Falsa caridade
Talvez em época alguma da História, se fez sentir, de um modo tão cruciante, o indiferentismo do homem perante os graves problemas do seu tempo, se atentarmos numa das características mais salientes de nossos dias: o individualismo.
A maior parte dos homens vive enclausurada nos seus próprios problemas, sem largueza de vistas nem desejo de alturas. Cada qual procura resolver as suas dificuldades, esquecendo os milhares de irmãos que o rodeiam, sem os quais a sua vida e a dos seus não teriam sentido. Cada qual tenta realizar-se, mesmo que para tal haja de calcar aos pés os direitos mais sagrados dos outros. E faz-se isto sem escrúpulo, antes com uma convicção profunda de dignidade que revolta. Todos afirmam que querem um mundo melhor, mais justo e mais equitativo, mas poucos rasgam o casulo onde normalmente vivem, para o ajudar a construir. Discutem política, analisam sistemas, preconizam reformas; e acabam sempre por dizer que não está certo.
Não está certa, na verdade, a caridade se cada um de nós se não convencer que esta palavra não é apenas para os santos e para os padres, mas para todos os cristãos.
Razão tinha um escritor francês para afirmar que muitos fugiam da Igreja por não verem n'Ela a verdadeira luz da Caridade. Não que Ela a haja apagado - porque S. Paulo a afirma Santa e Imaculada - mas porque os seus filhos lhe esconderam o brilho enquanto se fecharam sobre si mesmos, num desejo mesquinho e egoísta de cultivarem os seus próprios jardins, sem tentarem sequer reparar nos insetos que devastam as searas alheias. E os seus filhos somos nós, os que nos dizemos cristãos e continuamos a apontar com um riso passivo, mas irónico, a indiferença da Igreja perante os pobres.
Somos nós que pregamos e dizemos que não está certo, que usufruímos todos os rendimentos das nossas vastas propriedades e os gozamos como pagãos, enquanto à nossa beira milhares morrem de fome. Somos nós que ocupamos os primeiros lugares nos templos, que deixamos cair na bandeja uma nota de quinhentos [escudos, 2,5 euros] - quando não um punhado de moedas luzidias por causa do barulho que possam fazer ao cair - que trazemos nas nossas propriedades os trabalhadores a ganhar um salário miserável, que, para ser recebido, exige o chapéu nas mãos. Somos nós os filhos da Igreja que nos servimos dela para tudo o que seja honra e dignidade, fugindo de tudo o que peça renúncia e sacrifício; somos nós que havemos de ajudar a construir um mundo novo na medida em que fomos renunciando ao nosso individualismo injusto e parasita, num desejo profundo de reformarmos os nossos próprios conceitos de caridade.
Vai longe o tempo em que os homens se iludiam com a «caridade de carteira». Hoje ninguém a suporta, porque além de ser humilhante é denunciadora da ausência do verdadeiro sentimento cristão. Nenhum homem se deve sentir satisfeito por haver posto apenas a sua carteira ao serviço dos pobres. Isso pode não ser nada, a não ser que seja muito pouco.
A caridade, se bem que para não ficar nas nuvens haja de concretizar-se através de alguns meios materiais, nunca será uma questão de mais ou menos dinheiro. Mais que isso, será sempre uma questão de mais ou menos amor. Isto, porque se este existir enraizado no mais fundo do coração humano, há de fazer germinar em pão as próprias pedras da calçada.
O mundo está de facto mal, não por falta de dinheiro, mas porque os homens não se amam. E não se amam porque se não conhecem. E não se conhecem porque o conhecimento, como a própria filosofia ensina, leva ao amor, porque o amor pede renúncia e entrega, e ele quer-se guardar fechado em si mesmo com os seus gestos e caprichos.
Ora nada mais fácil para conseguir tal, que ignorar por sistema. Ignorar por ignorar, para não necessitar de se sentir incomodado por vãos pensamentos de pena ou remorsos. E na verdade isto é tão simples!
Basta comprar um automóvel de luxo. Tendo-o, pode passar-se à beira de um bairro de lata sem reparar nos milhares de pessoas que se afundam na miséria. Se o carro tiver alguma avaria, nada mais é preciso para não ouvir queixas e lamentações, que fechar a porta e pôr a telefonia a tocar, enquanto o mecânico conserta o carro.
Pode-se mesmo, no fim, mandar dar uma nota de 20$00 a cada um dos que rodearam o carro. Pode mesmo a nota ser de 50$00, de cem ou mesmo de quinhentos que nunca essa esmola ostensiva terá a marca de caridade.
Vem isto a propósito do falso conceito de caridade que grassa no nosso tempo. Prega-se a reforma social, demonstra-se com estatísticas a existência de milhares de barracas onde a miséria é vizinha do vício, faz-se apelo veemente à doutrina da Igreja e critica-se com azedume o seu não cumprimento.
Tudo isto é justo e louvável, mas não me parece que a Igreja seja uma realidade abstrata, uma vez que o próprio Cristo a concretizou quando disse aos Apóstolos: «Ide por todo o mundo; pregai o Evangelho a toda a criatura.» (Mc 16-15). Era este o mesmo pensamento de Cardijn, quando dizia nunca ter visto almas a passear na rua. A Igreja não é apenas, como alguns querem, uma sociedade para tratar da alma de seus filhos, mas, mais do que isso, ela é o conjunto de todos os cristãos enquanto homens perfeitos.
Parece-me pois que nunca poderá haver verdadeira melhoria de vida enquanto cada cristão não sentir que o seu contributo para o bem e para a paz do mundo é tão indispensável - proporcionalmente falando - como o do seu vizinho. E mais do que isto, nunca haverá verdadeiro sentido em que alguém se sinta no direito de deitar abaixo, se não ajuda a construir o pouco que lhe cabe construir.
A caridade verdadeira exige mais do que isso. Exige tudo, porque exige que brote do coração do homem por amor e não por dó. Exige que eu, tu, nós e eles nos convençamos que não temos o direito de esbanjar e estragar, quando tanta gente morre de frio e fome. Exige que desças tu, e não o teu criado, das tuas salas forradas de tapetes para ouvires e amares o pobre que te bate à porta. Exige que lutes para que não voltem a construir-se bairros onde o pobre não tenha lugar e onde os vizinhos nunca precisam uns dos outros.
Depois de teres feito isto com a alma a transbordar de amor pelos teus irmãos, podes ditar leis e preconizar reformas. E então saberás ser justo e equilibrado, porque não foi só a carteira ou a tua língua que trabalharam, mas foi o teu corpo que começou a amar. Se assim fizeres, podes estar certo que este ano vai ser melhor porque tu também és melhor.
P. Alberto Neto
Jornal do Fundão, 29.1.56 (um ano antes da ordenação)
In Padre Alberto, Testemunhos de uma voz incómoda, Texto Editora
© SNPC |
08.07.12


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