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Meditação

Jesus para todos

Porque é que Jesus provoca a assembleia e volta contra si um auditório que lhe parecia favorável? E o que é que a evocação de dois episódios bem conhecidos da história de Israel tem de tão chocante para desencadear uma hostilidade que chega ao ponto de o tentar matar?

A passagem do Evangelho de 31 de Janeiro é inseparável da do Domingo anterior (Lucas 4, 14-20). O narrador quis inaugurar o ministério público de Jesus por um discurso programático que manifesta o sentido da sua missão através da referência ao livro de Isaías (Lc 4, 18-19; cf. Isaías 61,1 e 58,6).

O texto lucano mostra que Jesus já havia tomado a palavra anteriormente e que tinha sido bem sucedido (Lucas 4, 14-15). O episódio da sinagoga de Nazaré tem, no Evangelho de Lucas, um papel comparável ao das bem-aventuranças no Evangelho de Mateus (5, 3-12), que são proclamadas igualmente no 4.º Domingo do Tempo Comum, mas no ciclo de leituras do Ano A.

 

Todos davam testemunho em seu favor (versículo 22)

A primeira reacção da assistência é simpática. Na maior parte dos casos, “dar testemunho” deve ser compreendido num sentido favorável. Aliás, não há nada nas palavras de Jesus que choque os seus concidadãos. O trecho da Escritura de que ele anuncia o cumprimento (v. 21) é uma boa nova para os pobres, os cativos, os cegos. Os habitantes de Nazaré acreditavam que seriam os primeiros destinatários desta mensagem de libertação.

Ainda assim, o entusiasmo não é generalizado. Subsiste uma questão respeitante à identidade do mensageiro: “Não é este o filho de José?” Esta interrogação está presente nos quatro evangelhos. Ela subentende que Jesus não está qualificado para a missão que se atribuiu (cf. João 7, 16-17). A mesma dúvida vai perturbar os primeiros missionários cristãos no começo da Igreja (cf. Actos dos Apóstolos 4, 13-14). As reservas dos habitantes de Nazaré não são apenas uma recordação do passado; quando Lucas escreve o seu evangelho, a questão é sem dúvida plena de actualidade.

 

Médico, cura-te a ti mesmo (v. 23)

É bem possível que tenha havido rivalidade entre Nazaré e Cafarnaum, duas pequenas cidades de província situadas a cerca de 35 km de distância. Jesus tem razões para crer que os seus concidadãos tinham ciúmes das gentes de Cafarnaum, pelas quais fez milagres. Não deveria também fazê-los na sua terra, dando mesmo um tratamento de favor àqueles e àquelas no meio das quais cresceu? Esta querela um pouco mesquinha vai oferecer-lhe a oportunidade de revelar outro aspecto fundamental da sua missão: a universalidade.

A mensagem de libertação do livro de Isaías dirigia-se em primeiro lugar aos exilados que o rei da Pérsia, Ciro, tinha autorizado a regressar ao país dos seus antepassados (538 a.C.). Este gesto foi entendido desde então como uma promessa de um futuro melhor durante as numerosas provações sofridas pelo povo judeu. Quando Jesus proclama novamente esse texto, e sobretudo quando anuncia o cumprimento para hoje (v. 21), os seus ouvintes esperariam o desencadeamento iminente de um grande movimento de libertação, independentemente da forma que pudesse assumir. Mais eis que ele orienta a interpretação do seu discurso para um sentido muito diferente.

Mais do que encetar uma explicação teórica relativa à abertura da salvação às nações pagãs – incluindo os Romanos, que ocupavam o país – Jesus lembra dois episódios bem conhecidos da história. Ao abrir as fronteiras da Boa Nova, não realiza um gesto inédito, revolucionário ou blasfemo, mas conduz simplesmente ao seu pleno cumprimento o que estava contido em germe nos gestos de Elias e Eliseu (vv. 25-27). Não é só a população de Nazaré que não tem direito a qualquer tratamento de favor em relação à de Cafarnaum; os próprios Israelitas não serão privilegiados face aos pagãos. Os pobres a quem a Boa Nova se dirige são todos os filhos de Deus, sem olhar à sua origem étnica.

