Diálogo
Uma tarefa cultural premente
“Nascidos sem o ter pedido, vivendo sem saber porquê, morrendo sem receber desculpa, devemos todos suportar o mesmo percurso sem ter direito à menor explicação. Muitos não se colocam a questão. São provavelmente os mais felizes. Outros têm respostas completamente feitas, bastante lisas, indiscutíveis, que receberam ou elaboraram; acreditam nelas e têm, sem dúvida, razão para se fixarem aí. Enfim, há os que não compreendem nada, os inquietos, os angustiados, os que desde o princípio se perguntam «porquê?», considerando este mundo grotesco e grandioso, e não se satisfazem com nenhuma resposta. (...). Pertencendo a este terceiro grupo, tenho inveja dos que não têm questões e dos que só têm respostas, eu que apenas tenho questões sem respostas.”
(...) Esta citação dum não crente faz-nos pensar que é preciso mostrar respeito pela enunciação de respostas diferentes para a pergunta do sentido da existência. Pressupõe-se que são fruto de buscas empreendidas com honestidade intelectual. Quer isto dizer que tomam em consideração a vida em toda a sua objetividade. Convém que essas respostas se disponham a dialogar umas com as outras, para que se progrida na compreensão das grandes problemáticas da existência humana. As cartas trocadas publicamente entre D. José Policarpo e Eduardo Prado Coelho, há cinco anos, foram disso um exemplo. Na altura, o Cardeal Patriarca afirmou que preferia não considerar esse diálogo como um face a face entre crente e não crente. Optava por o entender como o empenho de duas pessoas em contribuir cada uma “à sua maneira para essa tarefa maior de ajudar na busca do sentido, da vida e da história” . Neste aspeto, adotava uma atitude idêntica à do jesuíta francês Pareydt:
“Não há dois «blocos»: os crentes e os outros, os «bons» e os «maus» crentes ... Há homens que buscam segundo ritmos diversos. Os seus caminhos cruzam-se, as suas verdades testam-se no face a face. Eles procuram transmitir uns aos outros os seus segredos, que são frequentemente interrogações vivas, sedentas de respostas."
O Cardeal Patriarca defendia ainda que os dois interlocutores deviam estimular os leitores das suas cartas a entrar no diálogo que ambos desenvolviam. Era bom que participassem nele, “aceitando essa atitude sadia de refletir sobre a vida, de escancarar o espírito a novas descobertas da verdade, concebida esta como fonte inspiradora do sentido”. De facto, a busca conjunta deste último, em que participe gente com visões diferentes da existência, torna-se uma tarefa cultural de grande importância nos nossos dias. Afigura-se até estimulante, na medida em que faz com que os seus intervenientes se sintam no mesmo barco. Essa busca torna-se ocasião de crescimento para todos. Desperta-os para a humanidade mais nobre que trazem dentro de si. O coração torna-se capaz de afirmar o que antes talvez não conseguisse. Não quer dizer que se tenha introduzido nele algo que lhe fosse inteiramente exterior. É possível que tivesse já a capacidade para a experiência que vem a verbalizar. Não espanta que um participante na busca conjunta do sentido descubra em si uma abertura a conteúdos de vivência que antes não conhecia. Um pouco disto parece ter-se passado com o interlocutor do Cardeal Patriarca. Veja-se o que foi capaz de afirmar no fim da última carta que dirigiu a este:
“Espero que ela [troca de correspondência] tenha contribuído para que cada um encontre na sua própria vida a razão profunda que lhe dá a força de querer viver. Se para uns isso passa pela intensidade da experiência religiosa, para mim essa intensidade que eles vivem é um valor em si mesma.”
Esta busca conjunta do sentido tende a criar aproximação entre os que nela participam. Vão descobrindo sintonias quanto ao que há de fundamental na existência humana. Os questionamentos individuais têm a ocasião de se converterem num processo de busca coletivo. As respostas que cada interveniente construiu no passado podem iluminar-se mutuamente. É provável que haja em todas elas uma área de sombra. Cada uma necessita de se aperfeiçoar com a luz que as outras lançam sobre ela. Não admira que a caminhada de questionamento dum interveniente se revele mais elaborada que a de outro. É também natural que a resposta que um deles conseguiu para a questão do sentido espelhe melhor a realidade da existência do que aquela que o seu interlocutor adotou. Pode haver uma resposta que consiga dar conta do caráter enigmático da condição humana com mais profundidade do que outra.
No fundo, o sentido da existência está para além de todas as explicações que dela se possam dar. Espera-se que o conjunto das diversas buscas, intelectualmente honestas, contribua para que todos tenham uma visão tão aproximada quanto possível desse sentido. Cada um há-de sentir fôlego para raciocinar sobre o sentido da vida. Mas é também provável que fique mudo ao deparar-se com muito do que a existência comporta. Talvez o aspeto mais fascinante do diálogo das buscas do sentido seja a partilha desses face a face com a evidência de realidades fundamentais da vida. O encadeamento de raciocínio, de que cada um se revela capaz, há-de passar por esse confronto pessoal com a dimensão incompreensível da existência. Dizia Eduardo Prado Coelho: “reconheço que em todos nós, racionalistas agnósticos ou crentes, existe a necessidade de aceitar em determinado momento que “o que é é, e não posso saber mais nada, porque fui embater no mistério do ser”.
Domingos Terra, SJ
Professor da Faculdade de Teologia da UCP
In Brotéria, Fevereiro 2009
25.03.09


Revista Brotéria - Fevereiro 2009
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