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Jornada Nacional da Pastoral da Cultura 2013

Jovens pedem à Igreja que comece a fazer dieta

A poucos dias da 9.ª Jornada Nacional da Pastoral da Cultura, que esta sexta-feira, 21 de junho, reflete em Fátima sobre o tema "Culturas Juvenis Emergentes" (com inscrições ainda abertas), continuamos a fazer a pré-publicação de excertos da obra "A primeira geração incrédula", de Armando Matteo (Paulinas).

 

É tempo de dieta

O anúncio da primavera, o primeiro calor depois do inverno, os primeiros trinados dos passarinhos, trazem a muitos a evocação de um apelo persuasivo: é tempo de dieta. O mar, a praia, o guarda-sol e a revista semanal requerem silhuetas leves, privadas daquele estrato de carne acumulado ao longo dos meses do frio. É precisamente o contacto com aquilo que é novo, com o reinício do ciclo de vida do novo ano, que suscita o desejo de fazer dieta. Nem todos o conseguem, como é óbvio, no entanto, todos aspiram a isso.

Parece-me encontrar um efeito semelhante no contacto com o mundo dos jovens de hoje. A evangelização da primeira geração incrédula do Ocidente pede à Igreja, precisamente, que se ponha a fazer dieta, a fim de corresponder à ideia essencial de uma comunidade como lugar da Palavra e da possível geração na fé.

Fora de metáforas, o começar a fazer dieta requer uma racionalização e uma hierarquização dos interesses. Não nos podemos continuar a interessar por tudo e por todos. Já não se podem manter de pé estruturas e instituições para as quais faltam pessoas que as habitem. Não se pode manter uma estruturação diocesana e paroquial que corresponda a princípios territoriais já ultrapassados. Com efeito, se é verdade que existe uma história da salvação, é igualmente verdade que também existe uma geografia da salvação, que aborda e debate a nem sempre funcional distribuição e repartição de dioceses, paróquias, mosteiros, conventos, gabinetes por um lado, e homens e mulheres consagrados que lhes foram destinados, por outro.

É certo que nada disto parece ser de rápida solução, mas assume um perfil de urgência próprio para favorecer percursos de autêntica hospitalidade àqueles que se aproximam pela primeira vez da realidade da fé: com efeito, está a aumentar a idade média do clero, diminuem as irmãs e os consagrados, vão-se esvaziando muitos pequenos centros extraurbanos, redefinem-se as identidades étnicas dos bairros das grandes metrópoles, assumem novas fisionomias as instituições escolares, sem esquecer as grandes redefinições dos centros comerciais e dos serviços logísticos, e, por fim, a grande mobilidade – o nomadismo – dos jovens. No desenrolar da história, também muda a geografia dos lugares mais familiares.

É óbvio que o simples pensamento de algumas reformas suscita um terror sagrado: na verdade, como se poderão debater realidades paroquiais remotas ou até antiquíssimas fronteiras diocesanas? Mas deveria voltar a ser igualmente claro que a ninguém se pede que procure uma sistematização definitiva para a presença cristã no mundo, uma receita imbatível, uma solução sem efeitos colaterais. Isso, porém, decide da juventude do cristianismo no continente europeu, aquela juventude mantida nos tempos passados graças à sua capacidade de resistir e ultrapassar a tentação da fixação das formas, e à sua obediência simultânea ao dever de colocar a fé neste mundo – sempre cambiante, aquela juventude que encontra a sua razão de ser unicamente na fidelidade criativa à própria tradição:

«A fé precisa de ser transmitida: não nos foi entregue apenas para nós, para salvação pessoal da nossa alma, mas para os outros, para este mundo e para o nosso tempo. Devemos colocá-la neste mundo, a fim de que se torne nele uma força viva, para nele fazer crescer a presença de Deus» (Bento XVI).

Assim, há que abordar a questão da geografia da salvação: a questão do onde e do como nos devemos apresentar aos jovens, com que energias e com que rostos, com que sinergias, com que e com quantos projetos.

