O Advento e a exortação "A alegria do Evangelho"
Há dois acontecimentos que se cruzam e que se iluminam mutuamente. Estamos a viver o período de Advento, com o qual, em cada ano, nos preparamos para a celebração do Natal; acabámos de ser brindados pela Exortação Apostólica pós-sinodal do Papa Francisco com o título «A alegria do Evangelho».
Se as semanas de Advento nos preparam para reconhecermos Aquele que nos traz a alegria autêntica, Jesus Cristo, o Filho de Deus Encarnado, se todas as realidades envolventes no acontecimento do nascimento do Senhor nos conduzem ao impulso de O anunciar a partir de uma experiência de alegria sem limites, então este documento pontifício, focado todo ele no fundamental da evangelização, ajudar-nos-á a viver em profundidade as exigências do encontro com Cristo a que nos convida a experiência deste tempo pré-natalício.
Importa fazermos um breve percurso sobre a proposta evangelizadora que nos vem a partir do Concilio Vaticano II até aos nossos dias.
A Igreja a partir do Concílio reconhece que a sua missão é evangelizar, ou melhor dizendo, está consciente de que evangeliza através de todas as suas ações. Por isso, envolvendo todos os batizados, cada um segundo a sua vocação própria, deve revestir-se das condições para ser credível o anúncio da Boa Nova de Jesus Cristo ao homem de hoje.
Imediatamente a seguir a este acontecimento, Paulo VI elabora e oferece-nos um documento que é considerado a «Carta Magna da Evangelização» e que leva como título «O anúncio do Evangelho». Aí se refere que «a Igreja evangelizada evangeliza» e também se denuncia que «a rutura entre o Evangelho e a cultura é sem dúvida o drama da nossa época» (EN 20).
João Paulo II, verificando que o mundo se tinha afastado de tal modo da fé cristã que maioritariamente, mesmo em contexto de antiga tradição cristã, vivia como se Deus não existisse, convocou a Igreja para a nova evangelização que no dizer deste Papa, seria evangelizar como se fosse pela primeira vez através de um novo ardor, novos métodos e novas linguagens.
Este propósito foi continuado por Bento XVI que organizou as respostas a dar para uma efetiva nova evangelização.
Neste contexto e dando seguimento à missão evangelizadora da Igreja no contexto da cultura atual, o Papa Francisco traduziu a nova evangelização por «a alegria do Evangelho». Atitude que marca quem se encontra com Jesus Cristo e que se traduz na proposta da Boa Notícia para provocar a resposta feliz de quem a recebe.
Logo no inicio do referido documento, o Papa diz isto mesmo com as seguintes palavras: «Quero, com esta Exortação, dirigir-me aos fiéis cristãos a fim de os convidar para uma nova etapa evangelizadora marcada por esta alegria e indicar caminhos para o percurso da Igreja nos próximos anos» (n.º 1).
Um programa de pontificado
Este é o programa do seu pontificado. Criar as condições para que cada cristão e cada comunidade possam encontrar-se tão intensamente com Jesus Cristo que reflita neles a alegria própria de quem vive na comunhão com Deus. Daí o convite a cada cristão, em qualquer lugar e situação que se encontre, a renovar permanentemente o seu diálogo pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, como diz o Santo Padre, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de O procurar dia a dia sem cessar (cfr. n.º 3).
Por isso, lucidamente desvela na sociedade a necessidade desta presença testemunhante quando diz: «o grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada» (nº 2).
Segundo as palavras do Papa Francisco os próprios cristãos não estão imunes desta forma de vida desumana porque afastada das raízes profundas que só Deus pode oferecer.
Só em Deus e na comunhão de vida com Ele, colocando-se na disposição de aceitar os Seus gestos salvadores, a alegria poderá penetrar continuamente e sempre de forma renovada na vida da pessoa humana querida por Ele como única e irrepetível. O convite é-nos dirigido com as belíssimas palavras que rezam assim: «Ele permite-nos levantar a cabeça e recomeçar, com uma ternura que nunca nos defrauda e sempre nos pode restituir a alegria». E, insiste, sublinhando que «não fujamos da ressurreição de Jesus; nunca nos demos por mortos, suceda o que suceder». E, conclui, dizendo: «que nada possa mais do que a sua vida que nos impele para diante!» (n.º 3).
Já João Paulo II, voltado para a Europa interpelava-nos dizendo que ela «exige evangelizadores credíveis, cuja vida, em sintonia com a cruz e a ressurreição de Cristo, irradie a beleza do Evangelho» (EE 49).
Não nos é difícil reconhecer a sintonia entre este apelo vindo através dos últimos Papas e sobretudo do Papa Francisco e as duas grandes personagens de Advento, Maria de Nazaré e João Batista.
Após o anuncio do Anjo, a Mãe do Verbo de Deus correu apressadamente ao encontro da Sua prima Isabel e, segundo o texto do Evangelho, João exultou de alegria no seio da sua mãe e Nossa Senhora, por sua vez, em resposta à saudação de Santa Isabel exclama: «a minha alma glorifica ao Senhor e o meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador» (Lc. 1, 46).
O encontro com Deus é sempre também encontro com os nossos contemporâneos, os nossos irmãos, para lhes testemunhar a alegria que Deus provoca quando nos convida à união com Ele.
Também João Batista se torna modelo de preparação para reconhecermos os sinais pelos quais Jesus Cristo se revela na nossa história.
Por isso, tal como os pastores e os magos permeados de humildade e simplicidade, a comunidade cristã e cada cristão terão de se revestir destes critérios e atitudes para hoje se alegrarem pela presença permanente de Cristo no nosso mundo.
Tão só com esta profundidade nos sentiremos enviados ao meios dos mais pobres e marginalizados para lhes oferecer gestos concretos de libertação e salvação.
D. João Lavrador
Bispo auxiliar do Porto, membro da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais
In Voz Portucalense, 4.12.2013
05.12.13

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