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Fé e cultura

Portugal também precisa de um "Átrio dos Gentios"

O responsável pela relação da Igreja católica com a cultura, padre José Tolentino Mendonça, considera que Portugal também precisa de um “Átrio dos Gentios”, designação dada ao novo organismo do Vaticano para o diálogo com os não crentes.

«É necessário introduzir a dinâmica do projeto nas dinâmicas das dioceses, movimentos e realidades eclesiais, porque ele constitui um desafio urgente de abertura e diálogo», afirmou em declarações à Agência Ecclesia.

O diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura sublinha que em Portugal se têm realizado experiências concretas, «extremamente fecundas em determinados momentos», de diálogo entre crentes e não crentes.

Referindo-se ao primeiro encontro internacional da estrutura da Santa Sé, que decorre em Paris, Tolentino Mendonça defende que «é preciso substituir o confronto pelo encontro e diálogo».

«O grande desafio é dizer “busquemos conjuntamente”: em vez de vivermos numa cultura de acusação mútua e de suspeição recíproca, confiemos uns nos outros, acreditando que os agnósticos, ateus e não crentes também buscam um sentido da vida e têm muito a ensinar aos crentes».

A espiritualidade dos católicos, por seu lado, pode ser avaliada como «uma experiência humana legítima, aceite e reconhecida fora das fronteiras da crença», sugere o sacerdote madeirense.

No entender do responsável, as iniciativas que decorrem na capital francesa «são o reflexo do esforço de encontro e diálogo que a Igreja pretende promover com o mundo contemporâneo, onde a presença dos não crentes é uma realidade muito forte».

Tolentino Mendonça recorda que «o modelo de entendimento da relação da Igreja com o mundo já está estabelecido» desde o Concílio Vaticano II (1962-1965).

«O que falta – salienta – é a ousadia da prática, de uma forma criativa, através das instâncias culturais, que são o elo comum entre crentes e não crentes», dado que «a gramática cultural» constitui «um lugar de encontro para as grandes procuras humanas».

«Basta olhar para o programa de Paris para verificar que temos a utilização de linguagens muito diferentes: as conferências e mesas-redondas, mas também as peças de teatro, a música e o audiovisual», assinala.

O especialista em hebraico diz que «a imagem do mestre que conversa com os estrangeiros», como acontecia no “Pátio dos Gentios” localizado no templo de Jerusalém, o local mais importante do culto judaico ao tempo de Jesus, traduz a «disponibilidade para a conversa, o caminho comum, a escuta e a aprendizagem» que a Igreja «quer recuperar para relançar uma nova atitude».

«A Igreja não é apenas ensino; ela também precisa de aprender a verdade do outro, como lembrou Bento XVI no Centro Cultural de Belém» [Lisboa, 12 de maio de 2010], frisa Tolentino Mendonça.

 

Rui Martins
In Agência Ecclesia
25.03.11

FotoÁtrio interior do Convento
dos Dominicanos, Lisboa
rm/SNPC
















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