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Fé e cultura

Ser cristão e ter critérios culturais profanos

1.

O Advento é, espiritual e culturalmente, tempo de esperança, de anúncio da esperança. Mais uma vez a Igreja, através da Liturgia e da Palavra de Deus que ilumina toda a realidade humana, vai anunciar a esperança. E a nossa sociedade bem precisa desse anúncio, para reencontrar o sentido da vida e da sua identidade cultural. A crise económica e as dificuldades reais, por vezes dramáticas, sentidas hoje por muitos portugueses, desloca facilmente os objectivos da esperança; a sensação, veiculada pela comunicação social, da corrupção generalizada, mina a confiança na sociedade e faz brotar um clamor profundo pela justiça; a discussão pública, agora em curso, sobre possíveis decisões que ferem a dignidade da família, na sua base antropológica e na sua solidez institucional leva a substituir as posições solidamente assentes em valores perenes de ordem espiritual e moral, pelo calor apaixonado da discussão. Tudo isto leva a interrogar-nos sobre o modo de anunciar a esperança aos portugueses, perceber o que esperam, ou seja, quais são os conteúdos da esperança. Segundo a Palavra de Deus, a natureza profunda da esperança é esperar por alguém, que promova a justiça, nos sirva com generosidade, seja o obreiro de uma sociedade mais justa e mais fraterna. Em termos bíblicos, leva-nos a esperar um Salvador.

 

2.

A palavra Advento significa chegada, vinda próxima. A esperança é o desejo dessa chegada, o anseio por um encontro. Para o Povo de Israel esse desejado, que restabelecerá a justiça, é o Messias. Todos os profetas são unânimes no seu anúncio: Ele está próximo. Ele estabelecerá a justiça, realizando o ideal de Israel como Povo. “Naqueles dias, naquele tempo, farei germinar para David um rebento de justiça que exercerá o direito e a justiça em Israel” (Is. 33,14-16).

Os cristãos identificaram em Jesus de Nazaré esse Messias esperado. Acreditar em Jesus gera a alegria mobilizadora de um encontro esperado. Nele sente-se a certeza consoladora de que Deus não abandonou o seu Povo, que vem ao seu encontro para o salvar. Pela sua Palavra; porque venceu a morte na ressurreição, cujo dinamismo começou no dom generoso da sua vida, por amor; na comunicação do seu Espírito, força recriadora, Jesus tornou realidade presente a salvação, iniciou um homem novo e uma nova criação. Mas é tão lenta esta transformação qualitativa da realidade humana. Haverá um dia porém em que a glória do Messias, príncipe da paz e da justiça, será clara e definitiva: “Então hão-de ver o Filho do Homem vir numa nuvem com grande poder e glória” (Lc. 21,27).

Parece que os cristãos da primeira geração desejaram ardentemente esta vinda definitiva, a manifestação da glória do Messias, que seria a inauguração da sociedade definitivamente perfeita, talvez na impaciência de restaurar para sempre a justiça, e com a dificuldade de aceitar que esta nova ordem é lenta, tem o ritmo de uma semente lançada à terra, a germinar teimosamente no meio dos espinhos da história. A Igreja percebeu, no seu longo caminhar, que essa ordem nova se vai construindo desde já, umas vezes de forma visível, outras menos, reconhecida e aplaudida em certos momentos, negada e combatida noutros; a Igreja percebeu e acreditou que era possível realizar esse encontro com Cristo no realismo do presente histórico. Quem não deseja encontrá-l’O já, acaba por não ser capaz de desejar esse encontro definitivo na manifestação da glória do Filho do Homem.

É preciso purificar a esperança. E a interrogação que nos lança este tempo litúrgico dirige-se particularmente aos cristãos: desejamos verdadeiramente esse encontro com Cristo? Estamos conscientes de que esse encontro é possível já, na riqueza sacramental da Igreja, no realismo da caridade e da comunhão fraterna? Se não desejarmos esse encontro já, dificilmente desejaremos com verdade a sua última manifestação.

 

3.

Os cristãos que desejam e procuram esse encontro tornam-se artífices da construção de um mundo novo. Se não formos capazes de transpor para o nosso viver em sociedade esta novidade cristã, não percebemos a densidade da esperança. Era já essa a pregação do Apóstolo Paulo: “O Senhor confirme os vossos corações numa santidade irrepreensível”; “deveis progredir sempre mais”, nesta novidade da vida cristã (cf. 1Tess. 3,12-4,2).

Este crescimento na sociedade dos homens, deste reino de justiça, inaugurado na Páscoa de Jesus, acontece com a força do Espírito Santo, mas exprime-se nos actores da transformação da sociedade. Os cristãos devem agir e reagir com a luz e a força do encontro com Cristo, quer no mistério da sua Pessoa, quer na pessoa dos nossos irmãos, com quem Ele se quis identificar. Se vivermos com o Senhor, desse encontro brota uma luz que aponta o caminho da verdade e da justiça e uma força que nos fará lutar por uma sociedade mais justa e mais fraterna. Uma manifestação da infidelidade dos cristãos, talvez a mais grave, é eles estarem no mundo e não exprimirem na sua acção e reacção, a luz e a força desse encontro. São cristãos, mas estão no concreto da vida com os critérios culturais profanos: na cultura ambiente, na circunstância política ou ideológica, nos triunfos e revezes da economia. Não se lhes pode aplicar a frase de Jesus: “Vós sois a luz do mundo”.

O desafio do Advento é o de sermos capazes de reduzir tudo o que esperamos e desejamos, ao encontro com quem esperamos e desejamos. Encontremo-l’O, encontremo-nos mais profundamente uns aos outros, e estaremos a purificar a esperança. (...)

 

D. José Policarpo
Cardeal Patriarca de Lisboa
Homilia nas Ordenações de Diáconos,
Lisboa, Mosteiro dos Jerónimos, 29.11.2009
29.11.09

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