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Entrevista

D. Gianfranco Ravasi: A Igreja deve aceitar o confronto com as novas gramáticas

Dez anos depois da «Carta aos artistas» de João Paulo II, D. Gianfranco Ravasi promove um encontro de Bento XVI com o mundo da cultura, a 21 de Novembro.

Em entrevista ao jornal «La Croix», o presidente do Conselho Pontifício da Cultura assume o divórcio com uma certa tendência da expressão contemporânea, revela o convite que vai fazer aos artistas para a Bienal de Veneza, não recusa as provocações e espera que este encontro marque um ponto de viragem nas relações entre a Igreja e a arte.

 

Bento XVI declarou recentemente: “A beleza deve estar em harmonia com a verdade e a bondade”. Esta afirmação está em contra-corrente com a criação artística contemporânea?

Um grande artista americano dizia-me recentemente: “Os artistas contemporâneos excluem duas coisas: a beleza e a mensagem.” É este horizonte contemporâneo que queremos considerar, tal como é. Neste aspecto, podemos verdadeiramente falar de divórcio com a Igreja.

A arte contemporânea parece em grande parte ter explorado todas as vias da desconstrução e do niilismo, para nos conduzir à constatação da inconsistência do ser, demonstrando que não há nada que valha coisa alguma, usando a provocação sobre a ausência de sentido da nossa realidade. Mas quando confrontada com este itinerário, a própria arte está automaticamente na condição de se destruir, dado que o objectivo último não pode ser senão o silêncio da morte, do suicídio.

FotoFotograma de «Cinema Paraíso», de Giuseppe Tornatore

 

O quadro é assim tão negro?

Nós interrogamo-nos perante esta situação. Constatamos que o cinema, por seu lado, continua a questionar-se, comunicando uma mensagem. Stanley Kubrick, mesmo se as suas últimas obras parecem muito desesperadas, continua a narrar, a querer dizer alguma coisa. Ou então um Giuseppe Tornatore, sem esquecer Buñuel, Bresson e outros.

O mesmo se pode dizer do vídeo-artista americano Bill Viola, que estará presente na Capela Sistina, trabalha sobre a água como símbolo de purificação, sobre a luz como símbolo de transcendência; ele interessa-se pela morte, pela vida depois da morte. Os artistas podem ter esta sensibilidade.

FotoBill Viola

Pareceu-nos portanto que tinha chegado o momento de colocar uma nova proposta: Animar os artistas a reapropriarem-se dos grandes símbolos, das grandes narrações, os grandes temas, as grandes figuras.

Claudel via na Bíblia um “grande léxico”, e Chagall falava dela como de um alfabeto pintado de esperança no qual os artistas de todos os séculos mergulharam os seus pincéis”. Assim, a Santa Sé vai convidar artistas para a Bienal de Veneza, propondo-lhes que trabalhem sobre os onze primeiros capítulos do Génesis, que trazem em si toda a vida da humanidade.

FotoTadao Ando

 

Vai incitar os artistas a fazerem-se catequistas?

De modo nenhum. O artista não deve fazer uma obra directamente catequética. A estética autêntica, quando toca os grandes temas, pode interrogar-se e interrogar-nos sobre o sentido da vida, mesmo se não tem em consideração a mensagem evangélica. Uma estética artística autêntica, por natureza, toca a ética.

Henry Miller dizia: “A arte não serve para nada se não manifestar o sentido da vida”. Talvez consigamos resultados na arte sacra, propriamente religiosa ou litúrgica, mas esse não é o nosso primeiro objectivo. Essa será uma etapa posterior, que corresponde a este pensamento do escritor Herman Hesse: “ a arte é mostrar Deus em todas as coisas”.

ImagemChagall

 

João Paulo II evocava uma “nova aliança” com a Igreja. É esse o seu projecto?

