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Pastoral da Cultura

Para além do conhecimento

Como anunciar Deus hoje? O que dizer sobre Ele de maneira original? Não se trata de repetir o que os outros já disseram, mas de encontrar, no interior de percursos já testados, novos itinerários para Deus, tendo em conta as objecções e as dificuldades dos últimos séculos.

Assim, há a estrada da razão amiga de fé. A faculdade que nos permite procurar Deus é a razão; não a razão instrumental, que torna os seres humanos mais inteligentes do que as outras criaturas, mas a faculdade que permite reconhecer um projecto que precede a pessoa. Acreditar que Deus existe significa que Ele não é uma ideia nossa, mas que nós somos uma ideia sua. Significa inverter a perspectiva. Trata-se de uma razão que é capaz de ir além do físico e do experimental, que é capaz de ampliar o seu espaço cognoscitivo, mesmo com a ajuda da fé. Permanece válida a dupla ordem do conhecimento, juntando a razão e a fé. Estas duas fontes de conhecimento oferecem sempre a possibilidade de novos itinerários.

Há, depois, a estrada cosmológica, percorrida por muitos cientistas, que é um convite a reformular a fé em Deus; o cosmos e o ambiente postulam uma interrogação: Deus está na origem ou no exterior de tudo? A resposta adequada nasce do encontro entre as ciências naturais e a filosofia metafísica. Nasce do reconhecimento da capacidade da razão em captar algo mais do que a simples matéria.

Há o caminho da beleza, desenvolvido pela arte, literatura, música e tudo o que o génio humano concebeu e realizou. Nesta dimensão é central o encontro com o rosto de Deus, revelado em Jesus Cristo, encontro plenamente possível mediante a arte. Chegar a Deus através do rosto. O mistério da Encarnação abre a estrada para compreender que Deus não está confinado à sua transcendência, à sua distância, mas faz-se homem para ensinar ao homem o caminho para tornar-se Deus. O cristianismo não é um itinerário que parte da pessoa e chega a Deus, mas o oposto. Deus vai ao encontro do homem para compartilhar tudo: o sofrimento e a alegria, a glória e a fadiga. Tudo é representado através da arte para introduzir a presença de Deus e para explicar o homem ao homem.

Uma quarta estrada para falar de Deus é a que tem sido percorrida ao longo dos milénios pelas religiões monoteístas, através dos seus cultos. Negligenciar esta dimensão significaria renunciar a uma parte da pessoa. O rito, ainda que celebrado de maneiras diferentes, tem como constante conferir à procura de Deus um elemento característico relacionado com as palavras, os sinais, etc. Em suma, o rito e o sagrado constituem um modo para comunicar a fé na presença de Deus, que escuta.

O quinto trajecto, que pode ser considerado a conclusão dos anteriores, consiste em aceitar que o conhecimento de Deus conduz ao Mistério. Já Santo Agostinho recordava que se “se compreende, não é Deus” (”si comprehendis non est Deus”). Há sempre um mundo que não conhece Deus e um mundo que O conhece, mas como Mistério. A razão, em todas as suas formas, é chamada a fazer um caminho para chegar a Deus, mas no fim deve compreender que Ele é incompreensível. Então todos estes caminhos são inúteis? Certamente que não. Porque Deus não pede apenas para ser conhecido, mas para ser amado na simplicidade do coração.

 

Marco Doldi
In Nella Piazza (Blogue do Projecto Cultural da Conferência Episcopal Italiana) (adapt.)
Imagens: Peter Callesen
© SNPC (trad.) | 05.01.10

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