Vaticano
Papa Francisco quer «intensificar diálogo com os não crentes» e lembra que ser «pontífice» é construir pontes
O papa afirmou esta sexta-feira no Vaticano que é «importante intensificar o diálogo com os não crentes, para que jamais prevaleçam as diferenças que separam e ferem, mas, embora na diversidade, triunfe o desejo de construir verdadeiros laços de amizade entre todos os povos».
No encontro com o Corpo Diplomático acreditado na Santa Sé, Francisco lembrou que «um dos títulos do Bispo de Roma é Pontífice, isto é, aquele que constrói pontes, com Deus e entre os homens».
«Desejo precisamente que o diálogo entre nós ajude a construir pontes entre todos os homens, de tal modo que cada um possa encontrar no outro, não um inimigo nem um concorrente, mas um irmão que se deve acolher e abraçar», sublinhou.
Jorge Mario Bergoglio, argentino, recordou que a sua família de origem italiana, pelo que mantém «sempre vivo» o diálogo «entre lugares e culturas distantes, entre um extremo do mundo e o outro, atualmente cada vez mais próximos, interdependentes e necessitados de se encontrarem e criarem espaços efetivos de autêntica fraternidade».
A religião, afirmou, é «fundamental» para o estabelecimento de relações: «Não se podem construir pontes entre os homens, esquecendo Deus; e vice-versa: não se podem viver verdadeiras ligações com Deus, ignorando os outros».
«É importante intensificar o diálogo entre as diversas religiões; penso, antes de tudo, ao diálogo com o Islão», acrescentou.
Segundo o papa, «lutar contra a pobreza, tanto material como espiritual, edificar a paz e construir pontes» são pontes de referência para um caminho comum a percorrer por todos os países, a par do cuidado pelo planeta.
«Também neste caso me serve de inspiração o nome de Francisco: ele ensina-nos um respeito profundo por toda a criação, ensina-nos a guardar este nosso meio ambiente, que muitas vezes não usamos para o bem, mas desfrutamos com avidez e prejudicando um ao outro», apontou.
O discurso retomou o tema do «amor» pelas pessoas mais carenciadas que constituiu uma das marcas da espiritualidade do santo de Assis, «figura bem conhecida mesmo além das fronteiras da Itália e da Europa, inclusive entre os que não professam a fé católica».
«Ainda há tantos pobres no mundo! E tanto sofrimento passam estas pessoas! A exemplo de Francisco de Assis, a Igreja tem procurado, sempre e em todos os cantos da terra, cuidar e defender quem passa indigência e penso que podereis constatar, em muitos dos vossos países, a obra generosa dos cristãos que se empenham na ajuda aos doentes, aos órfãos, aos sem-abrigo e a quantos são marginalizados, e deste modo trabalham para construir sociedades mais humanas e mais justas», assinalou.
A questão do «relativismo», amplamente refletida pelo papa emérito Bento XVI, foi explicitamente mencionada por Francisco, que a aplicou à dignidade humana e à ecologia.
«Não pode haver verdadeira paz se cada um é a medida de si mesmo, se cada um pode reivindicar sempre e só os direitos próprios, sem se importar ao mesmo tempo do bem dos outros, do bem de todos, a começar da natureza comum a todos os seres humanos nesta terra», frisou.
Neste sábado Francisco e Bento XVI encontram-se às 12h15 (11h15 em Lisboa) para um almoço em Castel Gandolfo, próximo de Roma, onde o papa emérito está a viver até à conclusão das obras de remodelação da sua futura residência, no Vaticano.
O atual papa, que desde o início do conclave, a 12 de março, mora na Casa de Santa Marta, continua a celebrar missa na capela deste edifício. A eucaristia desta sexta-feira contou com a participação de jardineiros e funcionários da limpeza do Vaticano.
No fim da celebração o papa quis conhecer todos os colaboradores, um por um, tendo-lhes deixado uma palavra de saudação e um pedido de oração por ele.
O porta-voz da Santa Sé, padre Federico Lombardi, contou que na homilia o papa partilhou um pensamento «muito bonito»: «Se temos o coração fechado, se temos o coração de pedra, as pedras vêm até às mãos e ficamos prontos a atirá-las, pelo que é preciso abrir o coração ao amor».

Rui Jorge Martins
© SNPC |
24.03.13
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Vaticano, 22.3.2013
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