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Fotografia

Assim na Terra como no Céu

As fotografias de Valter Vinagre parecem geradas na substância dos sonhos. Entregam-nos a mesma onírica e estranha emoção das insólitas visões. Uma a uma, reflectindo a festa, os jogos, o ritual, o sacrifício e a morte, são as contas dos mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos que um tempo muito antigo nos ensinou a rezar colectivamente. E é bom que o título afirme explicitamente Cá Na Terra, para não enfileirarmos no risco de as subtrair à sua realidade actual e nossa num momento de crise mítica, em que a visibilidade mediática entrega gratuitamente à sombra ou arqueologia, a maior parte da nossa matriz cultural. Para a cultura predominante de progressão rectilínea, massificadora e fugaz do pós-modernismo que procura integrar indiscriminadamente a mais alargada pluralidade de expressões, incluindo o kitsch mais barato, esta profunda vivência de cultura continua olhada de soslaio. Julgam-na uma excrescência de religiosidade atávica, resultado de arquétipos isolados e subalternos, encerrados num imobilismo que não facilita o esvaziamento conceptual ou mobilidade formal. Cá Na Terra confirma, pelo contrário, o denso caminho cultural de uma comunidade congregada entre si pelo ritual, com a terra e os seus ciclos, com o universo e com o sobrenatural.

Nesta cultura, os mitos afloram por inteiro carregados pela memória e pelas práticas do passado. Religando a terra e o céu, o seu exercício relança a tradição no futuro.

As fotografias de Valter Vinagre captam um conjunto de alegorias, ícones de um húmus cultural que identifica o nosso país rural que, apesar de alguns esforços recentes, continua ignorado na sua sinceridade e virtude. Foi esse Portugal simplificado, amaneirado e reduzido pelo anterior regime a folclore, e pela intelectualidade urbana, a paisagem ou a choldra, que alguns mestres como Michel Giacometti, Veiga de Oliveira, António Mourinho, Jorge Dias, Firmino Martins ou Túlio Espanca souberam encontrar antes da desagregação emigracional e antes da pressão televisiva. No entanto, não deixa de ser notável que, em vésperas do novo milénio, Valter Vinagre o tenha reencontrado com relativa facilidade reunindo um conjunto de fotografias que revelam a persistência secular de culturas locais. Belas nos seus jogos e encenações. Vitais na sua consequência social. Resistentes à massificação dos subprodutos que têm vindo a afectar culturas individuais e personalidades.

Contra a facilidade com que os mecanismos e os contextos da cultura predominante integram todo o tipo de massificações ditas culturais, mesmo as de qualidade artística mais duvidosa, a cultura dita popular surge-nos, paradoxalmente, com o estatuto de underground. São muito poucos a referirem-na nas suas análises ou a admitirem o seu conhecimento. A não ser que algum cantor urbano, um estilista, ou um grupo de teatro conceituado, a reproduza por mimetismo, provocando inesperada aceitação. Interessa mais a essa cultura predominante o ritual ou o mesmo tipo de expressão autóctone, desde que constatada nos conhecidos livros de antropologia em zonas o mais longe possível de nós.

Conheço, felizmente, uma grande parte dos lugares, das festas e dos cultos donde emanaram estas fotografias. Sei quanta intensidade emocional lhes subjaz. Eu vi gente a falar em voz alta em capelas, tu cá tu lá com o santo, sobre os seus problemas, fazendo contratos, exigindo actuação sobrenatural. Observei homens de grande carácter rezando, concentrados, de chapéu na mão. Assisti a refeições colectivas em que o alimento se repartia com gestos apurados que não esqueciam os emigrantes no estrangeiro a quem se enviava o seu quinhão. Falei com jovens que vinham da cidade integrar-se com os seus conterrâneos, na Festa dos Rapazes. Presenciei a mágica expectativa dos que se vestiam de anjos e de santos para se incorporarem nas procissões. E as grandes árvores, e as montanhas, e os rios que em redor assistiam ao coro congregado destes protagonistas, pareciam rejubilar, como se o invisível cordão da sua própria seiva juntasse por uma vez o céu e a terra. As fotografias de Valter Vinagre, nunca cedendo a qualquer paternalismo cultural, exprimem tudo isto com grande dignidade, revelando, simultaneamente, a diversidade de comportamentos. Preferem captar a vida ao exotismo. Os bastidores à encenação. E Valter Vinagre fá-lo sempre com o máximo respeito pelos personagens, aderindo-lhes sem preconceitos. Realça o profundo humanismo e mesmo o afecto dos gestos. E dá-lhes mar, espaço religioso, terra e rochas para os enaltecer. Recusa o facilitismo estético, evitando envolvimentos desnecessários, cedendo positivamente a uma imediata e admirada cumplicidade. E trazendo ao primeiro plano os personagens, como se nos indicasse o seu nome, estas fotografias deixam-nos subentender o seu vasto e latente universo, como se fossem apenas a sua fivela de prata mais brilhante. E eu digo-vos que por detrás destes retratos de gente a dançar ou a rezar, mascarados ou de perfil, estão hortas deixadas bem cuidadas. Vinhas sulfatadas. Às escondidas destes veneradores de santos há bastante sofrimento. Uma vaca que adoeceu. Um filho que recuperou milagrosamente. Um parente longínquo que finalmente deu sinal. Por detrás de todas estas imagens, há os que receberam sempre benesses que nunca julgavam não merecer. O pão espesso servido a horas. Lameiros abundantes. Crias que nasceram abençoadas. E ao lado destes excelsos gestos fixados, há um céu em que viaja a lua. E chuvas que obedeceram aos mais secretos desejos. E regos de água cobertos de morangueiros silvestres onde se refugiam as cobras. E noites preocupadas e manhãs impositivas. Tudo como se a humildade da terra e a grandeza do universo falassem tu cá tu lá através das criaturas aqui representadas, como cadeado de um sonho abusador.

Nenhuma teoria poderá desdenhar arrogantemente desta realidade de que também se faz este país. Como se já não bastasse a projectada destruição da agricultura, a maior e mais nefasta agressão que desde sempre foi planeada contra uma verdadeira e milenar cultura que, isso sim, deixará sem fundo alguns dos mais belos mitos com as suas representações seculares. Apesar dos contornos de sobrenatural envolvente, é Cá Na Terra, como demonstra Valter Vinagre, que tudo se passa. Cinatti diria Nós Não Somos Deste Mundo. Mas sim. Somos. Ainda que o Cristo de Travassos passe, aos olhos de Teixeira de Pascoaes, pela figura do diabo. Tudo se passa Cá Na Terra. Por isso existe a poesia e a sua electricidade oculta que permitiu a Valter Vinagre «acender» estas imagens, dando nova claridade ao nosso olhar. Elas são os cardeais de um ponto, cuja alegria, perenidade e comunhão, com sabedoria e sem complexos, haveremos de alcançar.

 

Selecção de fotografias do livro «Cá Na Terra» | IMAGENS SLIDE SHOW |

 

Manuel Hermínio Monteiro
In Cá Na Terra, ed. Assírio & Alvim
05.07.09

Capa



















































































 

 

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