Ser cristão é entrar noutro mundo
Ser cristão é sair da calha social. Sempre o foi. Quando vivemos a fundo a verdade da Fé, entramos num mundo um pouco estranho. Num outro mundo do mundo. (...)
Um cristão a sério, um cristão a fundo, torna-se uma pessoa inquietante. Se isto não acontece, é simplesmente porque muitos de nós vamos vivendo o nosso cristianismo a meio gás: praticamos a nossa fé a 50, a 20, a 10 por cento. Assumimos um cristianismo que, no fundo, não passa de um resíduo de si mesmo.
Em certo sentido, é compreensível que assim seja: porque é complicado dar o (...) salto decisivo. (...) Nem toda a gente consegue assumir a solidão e o risco necessários para proceder a essa rutura, a essa metamorfose. Contudo, é por esse caminho de perigos que se espreita a felicidade.
A primeira diferença que deve constituir a identidade do cristão é a transparência do mundo: quem segue Cristo intui em tudo a presença de Deus, e cada momento da sua existência, por mais mínimo que seja, faz todo o sentido.
Aprender a ver o mundo entrevendo nele a Deus é um dos pontos mais difíceis da vida de um cristão. Porque a tendência é pensar coisas como: num mundo onde há crianças que morrem de fome onde poderá estar Deus? É curioso que nunca nos ocorre que essas crianças em muitos casos morrem de fome por nossa culpa: podíamos fazer por elas muito mais do que fazemos. Por isso mesmo, a pergunta não deveria ser "Onde está Deus?", mas sim "Onde estou eu?".
O papel da dor na vida humana é outra das estranhezas do cristianismo. Jesus chamava-lhe a Cruz. Mas não se trata de dores sem sentido, mas uma alavanca misteriosa de felicidade, um alicerce de eternidade.
A aceitação do papel da dor na sua vida dá ao cristão uma quase infinita serenidade: porque sabe que, a todos os sofrimentos, se segue uma ressurreição. Não existe, para quem tem fé em Cristo, uma dor fechada em si mesma, no seu horror: pelo contrário, cada sofrimento vem acompanhado de uma felicidade, que se lhe segue e que é sempre mais plena, mais feliz do que a felicidade anterior.
Outra perplexidade colocada pelo cristianismo é a de ele supor que cada pessoa existe em fusão absoluta com todas as outras pessoas. Ao dizer «Ama o teu próximo como a ti mesmo», Cristo não estava a enunciar simplesmente um princípio de bondade, de solidariedade humana. Estava sim a afirmar algo de muito mais profundo: cada homem vive embebido nos outros homens. A realidade de que, em nós, devem caber todos os seres humanos é das mais difíceis de compreender na vida cristã.
Para Jesus cada pessoa existe para se dar, para se entregar, e não para realizar as suas ambições: esta é uma das convicções que também afasta os cristãos do pensamento habitual.
A ideia cristã é a de que nós nos percamos naquilo que fazemos. As pessoas que se centram em si próprias e nada de si dão aos outros não se obtêm a si mesmas, enquanto aqueles que a tudo e a todos se entregam acabam por, paradoxalmente, se conquistarem a si próprios.
Mais uma vez um princípio cristão estranho, surpreendente, acaba por se ver confirmado pela vivência concreta. Se queres saber quem és, entrega-te ao mundo e aos outros. Nesse caminho de perda de ti, contigo te encontrarás. Assim, se queres possuir uma coisa, terás de a dar.
Mas não é fácil aprender este caminho de dádiva: os primeiros passos doem, como se fossem dados contra a nossa natureza. Contudo, pouco a pouco, a nossa alma aprende a respirar a brisa encantadora da generosidade. E nada há que nós tenhamos dado que não nos seja devolvido por Deus em alegria, em plenitude, em profunda posse de tudo. Enquanto não nos dermos seremos um presente por abrir.
Mais uma estranheza do ser cristão: a tendência a desaparecer. Quem vive experiências de cristianismo vai ficando como que recolhido num jardim privado que ninguém vê. Certamente Jesus disse que a nossa luz deve brilhar diante dos homens. Sem negar este princípio, convém também dizer que o caminho da Fé implica normalmente uma certa discrição.
Não é uma rota de êxitos, de espetáculos pessoais. Trata-se, pelo contrário, de uma via oculta. Quanto mais felizes somos, quando mais profunda é a nossa felicidade, menos nos veem.
Gabriel Magalhães
In Espelho meu, ed. Paulinas
11.05.13

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