Sim. Acreditamos na possibilidade de um encontro entre a fé e a arte, desde que a arte saia da sua impotência provocadora. Ao mesmo tempo, a Igreja não deve não deve optar por uma recuperação perigosa de estilos antigos e produções artesanais sem ambição. Ela deve aceitar o confronto com estas novas gramáticas, a estas novas modalidades de expressão. Esse diálogo será fecundo para ela.

FotoMassimiliano Fuksas

 

Será uma novidade?

Não, de todo. Ao longo dos séculos, a Igreja sempre procurou exprimir-se através das novas linguagens. No seu tempo, o canto polifónico foi uma verdadeira revolução. O mesmo aconteceu com a teologia cristã, que foi elaborada com as contribuições das grandes tradições filosóficas pagãs do seu tempo.

As novas expressões artísticas contemporâneas devem deste modo ser tidas em conta para uma nova expressão da mensagem evangélica. Tomemos o exemplo da música contemporânea, a partir do dodecafonismo. Ela propõe uma gramática nova, uma estilística árdua que necessita de um verdadeiro trabalho. Devemos levá-lo em consideração.

FotoRenzo Piano

 

Que disciplina artística lhe parece que está hoje mais apta a entrar em diálogo com a Igreja?

Penso sobretudo na arquitectura. A maior parte dos grandes arquitectos já construiu uma igreja. Podemos citar Renzo Piano (Igreja do Padre Pio, em San Giovanni Rotondo, Itália), Richard Meyer (Igreja Tor Tre Teste, perto de Roma), Massimiliano Fuksas (em Milão), Tadao Ando (que concebeu várias igrejas no Japão), etc. E não esqueçamos Le Corbusier, com Ronchamp.

Todos se interessaram em modelar o espaço na sua nudez, jogando com a luz, a intimidade... Mas com uma ausência: o distanciamento das outras expressões artísticas. Porque se uma igreja contemporânea apresenta muitas vezes um interior magnífico, constata-se que o arquitecto nem sempre se preocupou com os objectos do culto.

É assim que vemos altares, esculturas e mobiliário discordante, insuficientemente pensados para esse espaço, que no entanto é magnífico. Ao passo que, ao contrário, Francesco Borromini, o rival de Bernini aqui em Roma, propunha com as suas igrejas um conjunto coerente, harmonioso. Eis um desafio para a actualidade.

FotoFrancesco Borromini


A Igreja pode aceitar uma parte de provocação?

Sim. Buñuel provoca sem contudo blasfemar. O limite é a provocação do vazio, que nos encerra num ciclo mortífero. Uma provocação dessa ordem está votada ao seu próprio fim. Outra coisa é um grito ou um protesto, que podem ser estimulantes, fecundos. Releia Nietzsche!

 

O seu sentimento é partilhado pelo Papa ?

Quando lhe propus as bases do encontro com os artistas, Bento XVI aceitou imediatamente. Ele deseja um verdadeiro diálogo. Ele sabe que deixámos de ser filhos da Antiguidade clássica, do classicismo.

Não podemos continuar a ouvir Stockhausen como se ouve Mozart. Essa realidade pede-nos um trabalho. O Papa tem uma curiosidade intrínseca por todas as tentativas de compreender este mundo novo. Está pronto a ser surpreendido. Estamos no começo de um novo diálogo.

FotoFotograma de «Au hasard Balthazar», de Robert Bresson

 

Porquê organizar este encontro na Capela Sistina?

Em primeiro lugar porque foi lá que ocorreu, há 40 anos, primeiro encontro entre Paulo VI e os artistas: o seu discurso nessa ocasião ficou na memória. Depois, a Capela Sistina é talvez o símbolo mais forte do encontro entre a arte e a fé. Por fim, ela é o lugar por excelência onde a Igreja se regenera, dado que é nela que o Papa é eleito.

 

Entrevista de Fréderic Mounier
In La Croix
Trad.: rm
© SNPC (trad) | 15.11.09

Foto
D. Gianfranco Ravasi

 

 

 

 

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