Fé e cultura
Páscoa em Castelo de Vide
Depois do Domingo de Ramos e do primeiro grande momento da Semana Santa, a Procissão dos Passos; e na sequência de vários dias de expetativa, Castelo de Vide viveu, este fim-de-semana, momentos de grande intensidade e provou, mais uma vez, que só nesta bonita vila do Norte Alentejano a "Páscoa é vivida como o Natal".
Além das celebrações religiosas como a Procissão do Enterro do Senhor, a Bênção dos Cordeiros, a Chocalhada e a monumental Procissão da Ressurreição, a vila teve este ano um número ímpar de iniciativas que reforçaram não só o envolvimento da comunidade, mas também o interesse de milhares de visitantes.
Além das missas e procissões que, ano após ano, chamam cada vez mais fiéis e turistas, não podemos falar de Páscoa em Castelo de Vide sem evocar os fenómenos da Bênção dos Cordeiros e a Chocalhada, dois momentos que não só enriquecem as comemorações, mas também suscitam a curiosidade de pessoas de toda a região.

Personagem indissociável das comemorações pascais, o pároco, Cón. Tarcísio Alves confirmou o aumento constante dos turistas nesta altura do ano e, além disso, o cada vez mais intenso envolvimento da comunidade local.
Depois de uma semana onde o fenómeno religioso se fez sentir a cada momento, o Sábado de Aleluia arrancou com a tradicional Bênção dos Cordeiros, um dos focos de maior atração da Páscoa de Castelo de Vide, que remete ao século XV, quando os judeus foram expulsos de Espanha e, consequentemente, acolhidos na vila alentejana. A prova desse bom acolhimento foi, de acordo com Tarcísio Alves, o facto de os cristãos terem deixado os judeus preservarem as suas tradições, habitarem dentro das muralhas da vila e conviverem em harmonia com a população cristã.

"Uma das grandes tradições dos judeus é a preservação da Páscoa Judaica, a saída do Egipto em que eles mataram os cordeiros e untaram as portas com o sangue dos cordeiros para que não matassem os primogénitos dos hebreus. Castelo de Vide ainda hoje reaviva essa cerimónia judaica, mas com componentes cristãos para fazer exaltar ambas as culturas", explicou o pároco.
Quanto à participação na Bênção, o cónego confessou que, de ano para ano, o número de participantes está a decrescer, talvez pelo facto de, à nossa volta, o campo ter cada vez menos rebanhos. No entanto salientou que, felizmente, tem havido sempre criadores que não deixam morrer esta tradição.
Quanto à assistência, Tarcísio Alves garante que tem sido cada vez mais forte. "Embora os cordeiros sejam menos, as pessoas são mais", frisou.

Em relação à Chocalhada, que, à semelhança do que acontece com a "Bênção dos Cordeiros", continua a levar cada vez mais pessoas a Castelo de Vide, Tarcísio lembra que no passado, "não havia festas, nem bailes durante a Quaresma, e então tiravam-se os guizos e os chocalhos aos animais em sinal de penitência e de expectativa em relação ao Dia da Ressurreição. Nesse dia, as pessoas enchiam a igreja e, como não podiam trazer os animais, traziam esses chocalhos e campainhas, e depois levavam e colocavam de novo nos animais".
André Relvas
In Fonte Nova
16.04.09

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