Átrio dos Gentios em Barcelona
Cristo é um «homem de diálogo», sublinhou Cardeal Ravasi
«O retrato que o Evangelho nos oferece de Jesus é de um homem de diálogo», sublinhou o cardeal italiano D. Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura, estrutura do Vaticano responsável pelo Átrio dos Gentios, «espaço aberto» às pontes entre a Igreja e os não crentes.
A intervenção do responsável foi proferida este sábado na Basílica da Sagrada Família, durante a sessão conclusiva do Átrio dos Gentios de Barcelona, dedicado ao tema “Arte, beleza e transcendência”.
O especialista em estudos bíblicos lembrou os trechos do Novo Testamento em que Jesus se confronta com a figura de Satanás e outros «interlocutores hostis», como escribas, fariseus, saduceus e sacerdotes.
O programa da sessão incluiu diálogos entre dois teólogos e dois poetas, intercalados por momentos musicais.
Mais de 600 coralistas distribuídos pelas quatro fachadas da igreja interpretaram vários trechos musicais, finalizados com o “Aleluia” do oratório "O Messias", de Händel. A soprano Montserrat Caballé Folch também atuou na basílica, tornando realidade uma antiga aspiração.
A conclusão do Átrio dos Gentios com a «espécie de esperanto que é música fez com que se revelasse o significado último e simbólico do Átrio dos Gentios», ou seja, proporcionar uma oportunidade para que «diferentes vozes possam, ao encontrar-se, dar uma mensagem comum e escutar um eco que vem, talvez, do infinito e do eterno, que naturalmente os crentes decifram com um nome, enquanto que outros interpretam como uma procura que nunca tem fim», explicou o cardeal Ravasi à Rádio Vaticano.
Cardeal Ravasi na Basílica da Sagrada Família
O responsável que presidiu à peregrinação de 12 e 13 de maio ao Santuário de Fátima salientou que o cruzamento entre a arquitetura e a música sacras ofereceu uma «trama de harmonia e grandeza e, uma vez mais, de fé e arte».
Para Gianfranco Ravasi a realização do Átrio dos Gentios em Barcelona foi como «uma espécie de espinho» no seio de um tecido cultural em que a religião, a espiritualidade e a procura interior não prevalecem.
«O espinho cria certamente algum desconforto e inquietude mas, ao mesmo tempo, como acontece com a grande arte, cria uma inquietação que é uma tensão para a plenitude», acrescentou.
Gianfranco Ravasi sustentou que a arte é uma «ferida» que não deixa ninguém «na indiferença ou no cinzentismo», ao mesmo tempo que «não está aberta no vazio mas no coração humano», como uma «frincha para a pergunta sobre o sentido da vida».
Montserrat Caballé
O prelado espera que o «olhar para o alto» introduzido pelo Átrio dos Gentios possa no futuro «elevar-se para o infinito e para o eterno», inclusivamente «numa cidade secular» como é Barcelona e «muitas» outras metrópoles.
O arcebispo de Barcelona, cardeal Lluís Martínez Sistach, salientou que a beleza «é muito necessária» porque a vida «é difícil e com a crise económica ainda é mais».
O teólogo Santiago del Cura denunciou a «amputação estética do pensamento teológico», que tende em demasia para a dimensão cognitiva, enquanto que Armand Puig i Tarrech, estudioso das obras de Antoni Gaudí, arquiteto que concebeu a Sagrada Família, descreveu a basílica como a alma cristã do povo catalão.
O Átrio dos Gentios vai chegar pela primeira vez a Portugal a 16 e 17 de novembro, instalando-se em Guimarães e Braga, capitais europeias da Cultura e da Juventude.
O encontro, dedicado às questões da vida, conta com a presença do cardeal Ravasi e do neurocientista português António Damásio, entre outras personalidades da cultura e do pensamento.
Rui Jorge Martins
© SNPC |
22.05.12

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