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Fé e arte

É preciso ter fé para tornar credível a música religiosa?

Pela primeira vez na sua carreira, o maestro e violinista italiano Enrico Onofri dirigiu a «Paixão segundo São Mateus», de Bach, no Centro Cultural de Belém (CCB), no último sábado, uma das partituras de temática religiosa mais exaltantes da história da música. Mas a sua condição de não crente colocou-lhe embaraços. Mesmo tendo em conta a perspetiva histórica e o facto de a obra, originalmente destinada à liturgia luterana, ler ganho autornomia estética, o diretor musical do Divino Sospiro viu-se confrontado com conflitos interiores. Tendo em conta que a sua forma de transmitir a música passa por viver intensamente o seu conteúdo, “como transmitir com sinceridade ao ouvinte um texto em que não se acredita?”

No passado domingo, na Casa da Música, uma obra sobre a mesma temática («Paixão e Ressurreição»), composta em 1981 por Jonathan Harvey, teve a sua estreia em Portugal. Diferentes experiências religiosas da cultura ocidental e oriental fazem parte da vivência pessoal e da produção musical deste britânico nascido em 1939 e considerado uma das grandes figuras da eletrónica das últimas décadas. Identificada como uma «Ópera de igreja», a obra que foi apresentada no Porto foi pensada com o objetivo claro de elevar a espiritualidade da comunidade e não como uma peça de concerto.

Será a fé do compositor e dos intérpretes uma condição essencial para transmitir a mensagem da música religiosa? A conceção de um ateu ou de um agnóstico será menos eficaz do que a de um crente? O tema parece fora de moda, mas continua a ser pertinente para vários músicos e reveste-se de particular relevo quando se aproxima a quadra pascal e se multiplicam as apresentações de obras alusivas à Paixão de Cristo.

“Parece-me óbvio que a performance de um crente será mais convincente, pois tem essa vivência dentro de si”, diz Jonathan Harvey, que este ano é compositor em residência na Casa da Música.

Já Enrico Onofri considera que “a fé não é uma condição essencial para interpretar música sacra da melhor forma. Se a crença religiosa tivesse peso na interpretação seria um problema pois atualmente as orquestras são formadas por pessoas de vários credos.” Acrescenta: “Pode-se ser muito espiritual sem se ser crente. na verdade ser músico é um ato de fé, pois a espiritualidade em relação ao seu trabalho tem de ser muito elevada.”

Harvey reconhece que algo semelhante pode ocorrer na criação, pois há muita música de qualidade baseada em textos sacros escrita por ateus. “Acredito que muitos compositores se tornam religiosos no momento da composição. O compositor é alguém muito sensível, é como um médium e pode receber coisas que não sabe bem o que são. É também imaginativo por natureza, pode tornar-se crente enquanto escreve sobre um texto sagrado, mesmo que logo a seguir se esqueça.”

Lamenta que hoje não existam muitos compositores com uma componente espiritual ou religiosa na sua obra mas refere que estas questões foram centrais para algumas das maiores figuras da música do século XX, como Messiaen e Stockhausen. “Hoje as pessoas não levam a religião a sério, pois pensam que o resultado do progresso científico é incompatível com ela. Acham que a religião é negação do conhecimento, mas não é verdade.”

O embaraço que Onofri sentiu quando foi confrontado com a direção da «Paixão» de Bach nunca se tinha colocado em relação a outras obras religiosas. Surgiu por se tratar de uma obra cujo argumento central é o fundamento principal da fé cristã: a Paixão de Cristo. “Uma cantata breve exige um certo entendimento da religiosidade, mas uma obra tão vasta e complexa como a São Mateus fez-me repensar esta questão pois o seu peso é muito maior”, conta. “O que me colocou maiores dificuldades foi o coro ‘Sein Blut komme über uns und unsre Kinder!’ (O Seu sangue recais sobre nós e sobre os nossos filhos!) porque esta frase esteve durante séculos na base do ódio antisemita e das suas terríveis consequências. Como evitar a contrariedade ao dirigir este coro, ao qual Bach confiou uma música tão poderosa?”