 

Todos se encheram de furor (v. 28)

Ainda que no Antigo Testamento não faltem exemplos de abertura aos estrangeiros (veja-se, por exemplo, a história de Rute), a tendência isolacionista acabou por prevalecer (cf. Esdras 9-10; Neemias 13, 23-29). Na época romana, uma forte corrente nacionalista agitava a população. Este movimento resultará, em 66, numa revolta que, quatro anos mais tarde, conduziu à destruição de Jerusalém e do seu templo. Neste contexto, a posição de Jesus poderia ser interpretada como uma pura provocação. Lucas ilustra, desde o princípio do seu evangelho, o conflito fundamental que opõe Jesus aos seus compatriotas judeus: de um lado o anúncio de uma salvação universal, do outro uma concepção estritamente nacional da eleição divina e dos respectivos privilégios.

A partir de então a vida de Jesus vai ficar ameaçada. A paixão perfila-se no horizonte. Lucas menciona, sem dar detalhes, que Jesus escapa aos seus agressores. O seu conhecimento daqueles espaços, onde esteve indubitavelmente muitas vezes durante a infância, facilita a fuga. Mas para o evangelista esta evasão anuncia já a ressurreição. No confronto com os chefes da sua nação, Jesus parece ser o derrotado dado que é condenado e executado; na realidade ele é o grande vencedor pois Deus ressuscita-o dos mortos.

 

Não temas diante deles (Jeremias 1, 17)

A tradição cristã estabeleceu desde muito cedo um paralelo entre Jesus e Jeremias, o profeta mal amado por excelência. O seu auditório foi principalmente a população de Jerusalém e arredores (v. 18) – no seu tempo era tudo o que restava do reino de Judá – mas Deus envia-o como profeta das nações (Jer. 1, 5). Uma parte importante do seu livro é constituída por oráculos contra os povos (25, 13b-38; 46,2-51,64). Estas passagens contêm sobretudo ameaças e anúncios de desgraças. No entanto eles significam que Yahvé exerce a sua soberania sobre toda a terra e que a sorte dos povos estrangeiros não lhe é indiferente.

Quando Jesus declara que “nenhum profeta é bem recebido na sua pátria” (Lucas 4,24), está a pensar no destino de Jeremias, alvo da hostilidade dos seus contemporâneos, incluindo os seus próximos (cf. Jeremias 20, 7-18). Mas apesar de todas as dificuldades, não é abandonado por Deus, que lhe promete protecção: “Eu estou contigo para te salvar” (Jeremias 1, 19). Jesus também sabe que pode contar com o Pai. Em todas as circunstâncias, mesmo na morte, Deus está com Ele (cf. Actos 10, 38).

 

Evangelho de 31.1.2009 (Lucas 4, 21-30)

Começou, então, a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir.»
Todos davam testemunho em seu favor e se admiravam com as palavras repletas de graça que saíam da sua boca.
Diziam: «Não é este o filho de José?»
Disse-lhes, então: «Certamente, ides citar-me o provérbio: ‘Médico, cura-te a ti mesmo.’ Tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaúm, fá-lo também aqui na tua terra.»
Acrescentou, depois: «Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua pátria.
Posso assegurar-vos, também, que havia muitas viúvas em Israel no tempo de Elias, quando o céu se fechou durante três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a terra;
contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, mas sim a uma viúva que vivia em Sarepta de Sídon.
Havia muitos leprosos em Israel, no tempo do profeta Eliseu, mas nenhum deles foi purificado senão o sírio Naaman.»
Ao ouvirem estas palavras, todos, na sinagoga, se encheram de furor.
E, erguendo-se, lançaram-no fora da cidade e levaram-no ao cimo do monte sobre o qual a cidade estava edificada, a fim de o precipitarem dali abaixo.
Mas, passando pelo meio deles, Jesus seguiu o seu caminho.

 

P. Jérôme Longtin
Biblista
In Interbible
Trad.: rm
© SNPC (trad.) | 01.09.09

Jesus na sinagoga


























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