Deveremos certamente partir das coisas mais simples e possíveis, como o trabalho entre paróquias limítrofes (nem na nova versão italiana da Bíblia a expressão do evangelista Lucas «até aos confins da terra» foi transformada naquele «até aos confins da própria paróquia», tão caro a muitos fiéis), como a criação de um centro para jovens a nível interparoquial que reúna recursos, entusiasmos e ideias, recuperando também experiências bem conseguidas do passado, do teatro ao voluntariado (com o novo grande espaço de acolhimento e de integração dos imigrantes), da oferta de espaços para estudar juntos a debates sobre os temas mais atuais.

Em seguida, poder-se-á examinar ainda a distribuição diária e semanal das atividades paroquiais, que já não se podem fazer coincidir apenas com a celebração eucarística, precedida pelo terço ou pelas Vésperas, ou com a catequese por faixas etárias. E ainda se poderá falar sobre as linguagens e as propostas das associações e dos movimentos: que modelo de fé e de cristão propõem, que imagem de Igreja transmitem e, por fim, que rosto de Deus deixam transparecer. Não para fazer calar a ação do Espírito, mas para que a sua voz seja sustentada por uma sinfonia de sons e não por uma confusão de ruídos.

Poder-se-á ainda projetar uma nova injeção de energias no acolhimento e no acompanhamento dos estudantes universitários, cada vez mais móveis e numerosos, e o mesmo se pode dizer dos jovens com trabalho precário, obrigados, contra sua própria vontade, a peregrinações contínuas para poderem encontrar trabalho.

Por último, o discurso talvez possa abordar o número das dioceses e das paróquias: o que é funcional no seu conjunto e o que é legado de um mundo que já não existe.

É evidente que, como toda a dieta, também esta exigirá uma certa capacidade de renúncia, o abandono de personalismos e de rituais habituais, a disponibilidade para rever o próprio imaginário pastoral sobre a razão de ser de uma comunidade cristã, os índices de incidência do Evangelho na vida, as resistências e as oportunidades que a cultura pósmoderna oferece à formação de uma mentalidade de fé.

E não só. A primeira geração incrédula do Ocidente também pede à Igreja uma dieta no que diz respeito às suas relações com os organismos institucionais. Neste âmbito, como se sabe, o mundo dos mass media, com insólita generosidade, não perde a mínima oportunidade para trazer à luz um complexo eclesial «obeso» que quer tudo agora e já, que pretende impor as suas ideias, manobrando e deixando-se manobrar pelos políticos, cultivando um sistema bancário sem controlo internacional, travando por todos os meios o melhor da investigação científica, propondo um regresso ao obscurantismo pré-iluminista, bloqueando a aplicação dos direitos às novas minorias. Enquanto, por outro lado – segundo as inevitáveis, não exatamente imparciais, denúncias jornalísticas – não puniria com a devida severidade os sacerdotes pedófilos e aqueles que publicamente mancham a sua imagem. A situação não deve ser exagerada, mas tampouco subestimada.

Os jovens – e essa é outra faceta da sua fragilidade – não gostam de meios-termos nem de ambiguidades, e isso é muito difícil para qualquer um. Não desculpam nada, nem sequer a si próprios, por isso, muitas vezes, sofrem de depressões agudas. Também neste campo, a palavra dieta poderia dar alguma sugestão de atuação.

A fidelidade criativa é a tradução histórica daquela característica de precariedade que, como a tudo o que é humano, também afeta a própria Igreja e que a primeira geração incrédula convida a não ignorar. Os discípulos de Jesus são homens e mulheres mortais, que não têm uma visão completa da realidade e dos seus dinamismos: devem, portanto, escolher. De firme só permanece, precisamente, a palavra do Reino, o resto é confiado à criatividade, cujo motor – como afirmou o Papa – é o amor, e cujo grande inimigo é o medo. E os jovens, hoje como sempre, não suportam o cheiro do medo, nem que este seja disfarçado pelo perfume do incenso das grandes celebrações.

 

Armando Matteo
In A primeira geração incréduta, ed. Paulinas
18.06.13

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