Frazão, 2012, FLUP).

Por outro lado, o trabalho de Lourdes Castro é pioneiro na conceção e criação de livros de artista, uma das áreas de criação durante muito tempo desvalorizada (e ainda hoje das menos estudadas em Portugal).



Imagem D.R.


Em particular pela participação no projeto KWY, Lourdes Castro encontra-se associada a uma das mais decisivas manifestações da internacionalização da arte portuguesa no contexto cultural da década de 60, como evidenciou Eduardo Paz Barroso («Gesto signo escrita na pintura portuguesa do século XX»).

Em contraponto, a sua obra "O Grande Herbário das Sombras" possui contornos de um projeto criativo preocupado em registar aquilo que vai desaparecer ou dando formas de presença ao que parecera já não existir; e nessa medida cultiva uma aproximação estética à relação entre o efémero vivenciado e a perenidade almejada. Trata-se de um projeto ligado ao reencontro da artista com a Natureza e a vegetação na Ilha da Madeira, sua terra natal, convocando 100 espécies botânicas para um gesto novo de elogio da Criação.

Por aí nos encaminhamos para o mais profundo horizonte de receção que a obra de Lourdes Castro exige, envolvendo a imanência do mundo criado e a Transcendência que lhe dá sentido último. A sua obra torna-se um rito de elogio do vivo e de louvor do dom da vida, que nos propõe comungar tanto numa manifestação simples e rigorosa da alegria, quanto no crescimento do amor para a eternidade. Como evidenciam várias das suas mais significativas criações e algumas imperecíveis experiências de irradiação espiritual na receção da sua obra - veja-se, por exemplo, o grande painel na parede por trás do altar da Capela do Rato, e recorde-se, por outro lado, certa noite de oração nessa Capela, em que se rezou com as palavras e os silêncios de Lourdes Castro e do filme "Pelas Sombras" -, o louvor do dom da vida na própria atualização da autonomia dos valores estéticos passa, na obra de Lourdes de Castro, por uma poética da espiritualidade cristã.


Imagem D.R.

 

José Carlos Seabra Pereira
Diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura
Imagens: Lourdes Castro no Ato de entrega do Prémio Árvore da Vida-Padre Manuel Antunes | Capela do Rato, Lisboa, 11.7.2015 | SNPC
Publicado em 08.01.2022

 

 
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