O conflito foi resolvido pensando a obra como a narração de uma história “bela e tocante”. A presença de um narrador (Evangelista) evoca a tradição italiana dos ‘cantastorie’, artistas que andavam de terra em terra e cantavam histórias, acompanhadas por ilustrações desenhadas num cartaz”, explica. “É uma tradição que está longe da Paixão, mas inspirou-me porque o Evangelista representa o tempo presente, ao qual se juntam outros dois tempos narrativos: o tempo das personagens históricas (Cristo, Pilatos, etc.) e que é passado, e o tempo suspenso formado pelos comentários expressos nas árias e nos corais.”

Ao contrário do que aconteceu com Onofri, que se considera agnóstico, a religião faz parte do quotidiano de Jonathan Harvey desde a infância. No colégio anglicano que frequentou cantava duas vezes ao dia nos serviços litúrgicos e quando, a partir de 1980, o seu filho Dominic passou a integrar o coro da Abadia de Winchester, o compositor voltou a reviver essa experiência. O Bispo de Winchester, John Taylor, acreditava que a Igreja devia contar as histórias antigas com novos meios e encomendou a Harvey a «Paixão e Ressurreição» que foi escutada na Casa da Música.

“Este género de obra, conhecida como drama litúrgico, era praticada pelos monges beneditinos durante a Idade Média”, explica. “Eram peças completamente cantadas e também representadas, ainda que de forma simples e ritualista. Alguns destes monges eram ótimos dramaturgos e caracterizavam bem as personagens dos Evangelhos. Podem ser consideradas como as primeiras formas europeias de ópera. A minha peça retoma esta tradição, já que a catedral de Winchester foi um dos principais centros do drama litúrgico na Idade Média. Recorri a textos beneditinos em latim e, musicalmente, inspirei-me no cantochão e nas Paixões de Schütz”.

Tal como as Paixões de Bach e dos seus contemporâneos, cujos corais podiam ser entoados pela assistência, a composição de Harvey inclui hinos anglicanos para serem cantados pelos presentes e que, na Casa da Música, ficaram a cargo de vários coros amadores e de escolas de música da região, já que as referidas melodias não fazem parte da nossa tradição de modo a poderem ser entoadas pelo público. Estas vozes alternaram com cantores solistas profissionais e com o New London Chamber Choir, acompanhados pelo Remix Ensemble, sob a direção de Baldur Brönnimann.

O hábito de interpretar as Paixões de Bach em concerto, fora do seu contexto litúrgico, contribuiu há muito para que se perdesse o hábito da assistência entoar as melodias dos corais. No concerto que Onofri dirigiu no CCB, o Grupo Vocal Officium e o Coro infantil da Universidade de Lisboa, para além de vários solistas, juntaram-se ao Divino Sospiro naquele que foi talvez o maior desafio da sua carreira, tendo em vista as dimensões e a complexidade da obra de Bach. Contudo, o maestro teve presente as diferenças entre a religiosidade católica e protestante não só no plano ideológico, mas também estético. “Procurei aproximar-me do espírito protestante e travar a tendência para a exuberância que pode ter uma pessoa que nasceu num ambiente católico latino. Mesmo não sendo crente, permanecem traços fortes na minha personalidade decorrentes do facto de ser italiano e de ter vivido num ambiente católico. Por outro lado, Bach era um grande admirador da música italiana e esta teve grande influência na sua produção. Há na Paixão elementos italianizantes, mas não se podem interpretar como se fosse uma ópera de Vivaldi. Há que preservar uma certa espiritualidade. Posso não acreditar em Deus, mas não posso negar que vivi no último ensaio momentos de comoção espiritual intensos. Não sei se é deus ou se é outra coisa, mas estava lá.”

A dimensão espiritual pode encontrar-se também nas composições de Harvey que não possuem inspiração religiosa direta, numa busca de superação da realidade palpável. “Tenho outras obras que são sobre dramas humanos ou outras temáticas. No plano técnico uso muito a eletrónica ao vivo – trabalhei 25 anos em Paris no IRCAM – mas esteticamente estou próximo do Budismo. A minha ideia é tornar o mundo menos sólido, fazer música menos objetiva. É um pouco como a pintura impressionista, onde o mundo é dissolvido em pinceladas. Gosto de mostrar a realidade como é conhecida e de a questionar a seguir para demonstrar que não é verdadeiramente real, mas apenas o resultado daquilo que nós pensamos que é.”

 

Cristina Fernandes
In Público (Ípsilon), 03.04.2009
05.04.09

Bach
Johann Sebastian Bach


























































































































 

 

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